Esfinge sônica

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As batidas do Vodun (tradicional religião do Benin, com uma grande diversidade rítmica) correm como sangue pela veia de seus integrantes. As influências do funk de James Brown e do afrobeat de Fela Kuti são absorvidas naturalmente. Muita inspiração coletiva e comprometimento espiritual tornam a música da Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou uma potência indecifrável. Essa esfinge musical pousou em São Paulo e poderá ser apreciada no domingo 28-09 em show gratuito no Vale do Anhangabaú – em evento de encerramento do mês da Cultura Independente, que conta ainda show de Seun Kuti e discotecagem dos DJs da Festa Fela.

Três integrantes originais da banda – o vocalista Vincent Ahehinnou, o saxofonista Pierre Loko e o baixista Gustave Bentho – receberam nossa reportagem no lobby do hotel onde estão hospedados, no Largo do Arouche. Durante toda a entrevista, quem falou foi o cantor. Os outros dois músicos apenas consentiam balançando a cabeça ou com pequenos comentários. A sensação é que o discurso desta entidade beninense foi absorvido pelos integrantes de modo que seu porta-voz tem todas as respostas na ponta da língua, sem que seja necessário qualquer reparo ou correção da parte dos demais artistas. Isso é, com certeza, herança do líder da banda Mélomé Clément (morto em dezembro de 2012). Aheninnou falou sobre a importância do Vodun, da amizade com Fela, da efervescência cultural de Benin nos anos 70 e cravou: “Queremos fazer um show histórico”. Leia:

Um dos pilares da música da Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou são as batidas do Vodun. Qual é a importância desta cultura no Benin?
De fato, a música da Poly-Rythmo é muito influenciada por esta cultura. É e sempre foi nossa principal cultura. Quando os colonizadores chegaram, eles impuseram sua lei. O Vodun permaneceu como nossa principal manifestação, mas aceitou as outras culturas porque trata-se de uma cultura da paz. O Vodun influencia muito nossa música do ponto de vista da melodia, do ritmo e das rezas. Os cultos deixaram um legado musical e moral. Nossos ancestrais nos ensinaram a nos conhecer e a nos descobrir através do Vodun. Quando éramos crianças e chorávamos, nossas mães cantavam canções Vodun para nos acalmar. Então essa cultura está em tudo o que somos.

Quais são as outras influências da banda?
A música norte-americana, inglesa e francesa. Quando estávamos na escola, aprendemos a tocar e interpretar James Brown, Wilson Pickett, Beatles e outros. Esse aprendizado nos ajudou a forjar nossa própria música. No Benin, não existe escola de música e para se tornar um bom músico é preciso passar pela intepretação de outros gêneros. É preciso interpretar tão bem (ou melhor) um grande compositor norte-americano, francês ou inglês. Foi o que fizemos. Depois, colocamos nisso a nossa própria cultura, que vem do Vodun. Misturamos as duas experiências, o que resultou no nosso ritmo – o Vodun Funk! Conseguimos adaptar o ritmo do Benin a esta influência internacional e isso resultou em uma mistura maravilhosa.

Algumas músicas parecem ter influência do afrobeat. Qual foi o impacto da música de Fela Kuti no Benin?
Um impacto formidável! Durante um período, Fela e nós gravávamos no mesmo estúdio da EMI, na Nigéria. Nos encontrávamos sempre e quando o afrobeat estourou, pensamos que poderíamos contribuir para que essa música atravessasse fronteiras. Fizemos o nosso próprio afrobeat. Quando Fela passava por Cotonou, sempre nos encontrávamos. Não tínhamos telefone nessa época, mas os promotores nos informavam sobre sua chegada à cidade. Éramos como irmãos! Em 1977, quando a Nigéria organizou o Festac, fizemos um show no Teatro Nacional de Lagos e interpretamos a música “Lady” (de Fela) para homenagear este digno filho da África. O show foi transmitido ao vivo pela televisão e quando Fela nos viu, pegou o carro e foi nos abraçar. Foi fabuloso! Fela e Poly-Rythmo é uma grande história de amor!

Qual foi a importância de Mélomé Clément no direcionamento desta mistura original que se tornou a marca da Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou?
Mélomé viveu a vida inteira para a música. A Poly-Rythmo avançou muito sob sua direção. É um líder que não se encontra em outros lugares. Mélomé permitiu que vários integrantes da banda gravassem seus próprios discos com o “selo de qualidade” Poly-Rythmo – porque isso era necessário para o disco vender ou para ter público nos shows. Ele dizia: “rapazes, vamos dar uma chance a todo mundo, para que todos possam se beneficiar do que temos”. Todos trabalhávamos para chegar juntos ao mesmo objetivo. Ele viveu pela Poly-Rythmo e acompanhou a banda desde o nascimento dela até o dia em que ele se foi.

Como era a cena musical no Benin nos anos 70?
Muito intensa, movimentada. Todo bar tinha uma orquestra. Ainda não havia os DJs, então havia muitas orquestras. Com a revolução, as coisas ficaram complicadas. As orquestras foram desaparecendo pois as boates não podiam mais funcionar depois de um certo horário. Muitos clientes e músicos eram presos quando estavam saindo dos bares. O exército e a polícia estavam na rua. Todos foram desistindo dos clubes e logo depois surgiram os DJs.

A Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou tinha um público grande?
Todo o país estava com a gente! Quando viajávamos de Cotonou para tocar 400 km ao norte do país, em Parakou, os fãs da Poly-Rythmo nos seguiam de moto para assistir nosso show lá! Sem falsa modéstia, nenhuma orquestra fará o que fizemos no Benin. A época era propícia para que tudo isso acontecesse. Hoje em dia é mais complicado.

Vocês faziam muitos shows?
Sim! Sempre! Todo final de semana! E ao mesmo tempo que tinha bastante shows, havia muitos produtores de disco também! Todos queriam produzir apenas a Poly-Rythmo! Quando há demanda, é preciso ter oferta! E estávamos trabalhando para lançar discos. Produzimos bastante!

Seus discos vendiam bastante no país?
Vendiam sim! As pessoas não escutavam o disco do Poly-Rythmo antes de comprar. Se havia um disco novo na loja, elas compravam e pronto!

A banda tem mais de 500 músicas gravadas. Você sabe explicar de onde vinha tanta inspiração?
A inspiração é divina. Você não a procura, ela surge pra você. Todos estavam inspirados e compunham para a orquestra. Até o pessoal do estúdio, que organizava nossos instrumentos, compunha. Até eles! Compositores de outros países (como Costa do Marfim, Togo, Burkina Fasso) faziam suas músicas e nos chamavam para tocar com eles. Por isso, tocamos com os maiores. No Camarões, por exemplo, tocamos com Manu Dibango, Tchana Pierre, Ekambi Brillant etc. Havia muita energia positiva no Cotonou. A música é espiritual, é uma necessidade.

A banda continuou tocando ou parou nos anos 80? O que aconteceu?
Por que falam que paramos? Gostaria que alguém me explicasse isso. A Poly-Rythmo sempre existiu, sempre! Apenas houve um momento em que paramos de gravar discos como antigamente. Com a chegada do CD e com a pirataria, percebemos que produzir um disco não seria mais viável, não recuperaríamos o nosso investimento. Nos recusamos a ser pirateados. Se as pessoas querem consumir esses produtos, tudo bem. Mas nós nos recusamos a ter nossa produção – feita com espiritualidade, experiência, energia – pirateada. Então deixamos de gravar, mas seguimos fazendo shows. As pessoas falam desse período como se houvesse uma letargia, mas nunca paramos.

No começo do ano 2000, o resto do mundo despertou para a música da Orchestre Poly- Rythmo de Cotonou. Na sua opinião, por que isso só aconteceu tantos anos depois?
Devemos isso a uma única pessoa, nossa produtora e empresária Élodie Maillot. Foi ela que teve a coragem e a responsabilidade de tentar algo que ninguém tinha tentado. Nós mesmos, tentamos fazer a nossa música sair do Benin e da África, mas as pessoas falavam que não era exportável. “Se vocês querem ir para a Europa, tem que fazer música como os malineses, como os guineenses”. Mas essa não é a nossa cultura, não somos do Mali nem do Guiné, tudo que fazemos é baseado no Vodun. Élodie, que tem amor pela música e por nossa produção, fez tudo para nos levar para a Europa. Foi uma verdadeira surpresa. Tudo aconteceu graças a ela.

Como é seguir fazendo shows depois da morte de seu líder, Mélomé Clément?
Mélomé não foi embora sem nos passar os valores essenciais para seguir em frente com a orquestra. Ele nos ensinou tudo. Nos deu seu amor, tolerância e perdão. Ele vive em nós, está aqui, viveu o tempo todo para a música e para a Poly-Rythmo. Vocês vão ver no domingo! Vão nos ver no palco e entender que, mesmo sem Mélomé, continuamos sendo a mesma banda, com um som e um espírito únicos.

O que vocês esperam deste show em São Paulo?
Nós esperamos muito! Porque não gostamos da ideia de vir ao Brasil, fazer um único show e ir embora!! Queremos fazer um show para que os produtores e promotores brasileiros entendam que a banda tem que tocar no país inteiro! E vamos colocar a energia necessária para que todo mundo queira ver a Poly-Rythmo tocando no Brasil inteiro! É esta determinação que nos motiva. Queremos fazer um show histórico!

(Por Ramiro Zwetsch e Frédéric Thiphagne)

Quando: dia 28/09 a partir das 16h
Onde: No Vale do Anhangabaú
Quanto: de graça
Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou – 16h30
Seun Kuti – 19h30
Festa Fela (DJs Haru, MZK, RamiroZ e Vini Marson) – a partir das 16h, na abertura, nos intervalos e no encerramento

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