A liberdade é azul

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Azul é a cor mais quente – pelo menos quando o assunto é jazz. A gravadora Blue Note completa 80 anos em 2019 e mantém a aura de principal catalizadora das invenções que transformaram o gênero nos 50 e 60. Seu extenso catálogo é objeto de culto e fonte permanente de descobertas fonográficas que abrem horizontes na mente do ouvinte. Mestres como Miles Davis, Thelonious Monk, Jimmy Smith, Lee Morgan e Art Blakey (entre tantos outros!) escreveram importantes capítulos de suas histórias em discos lançados pelo selo, assim como gêneros como hard bop e soul-jazz cresceram e se consolidaram a partir de inovações promovidas por artistas que encontraram a liberdade necessária no ambiente dos estúdios de gravação dos álbuns da marca.

Para além da música, as capas da Blue Note são referência no mercado fonográfico e combinam com equilíbrio e ousadia as fotos de Francis Wolf com o desgin de Reid Miles. A harmonia entre cores, tipografia e imagem apresenta um resultado tão inspirado quanto o som – e essa fórmula é muito bem apresentada no vídeo abaixo, do canal Vox. Wolf fundou a gravadora junto com seu amigo Alfred Lion, em 1939. Os dois emigrantes judeus e amantes do jazz fugiram da Alemanha nazista para Nova Iorque, com o sonho de gravar os discos que gostariam de ouvir. Missão cumprida. O outro homem fundamental para esta linguagem consagrada é Rudy Van Gelder, técnico de som de praticamente todas as gravações registradas pelo selo entre 1953 e 1967.

A efeméride traz junto uma série de projetos interessantes para se aprofundar nesse legado jazzístico. Recentemente, foram lançados dois documentários: “Blue Note Records: Beyond the Notes” (de Sophie Huber) e “It Must Schwing – The Blue Note Story” (de Eric Friedler) – este, inclusive, exibido recentemente em São Paulo no festival In-Edit Brasil. Outra oportunidade para quem mora na capital paulista é o curso “A História do Jazz Moderno Através dos Álbuns da Blue Note”, que acontece a partir da semana que vem no Espaço Musical Ricardo Breim. Com oito aulas conduzidas pelo produtor musical e educador Tiago Frúgoli, o programa aborda a escuta e análise de oito álbuns icônicos da gravadora. Confira nossa entrevista com Frúgoli e ouça nossa playlist com 20 músicas em homenagem às oito décadas de Blue Note!

Por que Blue Note?
A ideia, além de contar a história do jazz moderno, é de pensar no processo criativo de uma produção fonográfica. E apesar de alguns álbuns muito importantes do jazz terem sido lançados por outras gravadoras, penso que a Blue Note é o selo que teve maior consistência nesse período, se apoiando sempre na direção artística de Alfred Lion, na engenharia de som de Rudy Van Gelder e no design gráfico de Reid Miles. O selo garantia um padrão de qualidade, ao mesmo tempo que transitava por vários subgêneros do jazz – o que é fundamental para a apresentação que quero fazer no curso.

O selo completa 80 anos em 2019. Qual período nessas 8 décadas te interessa mais e por quê?
De 1953, quando Rudy Van Gelder passa a ser o técnico de som responsável por quase todas as gravações, até 1967, momento em que o selo é vendido a um grupo maior e Alfred Lion, fundador do selo, deixa de produzir as gravações. Tenho uma preferência pessoal por álbuns lançados por volta de 1964, acho que foi um período muito criativo e inspirado.

Qual foi seu critério para escolha dos álbuns que serão abordados no curso?
Selecionei álbuns que deem conta das diferentes estéticas do jazz dos anos 50 e 60. Não gosto de ser rígido com categorização de gêneros, mas rótulos como “bebop”, “hard bop” e “free jazz” nos ajudam a entender diferentes escolas artísticas da época. A ideia é, com 8 álbuns, dar conta das principais correntes estéticas.

Qual é a importância de se ouvir álbuns inteiros na aula?
Hoje, temos mais acesso à música do que em qualquer período da história. Porém, sinto que dois fatores dessensibilizaram muito a nossa escuta, de maneira geral. O primeiro é o fato de ouvirmos cada vez mais música em segundo plano. E segundo, mesmo quando há uma situação de pesquisa musical e escuta ativa, o fácil acesso a um material infinito também pode gerar ansiedade e fazer com que passemos mais tempo buscando novas músicas do que nos aprofundando no que encontramos. A ideia do curso, mais do que tudo, é educar a escuta e incentivar os participantes a criarem hábitos para absorver a música com atenção plena. Acredito que existem camadas da obra musical que só podemos acessar dessa forma. Além disso, a ideia é analisar não apenas cada composição musical de forma isolada, mas enxergar o álbum como uma composição em si. Para isso, é necessário primeiro ouvir o álbum integralmente.

Você opta por não divulgar aos alunos os álbuns escolhidos. Por quê?
Sinto que já existem por aí muitas listas dos álbuns mais importantes da Blue Note ou coisas do gênero. Meu objetivo, ao não divulgar, é que, a cada semana, os alunos foquem nos álbuns que foram ouvidos na última aula, ouvindo mais vezes por inteiro ou retomando as composições que mais chamaram a atenção. Esse aprofundamento me parece mais interessante do que já pesquisar o álbum da próxima aula.

Já que os álbuns do curso não são divulgados, poderia dizer um você lamenta ter deixado de fora?
Claro! “The Real McCoy”, do McCoy Tyner, de 1967. Com o baterista Elvin Jones, seu parceiro no quarteto de John Coltrane; Ron Carter, que na época tocava baixo no quinteto de Miles Davis; e o saxofonista Joe Henderson, que tocou em vários lançamentos importantes do selo. Acho que foi um dos últimos álbuns produzidos por Alfred Lion. Se eu tivesse planejado um curso de 9 aulas, muito provavelmente fecharia com esse!

A História do Jazz Moderno Através dos Álbuns da Blue Note

Quando: Segundas (12/8, 19/8, 26/8, 2/9, 9/9, 16/9, 23/9 e 30/9), das 20h às 21h15

Onde: Espaço Musical Ricardo Breim – Rua Paulistânia, 162

Quanto: R$ 360,00

Mais informações: (11) 3813 2955

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