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JHF#6: música jamaicana de todos os estilos + misturas com eletrônica + rasta excentricidades Produção: Chico Dub Ilustração: Daniel Neves
As raízes africanas de Johnny Clarke; Sinead O´ Connor is no baldhead; Buju Banton vai de taxi; Sly & Robbie + Howie B; Mississipi dub; Habana dub; Skatalites & Fidel Castro; Mars Dub Volta
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- "African Roots" (extended) – Johnny Clarke (78) - "Throw Down Your Arms" – Sinead O’ Connor (06) - "Driver" – Buju Banton (06) - "Fatigue Chic" – Sly & Robbie & Howie B (98) - "Warning" – Freestylers feat. Navigator (98) - "Stop the Bloodshed" – Adrian Sherwood feat. Raiz (06) - "Hard Times" – Little Axe (06) - "Habana Transmission #1" – Bill Laswell (99) - "Fidel Castro" – Skatalites (64) - "Mitchel Edward Klik Enters a Dreamlike State and it's Fucking Scandalous" – De Facto (01)
))) Johnny Clarke poderia ter se tornado muito mais conhecido – do calibre de um Dennis Brown ou Gregory Isaacs – se tivesse gravado menos singles, especialmente covers. O cara lançou tanta, mas tanta coisa (a maioria via Bunny Lee), que muitas de suas pérolas se perderam no meio de uma enxurrada de disquinhos de 45 rotações. “African People”, de 78, é uma das melhores canções de Clarke fora do seu período áureo nos dancehalls – 1974 a 1976. Esses dois anos marcam também a época que Bunny Lee era o rei dos bailes. Lee não só inventou um novo estilo, o "flying cymbals" – batida pronunciada no chimbal –, como foi o grande responsável pela popularização dos riddims na Jamaica. Por não possuir estúdio próprio, ficava muito mais fácil e econômico (re)utilizar bases antigas e consagradas em suas músicas, mesmo que elas não fossem originalmente suas. Já que os músicos contratados sabiam de cor e salteado essas bases, o tempo e o $$$ gastos nos estúdios era consequentemente muito menor.
))) “Throw Down Your Arms” é, disparada, a melhor música do disco de mesmo nome lançado pela carequinha irlandesa Sinead O´Connor – aquela que rasgou a foto do papa, lembra? Disco esse, detalhe, inteiramente de reggae, com regravações de músicas do Burning Spear, Lee Perry, Peter Tosh, Bob Marley, Abyssinians e outros. Não gosto do disco, mas como já mencionei aqui, essas aproximadas que artistas mais pop fazem do universo jamaicano são sempre bem vindas se bem feitas – como é o caso aqui, afinal, a produça é da dupla Sly & Robbie.
))) Em 79, Sly & Robbie montaram o selo Taxi com o intuito de produzir e comercializar sua própria música. O resultado de maior sucesso do label foi o grupo “produto exportação” Black Uhuru. Por favor, não entendam as aspas como crítica. “Sensimilla”, “Guess Who´s Coming To Dinner”, “Red”, “Dub Factor” e “Chill Out” são obras-primas, discos pelos quais tenho o maior carinho. Mas são álbuns voltados pro mercado internacional, uma estratégia para ocupar a lacuna deixada depois da morte de Bob Marley. Outro grande sucesso de Sly & Robbie como produtores é o "Taxi Riddim", base que já rendeu – sem exagero – umas 100 versões diferentes. “Driver”, do Buju Banton vem da nova safra, lançada ano passado. Hoje rasta, Buju, o dono da voz mais reconhecível da Jamaica, passou por maus bocados em 92 por causa da anti-gay “Boom Bye Bye”. Sofreu boicote de lojas e protestos de ONGS até lançar em 95 o conscious “Till Shiloh”, um dos grandes clássicos da década.
))) Afirmo com toda a segurança do mundo: é impossível gostar de reggae sem nunca ter ouvido, pelo menos uma vez na vida, a bateria de Sly Dunbar e o baixo de Robbie Shakespeare. Desde 75, quando a parceria dos dois foi oficializada, Sly & Robbie deixaram sua marca em centenas e centenas de músicas, se tornando a cozinha mais conhecida e impressionante da Jamaica. “Drum and Bass Striped to the Bone” é um dos discos de dub moderno mais incríveis que já ouvi. Ele mescla os talentos da dupla Sly & Robbie com a produção eletrônica-viajandona do escocês especialista em remixes Howie B. Só uma OBS: o d&b do título não é uma referência ao gênero inglês e sim a esses instrumentos tão caros à música jamaicana. “Fatigue Chic” é o som.
))) Hip-hop, jungle, miami bass, fat beats, garage, ragga e breaks: tudo isso é o Freestylers, da Inglaterra. Seu primeiro disco “We Rock Hard”, de 98, envelheceu bastante com o tempo, mas de vez em quando ouço uma ou outra música, especialmente “Dancehall Vibes”, “Ruffneck” e “Warning” – as duas últimas com os vocais do usual colaborador MC Navigator. Era a época (pelo menos pra mim) áurea do drum & bass. Ouvia direto Aphrodite, Roni Size, Bad Company, Asian Dub Foundation (“Culture Move”, com o mesmo MC Navigator, era um hino), Congo Natty/Rebel MC. Bons tempos aqueles. Essa guitarrinha hard-rock, sei lá por que, me lembra Van Halen pra caramba. Van Halen e aquela “Ain´t Talking ´bout Dub”, do Apollo 440.
))) Impossível não falar de Adrian Sherwood depois de “Becoming a Cliche”, seu segundo trabalho-solo em quase 30 anos de carreira. Tá bom, eu sei, prometi que não ia mais tocar nesse nome aqui na Jamaica Hi-Fi. Só que, numa boa, precisava dividir com vocês pelo menos essa “Stop the Bloodshed”, música cantada em italiano por Raiz, ex-integrante da banda Almamegretta e MC oficial do On-U Sound na Itália. Bom, acho que a música é em italiano. Digo isso porque Raiz, natural de Nápoles, costuma cantar no dialeto napolitano. Como não sei bulhufas de italiano nem muito menos de napolitano, nada sei. Certeza mesmo é que “Stop the Bloodshed” é um raggazão épico. Ouve só.
))) Skip McDonald (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Keith Le Blanc (bateria) formam um dos trios mais cascudos da história musical recente. Os caras tocam juntos desde a época que os selos Sugarhill, Tommy Boy e 4th & Broadway iniciavam o legado do hip-hop. Manja “The Message”, “Rapper´s Delight” e “White Lines”? Dá uma lida nos créditos. Posteriormente, o trio foi cair nas graças de (ele de novo, foi mal) Adrian Sherwood, que os levou para trabalhar na On-U Sound em um sem número de projetos como músicos e produtores, em especial o malucão avant guarde Tackhead e seu funk-hop-dub-techno. A coisa muda um pouco de figura com o Little Axe, projeto-solo de Skip Mcdonald em que ele toca praticamente todos os instrumentos – quando não é Skip quem faz tudo, Le Blanc e Wimbish, óbvio, se encarregam do resto. O som? Essencialmente blues, mas também gospel, soul e cantos afro-americanos – gêneros que o pai de Skip, um blueseiro de primeira, tocava quando ele ainda era um pivete. O Little Axe, portanto, é uma volta às origens de Skip só que com um adendo tecnológico forte: efeitos, samples e a ambiência do dub. Afinal de contas, vocês podem conferir em “Hard Times”, quem está no controle da mesa é Sherwood.
Dizem que se Moby não tivesse ouvido (e muito) Little Axe, não haveria “Play”, disco que vendeu mais de 10 milhões de cópias. Dizem.
))) Assim como os músicos acima, o baixista e mago da música ambiente Bill Laswell também tem suas origens no hip-hop. Através do selo Celluloid, Laswell lançou alguns dos singles mais inusitados do gênero, misturando Afrika Bambaataa com John Lydon, participações do The Clash, do saxofonista africano Manu Dibango, do Last Poets e muitos outros. Laswell é um daqueles caras que merece uma Hi-Fi só pra ele. Sua discografia é absurdamente gigantesca, com trabalhos para Fela Kuti, PIL, Mick Jagger, Sly & Robbie, Brian Eno, George Clinton, Peter Gabriel, Herbie Hancock, O Rappa, discos remixados para Bob Marley, Santana e Miles Davis, etc etc etc... Isso sem falar nos seus trabalhos autorais; uma infinidade de incursões ambient através da música celta, árabe, marroquina, indiana, japonesa e até mesmo bahiana.
No caso de “Imaginary Cuba”, a desconstrução da vez se dá com a música de Cuba. O resultado é mediano, mas “Habana Transmission #1” certamente deixaria Fidel orgulhoso. Pra quem quiser ouvir seu lado mais dub, recomendo as séries “Sacred System” e “Dub Chamber”; seus três discos com Sly & Robbie: “Riddim Killers”, “Language Barrier” e “Silent Assassins”; suas parcerias com Jah Wobble, figurinha que você vai ouvir/ler sobre muito em breve aqui na Hi-Fi.
))) É praticamente um crime só tocar no nome dos Skatalites agora (Hi-Fi #6), banda por trás dos primeiros hits do lendário Studio One, de Coxsone Dodd. Precisa dizer mais alguma coisa? Acho que não, né? O título da instrumental “Fidel Castro” reflete a inclinação esquerdista dos principais artistas jamaicanos e dos rastas em geral. Gente que, vejam vocês, anos depois foi até Angola ajudar o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) a tomar o poder.
))) O dub com clima de jam session do De Facto era um projeto que os americanos Omar A. Rodriguez-Lopez e Cedric Bixler Zavala mantinham enquanto ainda tocavam no At The Drive In, banda de rock das mais incensadas do começo dos 00. A dupla, fã de tudo relacionado ao espaço e sua mitologia (Mars), e do cinema (Volta era um termo que Fellini usava para descrever mudanças de cena), logo, logo aproveitaria algumas das idéias usadas no De Facto para o The Mars Volta. São elas: a ambiência do dub, a psicodelia, o groove e os toques latinos (salsa). Apesar de diferentes, ambas as bandas fazem música visual, sons que transportam o ouvinte para outro lugar, outra dimensão.
Cecric na batera, Omar no baixo, Ikey Owens (ex- Long Beach Dub All Stars) no teclado e Jeremy Ward na mix formavam o De Facto. Com a morte de Jeremy por overdose de heroína, a banda deu uma sumida do mapa. Gosto muito de “Megaton Shotblast”, terceiro e último álbum dos caras e fonte de “Mitchel Edward Klik Enters a Dreamlike State and it's Fucking Scandalous”, título que por si só já é uma viagem.
Jamaica Hi-Fi é um programa produzido por Chico Dub, DJ residente da balada carioca de mesmo nome. A Radiola Urbana passa a hospedar sua coluna radiofônica a partir da quarta edição. Para ouvir as anteriores, clique aqui. Acesse também o blog do cara clicando aqui.
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