A genealogia de Fela

A Radiola Urbana conversou com o etnólogo cubano e biógrafo de Fela Kuti, Carlos Moore, sobre suas impressões a respeito da primeira gravação do nigeriano, de 1960, divulgada na semana passada. Aproveitamos para avisar: o escritor está em campanha no Catarse para o lançamento de sua autobiografia no Brasil. Leia!

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A Radiola Urbana celebra sempre quando surge algo novo e relevante sobre Fela Kuti. Na semana passada, vazou na internet uma música que vem sendo tratada como a primeira gravação do nigeriano. A faixa faz parte da compilação “Highlife on the Move”, que a sempre atenta gravadora Soundway Records vai lançar — inclusive em vinil, em edição caprichada com 3 LPs e um compacto. Se em um passado não tão remoto era preciso explicar quem foi o homem (basicamente um dos artistas mais importante da África e um ativista sem igual), hoje já passamos de fase: muita gente já entendeu a importância do inventor do afrobeat para a música e suas influências já são notadas por aí. O mais novo achado colabora para enriquecer o contexto histórico. Antes de cair a ficha do afrobeat, Fela já fazia suas experiências em alto nível de qualidade com o ritmo mais popular na África nos anos 60: o highlife. A gravação está disponível para audição no soundcloud, clique AQUI para ouvir.

Aproveitamos a descoberta para trocar uma ideia com a maior autoridade do assunto no Brasil, o etnólogo cubano Carlos Moore — que há 12 anos reside em Salvador. Ele é o autor da biografia “Fela. Esta Vida Puta”, lançada em 2011 no Brasil. Também é oportuno lembrar que Moore está em campanha no Catarse para lançar sua autobiografia, “Pichón”. Sua história tem de ser contada: deve haver poucas pessoas sobre a terra que tenham convivido com Fela Kuti, Malcom X, Abdias Nascimento e tantos outros nomes importantes na causa negra.

Então, portanto, são três recados: ouça a música inédita do Fela recém-descoberta, colabore com a publicação da autobiografia de Carlos Moore e leia abaixo sobre as impressões do escritor a respeito daquela que seria a primeira gravação do músico nigeriano.

Quais são suas impressões sobre esta gravação?
É um achado importante, pois nos mostra as fontes das quais Fela bebeu quando andava à busca de um novo elemento musical para exercer sua prodigiosa criatividade. Fela bebeu, efetivamente, de muitas fontes distintas: o highlife da África ocidental, os ritmos tradicionais da música yoruba, a musicalidade religiosa protestante que ele ouviu durante toda a sua infância (pois seu pai, o Reverendo Ransome-Kuti, era um grande músico) o mambo afro-cubano de Perez Prado, o calipso trinidadense de Lord Kitchener, Lord Sparrow e Lord Christo, o r&b afro-norte-americano de James Brown e outros da época, o mento da Jamaica e o jazz de Charlie Parker, a batida implacável de Max Roach, os lamentos de Lester Young e a vigorosa inovação de um Miles Davis. Tudo isso entrou na esfera de escolhas musicais do jovem Fela dos anos sessenta. Mas ele não foi o único a ser influenciado por essas variadas e poderosas correntes musicais da diáspora africana das Américas. Outros, também, beberam de exatamente as mesmas fontes, sem nenhum desembocar no afrobeat.

Na sua opinião, já é possível detectar elementos do que viria a se tornar o gênero afrobeat ou ele ainda estava longe daquele som?
No inicio dos anos sessenta, é até meados dessa propria década, Fela ainda estava longe daquilo que hoje chamamos de afrobeat. Eu, pessoalmente, nāo posso detectar NADA do que viria a ser conhecido como afrobeat naquele grande coquetel de músicas riquíssimas que Fela estava interpretando naquela época. O afrobeat é a criaçāo do Fela, sem nenhuma dúvida, mas ele passou primeiro pelo chamado afro-rock dos anos sessenta. Fela realmente começa a se distinguir melodicamente de todos os outros músicos africanos de sua época, como Geraldo Pino, a partir de 1969-70. O som que ele encontrou, tendo múltiplas raízes nas musicas anteriores, era algo realmente novo; um gênero novo. O afrobeat nasceu com ele. O Tony Allen contribui muito para a emergência desse novo gênero, mas como coadjuvante. Sem o Tony Allen, o Fela teria criado o afrobeat de todos modos. Ele teria encontrado um outro baterista que lhe desse a batida que Tony lhe deu.

Qual é a importância da descoberta desta gravação?

Essa primeira gravaçāo do Fela tem, sobretudo, uma importância histórica, no sentido genealógico.


(Por Ramiro Zwetsch)

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