Fratura exposta

KikoKiko5 by Aline Belfort

Foto: Aline Belfort

Uma fratura é um trauma e exige reconstrução. É impressionante como “Rastilho”, recém-lançado disco do compositor paulistano Kiko Dinucci, evoca esse sentido com tamanha clareza e de forma tão ampla. O trabalho se expande nesse significado, em primeiro lugar, por sua invenção com o violão em mãos: o som, em si, tem algo que rompe ligamentos, uma dor que se transmuta em inspiração e na criação de um jeito próprio de tocar que o torna reconhecível logo nos primeiros golpes nas cordas para os ouvintes mais atentos e já com alguma intimidade com sua obra em discos como “Padê” (com Juçara Marçal, de 2008), “O Retrato do Artista Quando Pede” (com Douglas Germano, de 2009), “Pastiche Nagô” (com Bando Afromacarrônico, de 2009), o primeiro do Metá Metá (homônimo, de 2011) e “Passo Torto” (com Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Romulo Fróes, também de 2011). “Rastilho” também marca um reencontro do artista com o instrumento, já que ele estava empenhado em explorar a guitarra elétrica desde 2012. Esta volta às cordas acústicas não só retoma um desenvolvimento permanente de um estilo autoral como abre novas e surpreendentes frentes.

Há um outra ruptura experimentada de forma literal por Dinucci: ele quebrou dois ossos do pé após uma queda do skate em 2019 e o acidente acabou por exercer forte influência em “Rastilho” – já que ele se viu obrigado a encostar a guitarra por não poder usar os pedais ou lidar com todo aparato eletrônico que o instrumento exige. Finalmente, existe uma chaga maior que adoece o Brasil – desde sempre e cada vez mais – e o disco reverbera isso na violência que soa no toque rústico e autoral ao violão, nas letras e também na fotografia de Pablo Saborido que estampa a capa do álbum com uma imagem de frutos apodrecidos.

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Capa: Pablo Saborido

A incapacidade é um elemento importante: tanto a limitação física imposta casualmente ao processo como as dificuldades na criação de um virtuosismo ao violão tornam-se ingredientes que fazem a diferença na receita.  O músico já foi comparado a Baden Powell e sempre rejeitou a associação: se considera muito mais limitado tecnicamente e a experiência com o punk rock em Guarulhos na juventude é decisiva na concepção de uma batida que incorpora o lema do “faça você mesmo”. Se há um trabalho que cabe ao rótulo de samba-punk, este é “Rastilho”: menos é (ou pode ser) mais – e a vivência com os batuques de terreiro é outra bagagem decisiva para uma síntese extremamente criativa para um toque percussivo no violão, o uso dos graves que simulam as linhas de baixo e uma mão direita que se movimenta como se batesse no tambor.

Todo rótulo, porém, reduz. O trabalho ainda ecoa os experimentos vocais de Tom Zé na introdução de “Veneno” (um samba-rap sem precedentes e absurdo, na voz e na caneta do cronista Ogi); a letra e o título de “Foi Batendo o Pé na Terra” se comunica com muitos sambas que conhecemos (“Pisa Nesse Chão Com Força”, da Geovana, é só um exemplo); e o cinema é a inspiração para temas que o músico apresenta como “faroestes instrumentais” no texto de divulgação. Há também uma versão que ressignifica “Vida Mansa” – de José Batista e Norival Reis, gravada por Cyro Monteiro em 1955.

“Rastilho é o nome do osso que apoia as cordas do violão no cavalete e pode ser também o pavio de uma bomba”, explica Kiko. A faixa-título encerra o álbum com uma sentença: vamos explodir. “Queima / deixa arder / virar cinza / fumaça / a praça derreteu / a noite não findou / o temporal mal começou / deixa o sol nascer / quando ele quiser / a lava escorrer até o último sinal de vida / abraçado à morte sem saber /os moribundos dançam / as moscas já nos cobrem / ninguém pode parar / nem fé, amor ou sorte / vamos explodir”.  Brasil, 2020. Bacurau. Parasita.

A tensão cinematográfica tem um contraponto importante no coro feminino formado por Dulce Monteiro, Gracinha Menezes, Maraisa e Juçara Marcal em cinco das 11 faixas. As vozes das mulheres se fazem ouvir nesse contexto brusco, em uma combinação da doçura do timbre que estica no agudo com uma impostação de grito de guerra – é mais lenha na fogueira, sangue nos olhos, voadora no meio do peito. Já a participação de Ava Rocha em “Dadá” é delírio na veia: ela grunhe, vira bicho, apavora, assombra. Se por um lado mal a reconhecemos na gravação, por outro é impossível imaginar alguém que pudesse chegar perto do mesmo resultado.

É urgente. Escute. Exploda. E confira a breve entrevista que fizemos com o artista por email.

Por que “Rastilho”?
Eu gosto dos dois sentidos que a palavra tem: pode ser o osso que apoia as cordas sobre o cavalete do violão e pode ser o pavio de uma bomba. Eu fiquei vasculhando o violão, procurando o nome de cada peça dele, nunca sei direito os nomes. Quando descobri que o nome do osso era rastilho, falei: “é isso”. Eu estava cicatrizando uns ossos do meu pé direito que foram quebrados em um acidente. E gostei do sentido da bomba também, o disco é explosivo.

Na época dos lançamentos de “Pastiche Nagô” e do primeiro do Metá Metá, eu sentia você um pouco arisco às comparações com Baden Powell. Hoje, você reconhece a influência logo de cara nos textos que apresentam “Rastilho”. O que mudou de lá pra cá?
Eu tenho influência do Baden como tenho do Sonic Youth, do Odair José ou do New Order – eu adoro todos eles, mas não me sinto capaz de reproduzi-los, por pura limitação. Quando as pessoas comparam meu violão com o do Baden, eu vou lá escutar os discos dele e penso: “caramba, esse cara é um monstro, um virtuose, um furacão, eu tô muito longe disso, por incompetência mesmo”. O Baden não fez só os “Afro Sambas”, fez valsas, estudos, choros, sambas lindos, é muito imenso. A influência é importante, como um norte por onde você vai começar, mas eu escuto a minha música e não ouço o Baden, eu ouço eu mesmo; na época do “Pastiche Nagô”, já era eu também. Botei o Baden no release junto com Gilberto Gil, Rosinha de Valença, Jorge Ben, Caymmi porque eles me ajudaram a moldar o meu som. É importante louvar quem veio antes, mas eu quero botar o bloco pra andar. Não dá pra ser nostálgico nem voltar pra trás.

O que você quer dizer com “faroeste” e “western” na descrição das faixas “Marquito”, “Dadá” e “Gaba”? Como essa referência se manifesta nas gravações?
Me refiro ao clima de guerra, conflito ou duelo que essas músicas têm. A mais faroeste talvez seja a música “Marquito”: tem uns elementos meio Ennio Morricone nela. As personagens das músicas também carregam vários conflitos, físicos e psicológicos. Marquito foi guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional, Dadá foi cangaceira, Gaba Zacimba foi uma princesa angolana que foi escravizada e se rebelou. São personagens históricos pouco conhecidos. “Marquito” eu compus depois ler a biografia do Marighella e de assistir uma pré-estreia do filme “Bacurau” (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) – acho que o clima do filme me contaminou. Adoro outros faroestes brasileiros como “Deus e o Diabo Na Terra do Sol” e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (ambos do Glauber Rocha), “Os Fuzis” (Ruy Guerra), “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (Roberto Santos), “A Herança” e “Meu Nome é Tonho” (ambos de Ozualdo Candeias).

O violão é o único instrumento tocado. O coro, no entanto, soa como um contraponto importante ao seu jeito de tocar. Qual foi sua intenção ao trazer mais essa camada pro som?
Eu queria gravar um disco no qual o violão fosse o protagonista e comecei a repensar esse instrumento. Ouvindo o “Pastiche Nagô”,  “Duo Moviola”, “Metá Metá” e “Passo Torto”, eu já havia imprimido um jeito de tocar. Depois fui buscar novos caminhos na guitarra elétrica. Agora quis revisitar o meu jeito percussivo de tocar violão, juntar com as informações adquiridas nas andanças da vida, na poeira da rua. As influências do meu violão não pertencem só ao mundo musical. Tem a ver com a vida, ter sido punk, frequentado rodas de samba pela periferia, ter tocado em um terreiro, conhecer pessoas. Ao mesmo tempo que queria revisitar esse violão, notei que ele precisava de elementos que andassem em paralelo, vozes como a da Juçara Marça e Ava Rocha que não cantam letras, ecos, o Ogi cantando rap, um coro de pastoras feito pela Dulce Monteiro, Graça Reis e Maraísa, minha voz. Esses elementos deram vigor ao disco, alimentaram o violão.

Vamos explodir? O que, quando e como?
Essa frase vem da canção que dá nome ao disco, “Rastilho”. Esse samba é apocalíptico e ao mesmo tempo propõe algum tipo de reação. Todas as personagens do disco explodem de alguma maneira. O cara do “Febre do Rato” explode dentro de um imenso templo pentecostal, o cara do “Veneno” arruma uma briga com o capeta. O violão está se manifestando de forma explosiva. O rastilho está aí: quem quiser, acende e explode – depende de cada um.

Mais sobre Rastilho:

- na Trip
- na Ilustríssima
- no Aqui e Agora, da Dublab

PS: sábado tem show de lançamento do disco no Sesc Pompeia e os ingressos estão esgotados, mas sempre vale tentar a sorte lá na entrada!

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  1. Rastilho comentado - Trabalho Sujo - [...] seja por isso, vale a pena ler a crítica que o Vina e a Amanda fizeram do show no ...

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