Coltrane em quadrinhos

Leia nossa entrevista com o artista italiano Paolo Parisi, autor da HQ “Coltrane”, que acaba de sair no Brasil pela editora Veneta. Na sexta, 19-02, acontece um evento de lançamento do livro na Patuá Discos.

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John Coltrane não se discute. É uma força da natureza. Todo culto em torno de sua obra e até a igreja com seu nome em São Francisco são perfeitamente concebíveis. Foi protagonista de transformações do jazz (“Giants Steps”, 1960) e também viu a história acontecer como acompanhante (“Kind of Blue”, de Miles Davis, 1959). Fez escola com os velhos mestres (Duke Ellington, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk…), mas fez questão de aprender também com os mais novos que o idolatravam (Eric Dolphy, Ornette Coleman, Archie Shepp). O saxofonista dedicou um disco a Deus e se tornou a encarnação do gênero conhecido como spiritual jazz. Mandou mensagens de paz através de sua música e previu seu próprio nirvana artístico com sugestões visionárias nos nomes que escolheu para alguns de seus discos: “Crescent” (1964), “A Love Supreme” (1965), “Ascension” (1965), “Meditations” (1966). Música é sempre uma experiência religiosa através de John Coltrane — mesmo para os ouvintes ateus.

Esse fascínio atingiu o artista italiano Paolo Parisi. É dele a HQ “Coltrane”, que retrata em quadrinhos a biografia do músico. O roteiro destaca algumas das experiências mais marcantes da vida do gênio e as embaralha com idas e vindas no tempo: shows, gravações, amores, amizades e inspirações. O livro saiu no Brasil pela editora Veneta e na sexta (19-02) acontece um evento de lançamento na Patuá Discos. Coltrane também é assunto nesta semana no Canal Curta! (56 da NET): a emissora exibe o único show do músico em que ele toca “A Love Supreme” na íntegra.

Parisi respondeu nossas seguintes perguntas por email e ainda nos presenteou com uma ótima playlist de jazz (com Donald Byrd, Lee Morgan, Freddie Hubbard e outros). Leia, ouça, sintonize o Canal Curta! e apareça na Patuá Discos para garantir um livro!

A HQ parece um trabalho de fã. Qual é a sua relação com a obra de John Coltrane e como surgiu a ideia da biografia?
Sim, realmente é. Escutei Coltrane pela primeira vez aos 16 anos. Eu comprei um CD com uma boa seleção de faixas raras / alternativas dos anos 50 da gravadora Blue Note: Coltrane, Lee Morgan, Kenny Dorham, Horace Silver, Bud Powell. A capa era “Blue Train” (disco de Coltrane de 1957). Passei muito tempo escutando essa compilação, aprendendo, gravando em minha mente cada detalhe, refrão, batida.  Virou uma obsessão. Acho que até hoje eu posso cantar e lembrar cada nota deste disco. A música sempre esteve presente em minha vida e a conexão com o som é mais forte do que com qualquer outra mídia. Minha experiência é estritamente ligada à contracultura, aos fanzines e à cultura pop. Comecei a publicar minhas pequenas história há poucos anos, porque é bonito e punk ter uma relação direta com seus poucos leitores. Basta fazer e imprimir coisas como você quer e gosta, sem qualquer tipo de compromisso. Até hoje ainda publico algumas coisas por minha própria conta, não com tanta frequência, mas faço isso para me sentir completamente livre para fazer o que eu quero. Depois de algum tempo, eu estudei as intersecções entre cultura pop, música e políticas sociais e decidi começar algumas colaborações com editoras e revistas. “Coltrane” é uma consequência natural de tudo isso: meu amor pelo jazz, por contar histórias e pela cultura pop. Sempre me impressionei com o som de Coltrane, sua atitude na vida e sua arte. É impressionante. Sinto Coltrane como um dos mais poderosos e completos músicos da história. Um músico em busca de “Peace on Earth” (uma de suas músicas, “Paz na Terra”, traduzindo para o português) vindo de “Interstellar Space” (nome de um disco gravado em 1967 e lançado em 1974: “Espaço Interestelar”). Ele sempre foi um guia pra mim. Eu me defino como um contador de histórias e, como tal, trabalho a partir de uma documentação anterior. Acho importante dizer que “Coltrane” só foi possível por causa de livros de escritores e jornalistas importantes que me inspiraram: principalmente Lewis Porter, Ashley Kahn, Yasuhiro Fujioka e outros tantos que cito na bibliografia no fim do livro. Você poderá encontrar também uma boa seleção de discos que me inspiraram para entrar no clima desta história.

Por que você optou por uma narrativa não linear?
Não há nada mais chato do que alguém lhe contar uma história de forma linear (risos). Estou brincando, é claro, mas essa é minha atitude em uma vida não linear. A ideia foi criar uma história não sequencial em todo o livro, algo como um solo de free jazz. Uma seleção de pequenos fragmentos da vida pessoal, da carreira e da música de Trane. Eu posso gastar centenas de linhas sobre o sentido de uma história, mas é muito legal quando o leitor constrói o seu próprio sentido.

Você dividiu o livro em quatro partes, com os mesmos títulos das faixas de “A Love Supreme” (1965). Por quê?
“A Love Supreme” tem essa particularidade: quatro partes, não faixas. O termo “parte” remete a “seção” de algo grande. Em um certo sentido, me remete ao capítulo de um romance. Essas quatro partes criam o álbum, o todo de “A Love Supreme”, terminando com um solo / poema espiritual (“Psalm”) de Trane. “A Love Supreme” faz também uma “fronteira” com a produção seguinte do saxofonista: “Ascension” (1965), onde Trane começa explicitamente a experimentar algo realmente diferente de todos os seus discos anteriores, tanto em termos de som como de composição. Eu apenas trabalhei a partir deste ponto: a história de Trane em quatro partes que lembram as quatro partes do álbum. Vemos seu começo nos anos 50 e 60 nos EUA, suas relações, sua genialidade — mas também seus limites e fragilidade: isso realmente me interessa, talvez seja o foco do livro. Há sequências estritamente relacionadas ao jazz, à indústria da música e, por fim mas não menos importante, ao movimento pelos direitos civis e a luta sociopolítica da comunidade afrodescendente.

A capa do livro é uma referência a “Blue Train” (1957), disco que não é mencionado na história. Esse é um disco que te atrai mais pela capa do que pela música?
Isso é um explícito tributo a Reid Miles e Francis Wolff (designer e fotógrafo da capa do disco, respectivamente). Eu acho que o jazz é feito de sons e batidas, mas também de fotografias e design. Quantas vezes você já comprou um disco por sua capa ou porque gostou do design ou da ilustração? CDs são tão pequenos, inúteis e falsos — como os anos 90, infelizmente. Não sei sua opinião, mas quando eu tenho em minhas mãos um LP gatefold com um design legal, wow… Tenho dito!

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Você foi influenciado por outros artistas que retrataram a música nos quadrinhos?
Bom, nem tanto. Quer dizer, eu gosto de quadrinhos e gosto de desenhar histórias porque nós somos feitos de histórias. Nós, humanos, tentamos contar as histórias certas para tornar a sociedade melhor. Mas eu acho que minhas influências artísticas vem do universo musical, não dos quadrinhos.

A espiritualidade e a questão racial foram duas inspirações importantes no trabalho de Coltrane. Estes temas também te influenciam de algum jeito?
Eu entendo o jazz como uma forte expressão de comunidade, algo urbano feito por pessoas pobres que não tinham nada além da música. Jazz como “fazendo parte de”, como “união espiritual”. Vamos pensar sobre AACM em Chicago ou Black Artists Group em St. Louis. Aqui encontramos uma forte conexão entre música, política e educação para os norte-americanos afrodescendentes. Acho que no fim da carreira, Coltrane se torna também um ativista: basta ouvir os discos “Olatunji Concert” (1967), “Live in Japan” (1966), “Ascension” (1965) ou a música “Alabama” (composição inspirada no atentado da Ku Klux Klan contra a igreja de Birmingham em 1963). Uma vez, Ornette Coleman disse: “acho que o som tem uma relação muito mais democrática do que a informação, porque você não precisa do alfabeto para entender música”. Música é um meio concreto para mudanças sociais. Um código imediato para compreensão. Nesse sentido, considero também os quadrinhos uma mídia democrática, barata, contundente, com conteúdo cultural de alta qualidade.

Uma das coisas mais interessantes na carreira de John Coltrane é o diálogo com outras gerações. Ele tocou com gigantes que surgiram antes (Duke Ellington, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Thelonious Monk), mas também aprendeu e deu visibilidade a muitos talentos que foram influenciados por ele (Ornette Coleman, Pharoah Sanders, Eric Dolphy, Albert Ayler, Archie Shepp). Você acredita que esse é um dos segredos de sua generalidade?
Ele procurava por “Something Else” (referência a um disco de Cannonball Adderley,  de 1958; “algo mais” na tradução), as gerações mais jovens deram a ele possibilidades para explorar novas direções. Sempre respeitei gerações mais antigas de artistas que querem interagir com os mais jovens: é um sinal de mente aberta e atitude, de estar constantemente procurando por coisas novas para explorar. Trane foi vanguarda também por isso: estar perto da nova geração significava uma conexão com a cena musical contemporânea.

Há um vendedor de discos em São Paulo (Big Papa) que diz: “John Coltrane nunca gravou um disco ruim, sua presença em qualquer trabalho (mesmo como acompanhante de outro solista) é garantia de um bom disco”. Você concorda?
Para mim, o disco dele com Johnny Hartman (de 1963) é um “disco ruim” — mas é um ponto de vista estritamente pessoal (risos). De qualquer forma, essa citação diz a verdade: “Coltrane era um músico muito dedicado, tocava de 8 a 12 por dia em uma constante pesquisa de novas formas na música”. Ele estava sempre pronto para gravar “um bom disco”.

Finalmente, talvez a pergunta mais difícil: quais são os seus três discos preferidos de Coltrane?
“Blue Train” (1957), claro; “Olé Coltrane” (1961) com o incrível Eric Dolphy e “Intestellar Space” (gravado em 1967 em duo com o baterista Rashid Ali e lançado apenas em 1974).

(Por Ramiro Zwetsch)

Lançamento da HQ “Coltrane”
Sexta, 19-02, das 18h às 22h
Na Patuá Discos – R. Fidalga, 516 – Vila Madalena
Jazzcotecagem: RamiroZ e Thiago França

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