Blood on the Tracks, 40

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Diante de uma obra tão vasta e de alto nível, não é fácil eleger o melhor disco de Bob Dylan — mas “Blood on the Tracks” certamente é um dos finalistas. Não é o único disco da história sobre divórcio e relações que falharam, mas é o melhor mesmo quando comparado a outras obras-primas dos anos 70 como “Here, My Dear” (Marvin Gaye, 1978) e “Veedon Fleece” (Van Morrison, 1974). É um disco pessoal, já que o compositor passava um momento difícil no casamento com sua esposa, Sarah — união essa que terminaria no ano seguinte ao lançamento do álbum, lançado em janeiro de 1975.

Dylan, portanto, de certa maneira pressentiu o que aconteceria. Mas mais do que isso: ele pressentiu não apenas o final do relacionamento mais importante de sua vida, como também a fase de aceitação disso e a impotência de se perder algo que se quer muito sem ter o menor controle sobre a situação. Dessa forma, o que as 10 composições do disco apresentam é um cenário logicamente triste, mas de uma tristeza serena — real demais para não atingir em cheio qualquer um que preste atenção em sua instrumentação simples e, principalmente, em suas letras fortes e confessionais.

De certa maneira, o disco fala de um mesmo personagem, de um punhado de relacionamentos que fracassaram, mas que também já tiveram seus momentos de plenitude. É o eterno ciclo pelo qual qualquer pessoa passa e mesmo que cada uma de suas músicas tenha sido composta em uma determinada situação e para uma só pessoa, elas falam sobre um sentimento universal que se repete a cada coração partido — e a cada paixão recuperada e reencontrada também.

Duas canções demonstram isso mais explicitamente:

1) “Simple Twist of Fate” tem seis estrofes. Nas cinco primeiras ele canta em terceira pessoa as desventuras de um casal, para só no último assumir o papel de protagonista. A letra é linda e narra algo como se fosse o último encontro de um casal que sabe que tudo acabou e que é impossível de se modificar o destino no estágio em que eles se encontram. Essa letra costuma variar nas apresentações e regravações de Dylan, mas sempre mantendo a poética rica e a temática da canção. Na versão do disco, ele termina assim:

“People tell me it’s a sin (as pessoas me dizem que isso é um pecado) /
To know and feel too much within (saber e sentir tanto) /
I still believe she was my twin, but I lost the ring (eu ainda acredito que ela é minha alma gêmea, mas eu perdi o anel) /
She was born in spring, but I was born too late (ela nasceu na primavera, mas eu nasci tarde demais) /
Blame it on a simple twist of fate (a culpa é de um simples capricho do destino)”

2) A outra é “If You See Her, Say Hello”, o cúmulo da aceitação e da maturidade em reconhecer que algo, mesmo que tenha acabado, ainda pode marcar. Ali ele escreve quase uma carta para uma mulher, dizendo como sente a sua falta e como a admira e respeita pelos passos que ela escolheu seguir — e chega a uma conclusão linda no verso que diz “If you get close to her, kiss her once for me (se você chegar perto dela, dê um beijo nela por mim)”. Essa parte é potencializada em uma versão alternativa da canção que está no segundo volume da “Bootleg Series”, em que ele vai mais longe e canta: “If you make love to her, kiss her for the kids (se você fizer amor com ela, beije-a pelas crianças”). Se pra muitos os versos podem sugerir conformismo demais, uma outra interpretação sugere justamente o contrário: a conclusão é de que o amor não acaba, mas se transforma.

Mas nem tudo é aceitação no disco. Tem ainda canções como “Idiot Wind” onde ele dispara contra a imprensa e as fofocas sobre a sua vida pessoal (e até mesmo contra sua mulher) e ainda o épico “Lilly, Rosemary and The Jack Of Hearts”. Apesar de não ser um álbum conceitual, ele gira em torno de um mesmo tema complexo com toda a profundidade poética que só um mestre como Dylan conseguiria tratar ao projetar o amor em uma esfera futura. Aos ouvintes, ele parece deixar um recado reconfortante: ele acredita que o que duas pessoas que se amam buscam quando se juntam é uma memória que os habitará para sempre e se renovará a cada relacionamento. Sim, a arte serve pra alguma coisa.

(Por Alê Duarte)

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