A grande beleza

PJ Harvey se apresentou no Teatro Bradesco na terça 14/11 escoltada por uma ótima banda de 9 músicos e arrebatou o público com um repertório baseado em seus dois últimos álbuns (“Let England Shake”, de 2011, e “The Hope Six Demolition Project”, de 2016)! Cada arranjo esculpido nos estúdios ganha um elemento teatral no palco e a performance deixa a certeza de que a artista britânica está entre as maiores do nosso tempo.

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Por Ramiro Zwetsch
Fotos: Daniel Antônio

PJ Harvey entra no palco em uma marcha, saxofone em punho, escoltada pelos nove músicos de sua banda. A trincheira dispõe um arsenal aos olhos do público: duas baterias, três teclados e mais uma infinidade de guitarras e instrumentos de sopros. Ao longo do show, outras armas serão sacadas: violino, gaita, bandolim, acordeon.

Polly Jean veste uma microssaia, regata e um colete de plumas. Tudo preto. Ela, multi-instrumentista, “apenas” canta e se junta ao naipe de sopros em alguns momentos. Cada uma de suas ações é calculada. Cada dancinha, olhar sério na direção da plateia ou movimento de braços está estrategicamente sintonizado com a dinâmica dos arranjos. Não sorri, não fala com o público — apenas no finzinho, pra mandar aquele “obrigada” e apresentar a banda.

O repertório da primeira parte mira para os dois últimos discos da artista, “Let England Shake” (2011) e “The Hope Six Demolition Project” (2016), com raras exceções: “Shame” (de “Uh Huh Her”, 2004), “White Chalk” e “Dear Darkness” (“White Chalk”, 2007).

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São dois álbuns que ressignificam sua obra. Até então, ela já era uma referência de alto nível para o rock desde o primeiro disco (“Dry”, de 1992) em uma combinação inspirada de fúria, melodia e poesia. A dobradinha mais recente eleva a compositora inglesa a um outro patamar: a concepção do som ganha um maior esmero, cada arranjo parece esculpido, as letras reverberam conteúdo político relativos a experiências específicas — a crítica à intervenção britânica no Iraque, o impacto de suas viagens a zonas de conflito como Kosovo e Afeganistão, as mazelas da geopolítica em geral. O rótulo do rock quase não lhe serve mais. É arte, literatura, crítica social.

No palco, o elemento teatral entra em cena. A performance é toda coreografada. Acontece de tudo ao redor dela, com seus nove músicos em uma constante troca de instrumentos. Os dois bateristas tocam o show inteiro de pé; há momentos sem guitarras e outros com quatro delas acionadas ao mesmo tempo; a certa altura, os nove marcam o ritmo com palmas; noutro, um deles toca dois saxes ao mesmo tempo; e todos cantam nos refrãos em um coro grave, um grito de guerra, que serve sempre para realçar os médios e agudos de PJ. É uma característica do show: a movimentação no entorno é incessante, há momentos inspiradíssimos de cada músico da banda, mas os nossos olhos estão sempre nela. Ela está no controle, tudo se move para e por ela. Ela organiza o movimento.

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Já mais perto do fim, a artista saca das profundezas de seu repertório antigo a paulada punk-grunge “50ft Queenie” (do seu segundo álbum, “Rid of Me”, de 1993) e o teatro enlouquece. O que até então estava tão delicadamente burilado, se transforma em fúria, catarse, distorção, gritaria. De repente, são 10 artesãos das mais refinadas esculturas jogando tudo para o alto, contra a parede, literalmente quebrando tudo.

O jogo está ganho. Então toma-lhe dois clássicos pra fechar a conta (“Down By The Water” e “To Bring You My Love”, ambas do disco “To Bring You My Love”, de 1995) e o que vier é lucro. Êxtase.

Pode ter uma certeza: PJ Harvey está entre as maiores artistas de nosso tempo e sua obra é de uma contundência que não tem pra ninguém.

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