Doce potência

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Neneh Cherry chutou a porta mais uma vez! Seu álbum “Broken Politics” é o nosso lançamento internacional preferido do ano que passou. Com trajetória solo iniciada no fim dos anos 80, a artista sueca teve alguma projeção pop (nas rádios, na MTV) com seus primeiros três LPs que transitavam em algum lugar próximo do rap e do r&b. Após um hiato de dez anos sem gravar entre 1996 e 2006, quando lançou um álbum com projeto Cirkus, a carreira ganhou um novo fôlego a partir de 2012 com o disco “Cherry Thing” (em parceria com o trio de jazz escandinavo The Thing). O experimentalismo, um certo sangue nos olhos em combinação equilibrada com boas doses de doçura e a (até então discreta) veia jazzística projetaram a compositora para um novo patamar. “Blank Project”, lançado em 2014 e com produção do cultuado Four Tet, confirmou que a guinada recente havia a transformado definitivamente: a inspiração e a originalidade do trabalho lhe garantiram um lugar exclusivo na música – com uma mistura de canções, rap, trip hop, jazz, e batidas eletrônicas que dificultavam que seu som ficasse enquadrado em qualquer rótulo.

“Broken Politics” é mais um degrau dessa escalada. Se as letras refletem sobre questões de urgência contemporânea (aborto, refugiados, violência decorrente do uso de armas de fogo), a voz de Neneh Cherry ressoa com doçura nas belas melodias e com contundência quando se aproxima do rap. A formação instrumental é especialmente criativa com elementos que criam uma atmosfera de viagem astral: vibrafone, piano, harpa e flauta em harmonia com as bases digitais mais uma vez a cargo de Four Tet. A faixa “Natural Skin Deep” é uma das que mais bate em cheio – bem balançada, dançante, com uma pausa jazzística e um ótimo sample garimpado no baú do groove caribenho dos anos 70 (uma versão para o soul “90% of me is You”, de 1975, tocada pela Amral’s Trinidad Cavaliers Steel Band). A artista se apresentou em São Paulo no ano passado, no festival Nublu Jazz Festival, antes do lançamento do álbum e fez um show baseado no novo repertório. O disco confirma a impressão que ela havia deixado no palco: Neneh Cherry está no auge, 30 anos depois de lançar seu primeiro trabalho solo. Palmas pra ela!

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