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03/01/2007
Rock de preto

Por Daniel Setti (fotos e texto)

Um homem negro alto, trajado em camisão paquistanês, touca muçulmana e coturno, caminha pelas ruas do tranquilo bairro de Poble Nou, em Barcelona, numa tarde de outubro. Ninguém ali parece saber que se trata de Angelo Moore, fundador, vocalista principal e saxofonista do Fishbone, a mais antiga, influente e comercialmente subestimada banda da geração funk-rock (funk-metal, diriam alguns), forjada no começo dos anos 80 e cujo boom no mainstream viria na década seguinte.

Ora, a mais influente? Bom, se em 1989 o Red Hot Chili Peppers já os sampleava – um trecho de “Bonin’ in the Boneyard” aparece em “Good Time Boys”, de Flea e companhia – e Vernon Reid (guitarrista do Living Colour) rasgou mil e uma sedas aos caras no encarte da coletânea “Fishbone 101: Nuttasurusmeg Fossil Fuelin…” (1996), dá para se dizer que sim. Aliás, com a mesma convicção com que se afirma que Moore e sua patota nunca colheram os louros do sucesso de Peppers, Living Colour, Rage Against the Machine e tantos outros do gênero que anteciparam.

“Fui dar uma volta, procurar a praia. Sabe onde tem aquela obra do Salvador Dalí?”, pergunta Angelo ao repórter. Ele se referia à Cap de Barcelona, que na verdade é de Roy Liechtenstein e está longe dali. Com a correria da atual turnê européia do Fishbone – quase um show por dia durante um mês, em pelo menos oito países – o passeio vai ter que ficar para a próxima. É hora de voltar ao Mephisto, um simpático muquifo dedicado a bandas de heavy metal (no dia seguinte seria a vez do Winger!) onde será o show de mais tarde.

Com 27 anos de estrada, o Fishbone está lançando, por enquanto só na Europa, seu oitavo trabalho de estúdio, “Still Stuck in Your Throat”, motivado por uma nova formação que inclui Rocky George, ex-guitarrista do Suicidal Tendencies (no flyer aparecia “Ricky Georges”, para gargalhadas gerais da turma). Antes de subir ao palco para uma performance arrasadora regada a muito soul, gospel, ska (do jamaicano negro e do inglês branco) e hardcore durante a qual Angelo Moore só não fez chover – não faltaram coreografia de kan kan, roda de pogo e seus tradicionais stage divings – o menos reconhecido dos frontmans bombásticos inesquecíveis nos recebeu no ônibus do grupo para uma conversa:

Qual foi a melhor época do Fishbone em termos de turnês?
É difícil de lembrar, é difícil de dizer, porque foram tantas turnês, tantos shows. Mas cara, eu sou grato por ainda poder fazer turnês, poder tocar. E de todas as formações da história do Fishbone, a nova é a que mais “pega”.

Você acha que a atual é a melhor de todas?
Sim, porque temos a oportunidade de excursionar novamente. O novo disco foi lançado na Europa – os EUA não lançaram. Isso (o novo line-up) me deixa feliz. Para mim é ruim recordar o passado, tento jogar tudo aquilo fora.

Por quê?
Muitas brigas, muitas más recordações… muitas boas lembranças também, mas muitas más recordações. Brigas entre os antigos integrantes, com empresários, com gravadoras, a falta de apoio delas, executivos cujo principal objetivo é roubar os artistas…

Vocês estiveram na América do Sul (Chile e Argentina, anos 90). Por que nunca foram ao Brasil? Aposto que foram convidados.
Sim, mas pelo que eu lembro, rolou algo louco como venda insuficiente de ingressos. Fiquei me perguntando sobre isso. Eu nunca entendi. Se já estávamos na América do Sul… mas houveram muitos lugares que não fomos.

Você acha que o Fishbone foi bastante copiado?
As pessoas copiaram a gente, porque gostavam do jeito que fazíamos nossa música e éramos criativos. Mas veja bem, muitas dessas bandas não tocavam da forma densa, ou, não sei bem a palavra… realística, como nós tocávamos. Davam uma suavizada com um pouco de pop, talvez não tão ameaçador.

Vocês eram amigos do pessoal de bandas como Red Hot Chili Peppers e Jane’s Addiction, surgidas na Califórnia pouco depois do Fishbone. Ainda têm uma boa relação com eles?
Sim, de certa forma. Todo mundo é muito ocupado, então não nos vemos muito. Mas quando nos encontramos rola sempre um amigável “ei, como você está?”. Na real, vi o Perry (Farrell, ex-vocalista do extino Jane’s) na Flórida. Fui fazer um trampo numa rave do coletivo Rabbit on the Moon onde ele foi ser DJ. Vi ele num barco! Era seu dia de folga e o meu também…

Com a explosão da música alternativa, no início dos anos 90, todas essas bandas tiveram suas chances. Você acha que vocês não tiveram o mesmo sucesso porque são uma banda de músicos negros?
Sim, acho que tem muito a ver com isso. Ser negro numa sociedade branca, nos EUA… talvez se tivessemos conseguido (sucesso) aqui (na Europa) seria diferente. Algum lugar fora dos EUA. Porque os EUA são racistas, foram fundados por racistas, ladrões e merdas como essas. Isso tem um grande efeito em como somos apresentados ao público e as chances que nos dão. Não sei, cara, quando vamos bem nos EUA, ainda assim não é tão bom quanto aqui na Europa.

Em que país da Europa vocês têm mais êxito?
França! A França nos trouxe aqui, se não fosse por eles… a (gravadora e agência de shows) Ter a Terre, de Bordeaux, nos contratou e agendou a turnê. Isso há uns cinco anos. A França tem sido a salvação, cara… desde a era do jazz. Nos deram uma segunda chance.

Qual seu álbum favorito do Fishbone?
Cara, são perguntas difíceis! (risos). Creio que “Chim-Chim’s Badass Revenge” (1996)… talvez “Give a Monkey a Brain and He will Swear He’s the Center of the Universe” (1993)

Quais são os cinco artistas ou bandas sem a influência dos quais não existiria o Fishbone?
James Brown, Specials, os Bad Brains, Count Basie, Linton Kwesi Johnson. Ah (suspira)…










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