Cartola é zica

Emicida faz o primeiro show do 74 Rotações, interpretando o primeiro disco de Cartola. Motivado pela apresentação, o rapper retomou as aulas de técnica vocal e diz: “eu fui crescendo com essa coisa do samba sendo sussurrado no meu ouvido pela voz da minha mãe”. Ele posou para nossa lente com a capa do disco e respondeu nossas seis perguntas. Leia!

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Quais são as suas impressões sobre esse primeiro disco do Cartola?
Eu sou suspeito pra falar porque tem dois compositores que eu acompanho a obra bem de perto: Adoniran Barbosa e Cartola. Quando rolou o convite, levei o disco para o meu professor de técnica vocal pra dar uma organizada nas coisas porque eu ando bem irresponsável com essa questão da voz. Aí eu falei “agora eu vou fazer uma coisa chique, uma coisa elegante” e percebi que eu sabia o repertório de cor. Foi e está sendo maravilhoso revisitar todas essas obras do Cartola, você vê como ele era realmente um gênio tanto na linguagem, como ritmicamente e nas harmonias. É tudo muito bonito, no lugar. É uma geração da música (Cartola, Zé Keti, Nelson Cavaquinho) que conseguiu sintetizar essa expressão do samba ser a alma do brasileiro de uma forma maravilhosa. Eu sou fã desse e de outros discos dele. Tem uma simplicidade na poesia dele que eu, da minha maneira, tento trazer para dentro da minha música. Uma música como “Alvorada” consegue desenhar a periferia de um outro jeito sem ser superficial. É uma música que retrata de dentro pra fora, falando de favela. Isso é bonito demais e poucas pessoas conseguiram fazer isso com essa propriedade.

Você se lembra quando foi o seu primeiro contato com a música do Cartola e qual foi o impacto disso na sua formação?
Para todos nós brasileiros, é difícil ter uma referência da primeira vez que a gente escutou um samba. A gente sempre teve o samba. Por mais que na sua casa seus pais escutassem rock, o samba sempre passou de alguma maneira. É uma característica cultural do brasileiro – em toda rua e em toda casa vai passar um samba em algum momento. Todo mundo tem um samba favorito. É uma coisa de devoção, de religião, que é maior do que gostar de determinado segmento musical. Então, eu me lembro dos primeiros sambas que eu escutei de madrugada, com a minha mãe organizando as coisas dela pra ir trabalhar às 5 horas da manhã e o rádio ligado. Ela estava sempre cantarolando alguma coisa de samba – Clara Nunes, Cartola, Martinho da Vila. Então eu fui crescendo com essa coisa do samba sendo sussurrado no meu ouvido pela voz da minha mãe.

O Cartola só veio a gravar esse primeiro disco dele com 65 anos. Você consegue avaliar qual seria a perda da música brasileira se esse disco não tivesse sido gravado?
Acho que nossa poesia seria menos bonita sem esse passo que o Cartola deu. Eu falo muito sobre como o rap é importante como livro de história da periferia pra minha geração. Mas o livro de história da geração que inspirou minha geração são esses caras aí. A caneta deles foi o que direcionou o sentimento da periferia porque conta a história de um Brasil que não está no livro. Esse disco traz uma perspectiva de um Brasil que não está no livro de história até hoje. Tem uma questão muito maluca, eu reflito muito sobre isso, que tem a ver com essa coisa do Cartola ter gravado esse disco tão tarde e essa relação que se tem com música desde tão cedo. No ocidente, a gente não consegue conceber a música fora da ideia de mercado: a gente anseia tocar num lugar, vender disco, fazer vídeo, ser um artista que de alguma maneira consegue se encaixar em uma indústria. Esses caras trazem uma questão da música que é tribal, religiosa: se juntar, fazer uma sessão e aquilo é uma conexão maior, espiritual. Eu tento buscar isso na minha música porque é a coisa mais bonita que a música negra tem.

Qual vai ser o caminho do show, vocês pretendem respeitar os arranjos originais?
Você não pode chegar na casa dos outros e ficar mudando as cadeiras de lugar (risos). Quando rolou de todo mundo sincronizar seu tempo, eu fiquei feliz para caramba de ser lembrado porque é maravilhoso interpretar essas músicas no palco. A gente canta essas músicas resmungando um pro outro, faz uma roda e sempre sai um Cartola. Para mim, artisticamente, é uma possibilidade de estudo maravilhosa e um bom puxão de orelha. Esse show foi a desculpa para eu reativar minhas aulas de técnica vocal. Quando tudo rolou, liguei pro meu professor e falei: “estou de volta e a gente tem uma missão, preciso cantar o Cartola direito”. A gente vai respeitar algumas coisas, no sentido de tentar reproduzir os arranjos de uma forma bem próxima do original. Mas a gente vai colocar nosso tempero ali, eu trabalho de uma forma muito autoral, muito autodidata, não consigo ir muito longe do que eu faço. Não tenho um campo tão extenso, não alcanço todas as oitavas que eu poderia. A gente vai respeitar algumas coisas, mas a grande verdade é que a gente vai ser muito free nessa parada.

Qual vai ser a formação?
Café (percussão), Doni (cavaco e violão), Rodrigo Campos (cavaco e violão), Thiago França (sopros), DJ Nyack mais baterista e baixista que estamos definindo. Thiago vai fazer aquelas mil coisas que ele tem, aquela parafernália toda que ele tem; DJ Nyack vai dar uma contemporaneidade pra coisa; Café e Doni são os caras que comem isso aí com feijão, tocam Cartola direto na noite. Estou bem ansioso, vai ser uma das coisas mais felizes que eu vou ter oportunidade de fazer não só nesse ano mas na minha carreira.

Na parte vocal, você pretende encaixar uns raps também?
Vou, em algumas músicas eu acho que cabe, tipo “Alvorada”. Mas isso vai ficar bem livre também. Pelo fato da banda ter isso na mão de uma maneira bem tranquila, eu também fico livre pra começar a rimar e eles entendem que tem um espaço ali pra fazer um rap. Isso o momento vai dizer mais do que a gente tentar organizar, porque é algo muito orgânico. É uma parada de feeling, de sentir e se olhar. Tem uma coisa que eu acho especial dessa época. Uma vez eu ouvi o Herbie Hancock falando sobre o jazz estar em baixa. O jornalista perguntou se o jazz estava em baixa e ele respondeu que isso acontecia porque as pessoas não se escutavam mais, todos vivem um tempo de muito individualismo. Essa experiência aqui e as coisas que eu tento fazer no palco é o contraponto dessa parada, um ponto de encontro para tentar dissipar esse individualismo: se olhar, tocar junto, ser obrigado a ouvir o outro para construir uma parada bacana. Acho que é isso que vai acontecer.

(Por Ramiro Zwetsch)
(Foto: Vinicius Nunes)

74 Rotações
De 18 a 21 de dezembro
18/12 – Emicida interpreta “Cartola” (Cartola), às 21h
19/12 – Luciana Alves e Marco Pereira Trio interpretam “Elis & Tom” (Elis Regina e Tom Jobim), às 21h
20/12 – O Terno interpreta “Lóki?” (Arnaldo Baptista), às 21h
21/12 – Los Sebosos Postizos interpreta “Tábua de Esmeralda” (Jorge Ben), às 18h
Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia), R$ 8 (comerciário) / a partir do dia 09-12, às 18h (online) e do dia 10-12, às 17h30 (nas bilheterias da rede Sesc).
Sesc Santana – Av. Luiz Dumont Villares, 579, (11) 2971-8700
www.sescsp.org.br/sesc

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