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16/04/2007
Apanhador no campo do som **

Por Rodrigo Silveira

Nascido russo e criado londrino, o produtor DJ Vadim acaba de lançar o seu quinto álbum, "The Sound Catcher" -- quinto álbum como DJ Vadim, diga-se. Vadim Peare, como também é conhecido, lançou trabalhos assinando Andre Gurov e Little Aida e já participou de outros tantos projetos: The Isolationist, The Bug, 7 Notas 7 Colores e, mais recentemente, One Self (no qual uma das integrantes é sua mulher MC Yara Bravo). Trabalhou com Public Enemy, Pharcyde, Company Flow, The Roots, Dilated Peoples, Kraftwerk, Super Furry Animals e Paul Weller. E o que mais?

Em 1992, assinou com o selo canadense Ninja Tune. O nome do russo apareceu para somar ao time global da gravadora. Krush, do Japão, e Cam, da França, são exemplos do caráter multiterritorial da Ninja Tune, à época. Em 95, ele fundou o seu próprio selo, Jazz Fudge. O homem parece descansar carregando pedras. Talvez esse seja um dos motivos pelo qual é carinhosamente conhecido como o "John Coltrane do hip hop".

Vadim vem de uma tradição do hip hop underground, que cresceu nos anos 90 com uma atitude que, em suma, ironizava o hip hop comercial e estabelecido do gangsta, que bradava rimas baseadas no tripé armas-mulheres-dinheiro. Para contrapor-se aos beats milionários de então, Vadim desenvolveu uma batida funky seca e quebrada, encimada por um baixo supergrave, adicionada toda a sorte de ruídos, que derivou para o rótulo hip hop abstrato.

Daquele tempo para cá, Vadim circulou pelo mundo, fez shows, produziu, gravou, remixou e, claro, coletou o maior número de sons que conseguira. "The Sound Catcher" parece suficientemente feliz ao juntar, em um só disco, as experências de Vadim ao redor do globo e ao longo destes anos. Há, neste lançamento, a batida taquirrítmica de seu andamento abstrato; há, ainda, os climas atmosféricos, tão usuais nas composições deste dj; e há, também, a presença de melodias assobiáveis e faixas muito próximas a canções: isso resulta em uma costura amigável de reggae, dub, disco, soul e blues combinados com timbres exóticos de percussões indianas, árabes e japonesas e ruídos minimais que ecoam no disco.

Essa miríade de sons convive em parcimônia, é certo, mas Vadim não deixa de lado seu temperamento experimentalista e continua fragmentando, fatiando, picotando os sons. Mas este incendiário agente duplo, hoje casado e mais maduro, soube ritmar tantos pedaços desconexos. Destarte, a descontinuidade presente é acessível, dançante até. Este russo cerebral tem a consciência de manter a temperatura alta em uma pista.

É curioso que Vadim, para abrir e fechar o disco, escolha justamente as texturas jamaicanas. As faixas "Feat Feats" e "Watch The Sound", respectivamente primeira e última faixas do cd e ambas com o mc Emo à frente, têm camadas de reggae, ragga e dub. O recado parece ser simples: mais do que explorar os limites da música em seus gêneros e subgenêros, a intenção de se reunir em volta de um disco é, principalmente, curtir um som, sacou?

"The Sound Catcher" é classificado por seu criador como seu trabalho "mais conciso, preciso, o melhor já feito até agora". O carinho é percebido na maneira como ele combina tantas formas musicais. DJ Vadim é um coletor, um apanhador de sons do mundo. Na década passada, ele foi um dos nomes que mostrou as múltiplas alternativas dentro do hip hop, enquanto outros estilos necrosavam. Atualmente, quando o gênero parece sofrer do mal da mesmice, ele retorna pra mostrar como as coisas devem ser feitas. Sigam este homem!

* Rodrigo Silveira é artista gráfico e um dos fundadores do Selo Instituto. www.rodrigosilveira.org

** Essa coluna é publicada originalmente no Terra Magazine. Leia textos anteriores aqui.










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