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Safári Estereofônico, vol. 3
Os ecos do afrobeat de Fela Kuti: sintonize Safári Estereofônico, vol. 3!

Safári Estereofônico, vol. 1
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21/03/2007
Jamaica Hi-Fi #7

JHF#7: música jamaicana de todos os estilos + misturas com eletrônica + rasta excentricidades
Produção:
Chico Dub 
Foto: Lucas Bori

Clique aqui para ouvir.

fundação asiática de dub; bally sagoo meets rockers uptown; punky reggae party na capital dos eua; damon albarn ataca novamente; kiwi dub; kiwi dub 2; dub mediterrâneo; dj assustador contra as pistolas dub; faça barulho para o skream

- "Return to Jericho (dub version)" – Asian Dub Foundation (95)
- "Eastern Dub" – Bally Sagoo (01)
- "Dreadlock Don´t Deal in Wedlock" – Jah Wobble (78)
- Leaving Babylon – Bad Brains (80)
- "History Song" – The Good, The Bad & The Queen (07)
- "Hope" – Fat Freddy´s Drop (05)
- "Dub Survivor" – Salmonella Dub (02)
- "Fa´ Ammore Cu´me" – Almamegretta (01)
- "Peace in Zaire Mix (Dub Pistols inna NYC Style)" – DJ Spooky vs. The Dub Pistols (99)
- "Blue Eyez" – Skream (06)

))) Sou completamente fissurado em “Rafi´s Revenge” e “Community Music”, discos do Asian Dub Foundation, combo formado por ingleses descendentes de paquistaneses e indianos, que figuram entre os melhores do crossover com a música jamaicana. O ADF honra como ninguém a tradição punk/reggae de meter o pau no sistema, crítica que aliam com comentários sociais sobre o preconceito sofrido por imigrantes no UK, algo na linha Linton Kwesi Johnson. O som é uma fusão de rock, psicodelia, dub, ragga, hip-hop, eletrônica e percussão típica do Punjab (dhol, tabla), região fronteiriça entre Paquistão e a Índia. A versão original de “Return to Jericho” é do primeiro álbum do ADF, “Facts and Fictions”, de 95. Mas a que você ouve aqui na Hi-Fi é rara, de duração um pouco maior. Repara nos espaços, quase silêncios, da música. Dub é muito mais do que simplesmente baixo, bateria e efeitos. O ADF já trocou de vocalista umas três vezes, mas esse aí, Deedar, é o que melhor se encaixa no som da banda, que hoje conta com o poderoso Ghetto Priest (Hi-Fi #1) num dos vocais.

))) O ADF é o mais conhecido, porém muitos outros artistas e DJs ingleses de descendência punjab (ou mesmo nascidos lá e criados na Inglaterra) se tornaram famosos em meados dos anos 90 graças ao banghra – mistura de sons tradicionais da região com a música ocidental. Em Londres, havia a festa d&b Anokha (a coleta "Anokha: Sounds of the Asian Underground" é um clássico do gênero) e a Outcaste (também gravadora), que juntava no liquidificador acapellas hindus com batidas eletrônicas, hip hop, folk indiano e samples de orquestras de Bollywood. Essas noitadas foram fundamentais para botar nomes como Talvin Singh, Apache Indian (um dos precursores do estilo), State of Bengal, Badmarsh and Shri, Oi Va Voi, Panjabi MC e Bally Sagoo no mapa. É deste último que selecionei “Eastern Dub”, som tirado de “Dub of Asia”, disco inteirinho dedicado ao mix de dub com sons do Punjab. Se você ouve reggae frequentemente, não vai ter a menor dificuldade pra identificar a inspiração de Sagoo para a linha de baixo. Molezinha.

))) Depois de largar os Sex Pistols em 78, John Lydon, um dos maiores fãs de reggae que se tem notícia, foi convidado pela Virgin a viajar pra Jamaica e contratar quem ele quisesse pro novo selo da gravadora, o Frontline. Depois de três semanas, Lydon assinou com Big Youth, Mighty Diamonds, Prince Far I, Johnny Clarke e Gladiators – casting mega responsa. Logo depois, já em Londres, Lydon montou o Public Image Limited. O baixista, Jah Wobble, apesar do nome sugerir o contrário, era um branquelo que mal sabia tocar o instrumento. Graças a sua obsessão por reggae, Wobble aprendeu a labuta rapidinho, injetando linhas de baixo sinuosas made in Jamaica ao som esquisitão do PIL. Hoje, Wobble, um dos reis do ambient dub de tintas étnicas, é considerado um dos maiores especialistas no assunto. Só pra registrar, seu baixo marcante está em “Safe from Harm”, do Massive Attack; em “Higher Than the Sun (a dub symphony in two parts)” do Primal Scream; em “Overboard”, uma das melhores do Dub Syndicate. “Dreadlock Don´t Deal With Wedlock”, gravado em paralelo ao PIL, é o primeiro trabalho solo de Wobble. Som pra lá de ofensivo e machista, só que muito engraçado.

))) Mais ou menos na época em que o PIL gravava seu clássico “Metal Box”, do outro lado do Atlântico, mais precisamente na capital dos EUA, o Bad Brains lançave seu disco homônimo. O BB, se não é a banda de hardcore mais idolatrada de todos os tempos, certamente é a mais bizarra delas. Primeiro pela formação, totalmente negra. Não que isso seja bizarro, mas os negros nunca foram muito bem vindos no ambiente branco do punk – não à toa, os BB tiveram que se mudar para a muito mais prafrentex NYC. Segundo, porque ao contrário dos ateístas e agnósticos, os Bad Brains são rastafaris devotos. Uma banda que intercalava os mais furiosos petardos da cena hardcore de Washington D.C (Minor Threat, Youth Brigade, Dag Nasty, Teen Idles) com chapados reggaes de nomes como “I and I Survive”, “Rally ´Round Jah Throne”, “I Luv I Jah” e “Leaving Babylon”. OK, o The Clash já fazia o mesmo. E o Ruts também. Mas, veja bem, estamos falando da América, certo? Difícil imaginar bandas como o Fishbone, Sublime, 311 (que inclusive gravou uma versão de “Leaving Babylon” no disco “Soundsystem”), o recente Dub Trio e toda a “terceira onda do ska” sem o Bad Brains.

))) Quando li que o novo projeto do Damon Albarn (Blur, Gorillaz, Mali Music, dono do selo Honest Jons, o “branco mais negro do oeste de Londres”) usaria os talentos de Paul Simonon, baixista do Clash, Simon Tong, ex-guitarrista do Verve, e o fera Tonny Allen, baterista da Africa 70 de Fela Kuti, pensei na hora: “Taí, obra-prima à vista, lá vem um Sr. disco de rock, dub e afrobeat com produção malucassa do Danger Mouse”. Ledo engano. "The Good the Bad & The Queen", um disco solo de Albarn, na verdade, é apenas razoável. Bom, talvez eu esteja sendo cri-cri demais. Mas com uma banda dessas, o mínimo que se esperava era que o nigeriano Allen espancasse a batera como só ele sabe. Paul Simonon disse numa entrevista que não pegava no baixo fazia uns 20 anos. “History Song”, “Behind the Sun” e “Three changes” mostram que ele continua mandando muito. E que a cultura do grave iniciada na Jamaica está mais viva do que nunca.

))) Junto com “Welcome to Jamrock”, “Hope”, da banda Fat Freddy´s Drop, é A música de 2004. Difícil não se encantar pelo seu caráter épico: dez minutos de um vai e vem no melhor estilo dubwise, com letra cativante na voz do soulful Joe Dukie, baixo poderoso e metaleira jazzy. Desde que o divulgador supremo da (boa) world music, o radialista e DJ Gilles Peterson, passou a tocar “Hope” e outras na Radio 1, o Fat Freddy´s Drop saiu da sua cidade natal, Wellington, na... Nova Zelândia, pra conquistar o mundo. Distribuídos na Europa pela berlinense Sonar Kollectiv e a londrina Kartel, o septeto, a cada dia que passa, ganha novos fãs. E não é difícil entender os motivos. “Based on a True Story”, de 2005, é bom do começo ao fim. Um som praiano – ainda que melancólico em muitos momentos – só que totalmente diferente de Jack Johnson e afins. Aqui, o bagulho é encorpado: muito soul, reggae, dub, jazz, eletrônica de baixos teores. Também recomendo uma audição dos singles. Rolam versões muito boas do Boozoo Bajou (em breve aqui na Hi-Fi), Jazzanova, The Nextmen, Digital Mystikz e o povo da Blood & Fire.

))) Também da Nova Zelândia – confira a coleta “New Zealand in dub”, da Echo Beach, pra conhecer a interessante cena de dub/reggae local –, Salmonella Dub é uma banda de certo sucesso no Brasa devido a Tronador Music, selo que lança seus discos no país e que licencia suas músicas para filmes de surf. Em 13 anos de carreira, o Salmonella já acumula seis álbuns de estúdio, quatro EP´s e um disco, “Outside the Dubplates”, em que as suas maiores influências (Dreadzone, Mad Professor, Zion Train e Adrian Sherwood) remixam suas músicas. Uma bela carreira, mas que provavelmente não decolou em escala mundial, como a do FFD, porque o som deles é mais de nicho. Um Dub eletrônico psicodélico, às vezes um steppers puxando pro house, como nessa “Dub Survivor”, às vezes downtempo. Também rola um d&b e um ragga de leve.

))) Mencionei o Almamegretta (“alma migrante”) na Hi-Fi passada, quando fiz a seleção de uma música do Adrian Sherwood cantada por Raiz, ex-vocalista da banda de Nápoles, sul da Itália. O Almamegretta, formado em 91, é o principal responsável pela introdução do dub na Itália. Apesar de bastante famosos por lá, a banda, infelizmente, não é conhecida internacionalmente – a resistência a cantar em inglês, uma atitude política segundo os próprios, certamente é a razão para tal. Basta fazer uma rápida pesquisa no Google pra comprovar: quase 100% da info que se encontra sobre eles é em italiano. Pena, porque a mistura de dub sherwoodiano e laswelliano com o folk local, construído sob a influência árabe dos países do Norte da África, é incrível. Conheci o Almamegretta por causa do remix que eles fizeram para “Karmacoma”, uma das minhas preferidas do trio. Paul Dailey, do Leftfield, gostou tanto desse remix que convidou Raiz (Rino della Volpe) pra cantar no segundo disco deles, "Rhythm And Stealth". A música, que onda, chama-se “Rino´s prayer”. “Fa´ Ammore Cu´Me” é um rolo compressor que nem o doce lamento de Raiz consegue frear. On-U Sound total.

))) Thievery Corporation, Bill Laswell e DJ Spooky That Subliminal Kid são os embaixadores do dub nos EUA. Cada um a sua maneira, claro, já que nenhum deles é um artista 100% de dub. Viva a suruba! Spooky é uma das figuras mais inteligentes da música contemporânea. É professor de universidade, autor do livro cabeça “Rhythm Science” e palestrante altamente requisitado para assuntos relacionados à copywright, hibridismo cultural, novas formas de tratar a música antiga através do uso de samples e colagens, futuro da música etc. – tanto é que mês passado ele veio a Recife participar da Feira Música Brasil. Só que toda essa intelectualidade acaba deixando sua música, sempre experimental e geralmente muito boa, em segundo plano. Pra rotular seu som, Spooky inventou o nome illbient (ill, gíria do hip hop que significa “foda” + ambient): gênero que mescla batidas de hip hop e eletrônica, paisagens sonoras do dub, samples adoidados e turntablism. Mais ou menos o som do pessoal do selo nova iorquino Worldsound, Sub Dub, Lloop, Boards of Canada... Da sua discografia, destaco “Optometry”, no qual Spooky usa e abusa de uma banda de jazz. Depois da desconstrução, as músicas passaram por uma nova quebradeira no álbum seguinte, “Dubtometry”. Mad Professor, Twilight Circus, Negativland são alguns dos obreiros. "Peace in Zaire Mix (Dub Pistols Inna NYC Style)" é um remix cabuloso do duo londrino Dub Pistols, ex- big beaters e hoje breakers da pesada. Skatalites versão 1999.

))) Ollie Jones, mais conhecido com Skream, 21, é o autor do primeiro grande disco de dubstep. Disco esse (Skream!) bem melhor que o do Burial, o primeiro lugar entre os melhores de 2006 segundo a conceituada revista Wire. Se você leu/ouviu a Hi-Fi #5, sabe que não sou tão fã do climão dark que impera nas produções do gênero, e é por isso mesmo que o disco do Skream é tão bom. Em vez da escuridão, há cores e melodias – ainda que sintéticas. Tem até uma música chamada “Colourful”. E outra chamada “Summer Dreams”, bem jazzy. Mas como o meu lance mesmo é um grave pesado (quanto mais sub melhor), Skream não decepciona, proporcionando o que há de melhor no mercado. Basta ouvir o peso pesado do álbum, “Blue Eyez”, um dub que não é maracatu, mas que pesa uma tonelada. Outras de destaque são: “Dutch Flowerz” (seria uma homenagem ao que a Holanda tem de melhor?), um ska de synths cool e grave galopante; e, com os vocais da Warrior Queen, “Check-it”, um reggae meio largado que descamba pra porradaria. Skream é tão bom que até mesmo o DJ e produtor de minimal Ricardo Villalobos toca seus sons de vez em quando. Isso sim é que é bizarro!

Rewind.

Jamaica Hi-Fi é um programa produzido por Chico Dub, DJ residente da balada carioca de mesmo nome. A Radiola Urbana passa a hospedar sua coluna radiofônica a partir da quarta edição. Para ouvir as anteriores, clique aqui. Acesse também o blog do cara clicando aqui.










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