Fela Kuti, 80

felakuti

Regimes militares perseguem a arte e poucos viveram isso tão intensamente quanto Fela Kuti. O músico (cantor, compositor, letrista, produtor, saxofonista e tecladista) nigeriano tem um histórico de confrontos com a ditadura que comandou seu país na década de 1970 – mesmo período em que sua obra evolui espantosamente com mais de 30 discos lançados entre 1971 e 1979. É também neste mesmo intervalo de tempo que ele consagra a invenção do gênero afrobeat, uma poderosa adaptação africana à influência do funk norte-americano em que o transe rítmico se estende em longas composições (que normalmente giram em torno de 15 minutos e ocupam um lado inteiro dos LPs). O resultado é uma combinação rara de letras de protesto e uma dinâmica direcionada ao balanço, em que baixo, guitarra, bateria e percussão sustentam uma base com impressionante repetição e criam o ambiente para o ataque de metais, teclados e vocais. A voz de Fela canta como quem discursa em um palanque e sua mensagem ganha a ênfase de um coro feminino em um contraponto de timbres que potencializa o grito de guerra.

O músico teria feito 80 anos no dia 15 de outubro de 2018. Morto em 1997, vítima do HIV, ele deixou um legado que cada vez mais é reconhecido como um dos mais contundentes da música mundial. Há elementos que fortalecem o trabalho, em uma dessas comunhões que presenteiam a arte de tempos em tempos. Na questão da formação intelectual de Fela, duas mulheres foram fundamentais. Sua mãe, Funmmilayo Ransome-Kuti, foi precursora do feminismo na Nigéria e seu ativismo obviamente foi uma inspiração. Mais tarde, nos anos 60, a pantera negra norte-americana Sandra Izsadore abriu a cabeça do músico para as ideias de Malcom X e isso foi crucial para uma contundência maior em seu engajamento nos anos seguintes. Musicalmente, o artista teve ao seu lado instrumentistas igualmente geniais na banda Africa 70 – com destaque principalmente ao baterista Tony Allen, que criou a batida que se tornou a marca do afrobeat. Finalmente, o artista plástico Lemi Ghariokwu potencializou a mensagem de Fela com uma linguagem visual que misturava pintura e colagens e estampava as capas dos discos do músico.

Sua briga com o governo – personificada principalmente pelo presidente e militar Olusegun Obasanjo – o levou a declarar sua residência um território independente. Na República Kalakuta, ele vivia com vários familiares e amigos, integrantes de sua banda e suas 27 esposas. Sim, Fela era um praticante da poligamia, uma tradição na Nigéria. Suas mulheres, no entanto, não eram submissas. Elas fizeram uma opção de viver em uma trincheira de resistência onde se sentiam menos oprimidas do que no resto do país.

A Radiola Urbana celebra a obra do artista com esta playlist de 20 músicas e quase 5 horas de duração. É interessante notar que a história por trás de cada faixa ajuda também a escrever a biografia do nigeriano. Mais do que nunca, Fela Kuti precisa ser ouvido no Brasil.

1 – “My Lady Frustration” (1969)
Essa faixa é considerada a primeira do gênero afrobeat. Antes disso, ao longo dos anos 60, a obra de Fela ainda era muito baseada no ritmo do highlife, que era febre na Nigéria. É um tema instrumental e o título da faixa é uma referência às frustrações de Sandra Izsadore, com quem criou uma relação no fim dos anos 60, durante uma turnê pelos Estados Unidos.

2 – “Let’s Start” (1971)
Lançado junto com Ginger Baker, das bandas roqueiras Cream e Blind Faith, o álbum “Live!” explora a imagem e o nome do baterista britânico em uma provável tentativa de chamar atenção do público de rock. “Let’s Start” é outra faixa instrumental, um prenúncio da potência sonora que a Africa 70 se tornaria nos anos seguintes.

3 – “Shakara” (1972)
Um dos clássicos máximos de Fela, “Shakara” traz letras que misturam inglês e yorubá (uma característica recorrente na obra do músico) e criticam homens do poder que usam mentiras para se autopromover. Lembrou de alguém? A capa do disco homônimo é um clássico, com uma foto do alto em que as mulheres do músico aparecem seminuas e formam o mapa da África e os números sete e zero – referência ao nome da banda, Africa 70.

4 – “Roforofo Fight” (1972)
A letra de “Roforofo Fight” aborda um aspecto da natureza humana em que dois homens preferem sair na porrada em vez de resolverem suas diferenças na base do diálogo. Dá pra fazer outra boa analogia com o processo eleitoral do Brasil em 2018.

5 – “Gentleman” (1973)
A capa do álbum “Gentleman” traz uma colagem em que um macaco aparece vestido com uma espécie de sobretudo. Tanto a imagem como a letra da faixa-título fazem uma crítica à mentalidade colonial do africano, que ainda usa roupas da moda europeia mesmo após os britânicos deixarem o continente. No refrão, o artista afirma: “não sou um cavalheiro, sou um africano original”.

6 – “Expensive Shit” (1975)
Essa narra um dos episódios mais bizarros de Fela com a repressão policial. Ao longo dos anos 70, sua residência foi invadida várias vezes pela polícia. Em uma delas, em 1974, forjaram posse de maconha. O músico, instintivamente, engoliu o baseado. Ele foi preso e a polícia esperou que ele defecasse, na tentativa de encontrar a prova. Com ajuda misteriosa de outros prisioneiros, a amostra entregue estava totalmente limpa e o artista acabou liberado sem acusação.

7 – “Water no Get Enemy” (1975)
No lado B de “Expensive Shit”, “Water No Get Enemy” é considerada uma das faixas mais jazzy de Fela. A cadência é mais melódica e até o vocal aparece mais manso. A letra também tem um foco diferente, mais espiritual, na conexão do homem com a natureza.

8 – “Kalakuta Show” (1976)
“Kalakuta Show” é quase uma reportagem ou documentário que relata em detalhes mais uma entre as muitas invasões da polícia na casa de Fela. A capa de Lemi retrata o caos durante o episódio e na contracapa mostra-se fotografias do ataque. A música tem uma introdução diferente ao padrão de Fela, com um solo de sax melancólico antes da entrada em peso da banda.

9 – “Yellow Fever” (1976)
Mais uma vez, Fela aponta as críticas para a mentalidade colonial do povo africano e fala especificamente das mulheres negras que clareiam a pele.

10 – “Upside Down” (1976)
Essa faixa é uma raridade na obra do nigeriano: traz Sandra Izsadore nos vocais principais, enquanto Fela atua como instrumentista, compositor e produtor. A letra retrata o continente africano de cabeça para baixo.

11 – “Zombie” (1977)
Aqui o bicho pega: a letra trata os militares como zumbis que seguem às cegas os mandamentos do ditador Olusegun Obasanjo. Foi a execução dessa faixa ao vivo em um festival em 1977, em Lagos, o FESTAC, que motivou o ataque mais sangrento à residência de Fela. Mulheres foram estupradas, a casa foi incendiada e a mãe de Fela (Funmmilayo Ransome-Kuti, com 77 anos na época) foi arremessada de uma janela do segundo andar. Meses depois, ela morreria em decorrência da agressão.

12 – “Mr. Follow Follow” (1977)
Essa faixa é o lado B do LP “Zombie” e volta ao tema da servidão cega a um líder. No arranjo, o jogo de pergunta e resposta entre o vocal principal e os backing vocals é um dos mais inspirados em toda discografia de Fela.

13 – “Sorrow, Tears and Blood” (1977)
O groove de guitarra que introduz a música persiste ao longo de mais de 16 minutos e o arranjo ganha contundência conforme cada elemento se soma. Os versos reverberam a revolta de Soweto de 1976, quando milhares de jovens sul-africanos protestaram contra a obrigatoriedade do ensino do africâner, idioma oficial do Apartheid.

14 – “Colonial Mentality” (1977)
Nessa faixa é a linha de baixo que conduz toda a banda por uma hipnose sem fim. Fela aponta mais uma vez para a mentalidade colonial do povo africano, que não se liberta da condição de escravidão.

15 – “Opposite People” (1977)
Na letra de “Opposite People”, Fela protesta pelo direito de diversão e defende que todas as pessoas têm igual importância na estrutura social.

16 – “No Agreement” (1977)
Nessa faixa, a Africa 70 conta com a participação do saxofonista norte-americano Lester Bowie, da banda de jazz Art Ensemble of Chicago. A letra declara que jamais haverá acordo com as forças opressoras. “Como posso permanecer em silêncio quando meu irmão está com fome e sem lar?”, canta Fela.

17 – “Shuffering & Shmiling” (1977)
Em “Shuffering & Shmiling” (um épico com mais de 20 minutos de duração que ocupa os dois lados inteiros do LP), Fela aponta sua metralhadora giratória verbal para o papel da religião na manipulação do povo africano. Alô, Brasil!

18 – “Coffin For Head of State” (1980)
Essa simboliza o ativismo na música como poucas vezes se viu. A tradução literal do título é: “caixão para o chefe de estado”. Fela e os integrantes de sua banda fizeram uma procissão por Lagos, em 1979, com o caixão de sua mãe. Quando chegaram à casa do presidente da Nigéria, despejaram as cinzas no terreno. A capa mostra as fotos da caminhada e manchetes de jornais. Vixe!

19 – “ITT (International Thief Thief) (1980)
Embora Fela use a sigla de modo dúbio para descrever um ladrão internacional, a ITT era conhecida por todos africanos como a empresa de telecomunicações International Telephone and Telegraph. Ele ataca diretamente dois personagens: o presidente da Nigéria e da ITT, Olusegun Obasanjo, e o presidente da Decca Records, M.K.O. Abiola. O artista lançava seus discos pela Decca, mas rompeu com a gravadora quando ela começou a tentar interferir em sua obra.

20 – “2000 Blacks Got To Be Free” (1980)
Depois de uma turnê pela Nigéria que reunia o norte-americano Roy Ayers e Fela Kuti, os dois artistas lançaram um álbum em parceria e com uma mistura de integrantes de ambas as bandas. “2000 Blacks Got To Be Free”, composição de Ayers, trazia uma mensagem que na época oferecia esperança e hoje se mostra extremamente melancólica: “no ano 2000, os negros têm de estar livres”.

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