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Safári Estereofônico, vol. 3
Os ecos do afrobeat de Fela Kuti: sintonize Safári Estereofônico, vol. 3!

Safári Estereofônico, vol. 1
Ouça a primeira edição do Sáfari Esterofônico, nosso novo programa com achados e perdidos da música africana! Tema da estreia: a influência de James Brown no afrobeat!


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30/05/2007
Jamaica Hi-Fi #9

JHF#9: música jamaicana de todos os estilos + misturas com eletrônica + rasta excentricidades

Produção: Chico Dub

Clique aqui para ouvir!

Mais um capítulo da febre do ska; o John Coltrane do hip hop também sabe fazer reggae; nu roots de Saint Croix, Ilhas Virgens; dub austríaco que não parece austríaco; dubismo afrociberdélico; Congo e Jamaica se encontram na Arca Negra; as colinas de Wareika; Tony Allen em versão nyabingui; digital laptop reggae; dubstep matador afro-berlinense-alpino; dancehall futurista alemão

– “Dance your troubles away” – Up, Bustle & Out (2006)
– “Feat feats” – DJ Vadim feat. Emo & Syrus (2007)
– “Evil empire” – Dubblestandart (2004)
– “Do your best in life” – Nuyo Rah (2006)
– “Dubismo” – Chico Sciece & Nação Zumbi (1998)
– “Masanga” – Seke Molenga & Kalo Kawongolo (1977)
– “Uhuru pujama” – Calvin “Bubbles” Cameron (2004)
– “Ise nla” (Wareika Hills Sounds reggae land dub) – Tony Allen (2006) 
– “Babylon system” – Hey-O-Hansen (2006)
– “IK+”– Disrupt (2005)
– “Ghostbuster´s generation” – Jahcoozi (2005)

))) Pioneiro do essencial selo de hip hop cabeçudo/nu jazz/ downtempo Ninja Tune (Coldcut, Kid Koala, Amom Tobin, Cinematic Orquestra, Bonobo, Herbalizer, Daedelus), o coletivo inglês Up, Bustle & Out é um dos artistas mais ecléticos e destruidores de rótulos a aportar aqui na Hi-Fi. Nascido na multicultural Bristol – no passado uma das pontas do triângulo comercial escravo entre África, Inglaterra e Caribe, no presente a capital mundial do som escuro –, o UB&O é apaixonado por música. Quando gostam de um determinado som (e eles gostam de vários!), Rupert del Monte Azul e Clandestine Ein, os cérebros do bando, vão até o lugar de origem do mesmo atrás de autenticidade. Essas viagens podem ser pros Andes, México, Jamaica, Cuba, Andalusia,Turquia. Em seguida, depois de gravar sessões com artistas locais, grooves e eletrônica são adicionados na Bristol natal. Pra você que é leitor/ouvinte da coluna, recomendo os “jamaicanos” "Urban evacuation" e "City breakers": 18 frames per second, discos repletos de ska, ragga, dub, tablas, metaleira latina, house, drum and bass, flamenco etc etc. Em homenagem à El Rocker, do candango Confronto Sound System, “Dance your troubles away”. É a febre do ska. Já pegou?

))) O hip hop underground e abstrato do russo DJ Vadim – cheio de picotes, ruídos e experimentações mil – é outro que ao longo dos anos contribuiu para o padrão Ninja Tune de qualidade. Deixo a palavra agora para o artista gráfico e um dos fundadores do selo Instituto Rodrigo Silveira, que comenta o mais recente trabalho do russo: "'The Sound Catcher" parece suficientemente feliz ao juntar, em um só disco, as experiências de Vadim ao redor do globo e ao longo destes anos. Há, neste lançamento, a batida taquirrítmica de seu andamento abstrato; há, ainda, os climas atmosféricos, tão usuais nas composições deste DJ; e há, também, a presença de melodias assobiáveis e faixas muito próximas a canções: isso resulta em uma costura amigável de reggae, dub, disco, soul e blues combinados com timbres exóticos de percussões indianas, árabes e japonesas e ruídos minimais que ecoam no disco.” A escolhida é “Feat Feats” (com as colaborações de Emo e Syrus), um reggae/ragga que cai bem em qualquer pista que se preze.

))) Apesar de ser de Viena, Áustria, e de fazer dub eletrônico, o som do Dubblestandart difere bastante dos seus conterrâneos, muito mais futuristas e fusionistas. Diria que o Dubblestandart é o projeto mais jamaicano da Áustria. Ainda assim, não é som pros conservadores de plantão. Longe disso, aliás. Com o Zion Train cada vez mais centrado na figura de Neil Perch, o Dub Syndicate sem o Adrian Sherwood e o Overproof Sound System carente de material novo há três anos, não ta muito difícil pro Dubblestandart assumir o posto de banda número 1 do dub moderno. O problema é que o recém lançado "Immigration dub", novo trabalho dos caras, deixa muito a desejar. Se o forte do disco são as versões de “Wadada” (Dub Syndicate), “Money money” (Horace Andy), "MPLA", (Tappa Zukie) e “When i fall in love” (Ken Boothe) e as mesmas não são nada demais, muito aquém das originais, é porque há algo de errado no front. Se você quer conhecer o Dubblestandart a fundo, fique com "Streets of dub" e "Heavy heavy monster dub". É desse último que tirei a sinistrona “Evil empire”.

))) Muitos nomes do UK roots estão deixando os steppers de lado por produções one drop. Até escrevi isso outro dia, numa Hi-Fi antiga. Vende mais, fato. Por exemplo. O Russ D, do Disciples, só quer saber agora do seu Backyard Movements, um selo especializado no assunto que tá bombando geral. Por causa dele, convites pra colaborar em riddims dos outros têm sido recorrentes. É o caso de Sane Kry (lê-se Saint Croix), inédita produção (francesa) que usa, com exceção de um cantor das Bahamas, apenas artistas de Saint Croix, Ilhas Virgens Americanas. “Do your best in life” é talvez a melhor versão do pacote de compactos. Quem canta é Nuyo Rah. (Quando escrevo essas linhas, o VI (Virgin Island), selo responsável pelo lançamento, acaba de botar no mercado um novo riddim, o Things tough. Russ D, novamente, tá na jogada).

))) Rápido e rasteiro. Não que existam muitos – o dub no país é muito mais uma influência e ferramenta do que gênero –, mas “Dubismo”, da Nação Zumbi é o grande dub brasileiro. Afrociberdelia pura.

))) Primeira versão. 1977. Seke Molenga e Kalo Kawongo, dois músicos do Congo (antigo Zaire), assim que chegam em Kingston são abandonados por sua empresária. Sem falar uma palavra de inglês e mendigando por comida, os congoleses, sem querer, acabam no Black Ark de Lee “Scratch” Perry. Coincidentemente, o Upsetter momentos antes havia acabado de gravar sua obra-prima. O nome: "Heart of the Congos", do grupo vocal (jamaicano) Congos. Ao saber da origem dos músicos, o Upsetter entra em frenesi, fica louco. Diz que a presença dos músicos é um sinal de Jah Rastafari para que seja estabelecida uma conexão entre a África e a Arca Negra. Segunda versão. 1977. Depois de ver seu acordo prévio negado pelo estúdio mauricinho Dynamic, a tal empresária bate no Black Ark. Com o disco pronto, a empresária toma os artistas da mão de Perry e vai atrás de um acordo muito mais rentável com um selo francês. Agora escolha a sua versão favorita, porque provavelmente nunca saberemos da verdade. Não existem fatos na Jamaica, lembra? O que se sabe ao certo é que nove músicas foram cruamente gravadas e enviadas a Island, que renegou o material (a mesma atitude que tomaram com o "Heart of the Congos"). Eventualmente, seis dessas faixas pipocaram em selos franceses e holandeses ao longo dos anos. Mas a versão original da sessão só ganhou a luz do dia no ano passado, via Trojan. Sob a supervisão de Lee “Scratch” Perry, produtor e mago no auge dos seus poderes, Seke Molenga e Kalo Kawongo cantam em dialetos africanos, como o lingala, e dividem as baquetas, a percussa e os sopros com os Upsetters. “African Roots”, “Wakoya”, “Bad food”, “Masanga” e “Nzube” são clássicos instantâneos pra quem aprecia as Black Ark e música africana.

))) Se você curte Count Ossie & The Mystic Revelations of Rastafari, Cedric Brooks & The Light Of Saba, Tommy McCook & The Supersonics e os Skatalites, não deixe de conferir o trabalho do trombonista Calvin “Bubbles” Cameron à frente do Wareika Hill Sounds. Até porque, “Bubbles” já foi integrante de todos esses supergrupos! Olha, já falei umas trezentas vezes do selo Honest Jons na coluna. E vou falar mais um monte, não há como ignorar o trabalho maravilhoso que eles fazem. Simplesmente, botaram Bubbles e banda num estúdio em 2004 (não consegui descobrir onde) e gravaram uma penca de sons que evocam as míticas sessões setentistas de nyabingui e jazz nas colinas de Wareika. Por sinal, Bubbles nasceu no pé delas, em D´Aguilar, leste de Kingston. Selecionei duas músicas do Wareika pra coluna: “Uhuru pujama” e a versão dub de “Isle Nla”, som do baterista nigeriano Tony Allen, um dos criadores do afrobeat ao lado de Fela Kuti. Tony faz parte do crew da Honest Jons. Gravou pra eles "Home cooking", de 2002, e "Lagos no shaking", de 2006, uma volta triunfante ao afrobeat. Esse último, por incrível que pareça, foi mixado em Berlin por Moritz von Oswald, uma das metades do Rhythm and Sound/Basic Channel. Talvez por isso, vários sons desse álbum estão pintando em 12” na forma de remixes. O de Mark Ernestus (a outra metade da dupla de dub techno alemã) para “Moyage” é dub disco funk dos bons. Já o do próprio Moritz, “Ole”, é um mantra tipicamente alemão.

))) Até 2005, mais ou menos, a dupla austríaca Hey-O-Hansen fazia um dub chapado e atmosférico com influências da música folclórica do Alpes. Um deles, inclusive, foi durante anos e anos alpinista profissional. Ou seja, é dub gelado mesmo, abaixo de 0. Morando em Berlin, Alemanha, Michael Wolf e Helmut Erler acabaram conheceram o percussionista africano Gordon Odametey. Além de cantar, Odametey injetou o tal do “healing drums” ao som – algo como “percussão que cura”, uma tradição antiquíssima entre os seus familiares ganenses. Em Berlin, Erler também trabalha num estúdio de masterização/prensa de dubplates. Daí o contato com um tipo de música eletrônica mais pesada que influenciou diretamente o som do agora trio. Ao longo de 2006, seis singles do Hey-O-Hansen com essas novas pegadas foram lançados. Segundo a própria banda, as pepitas são “uma jornada pelo dubstep matador afro-berlinense-alpino”. Traduzindo, dá uma mistura excelente de dub com instrumentos típicos dos Alpes, tipo acordeom, tuba e cow bell, percussão de Gana, linhas de baixo subsônicas e techno alemão. “Babylon system” é o quinto single lançado e a quinta música da coleta em cd The 06 singles.

))) Dois discos do Scientist lançados pela Greenleeves no início dos 80 mexem com a temática dos videogames: "Scientist meets the space invaders" e "Scientist encouters Pac-Man". Na real, o lance é puro marketing. Apesar de alguns efeitos do dub soarem como barulhinhos 8 bit, a fusão dub/videogames só estava presente mesmo nas capas brilhantemente desenhadas pelo designer Tony McDermott. Pois bem, eis que vinte e tantos anos depois surge o Disrupt. Projeto de um alemão apaixonado por Tubby, “Scratch”, Wackies, Ron Hubbard, Ben Daglish e Martin Galway, o Disrupt realmente junta as duas coisas. Pra quem não sabe, os três últimos figuras da lista são os responsáveis pelas trilhas dos jogos do revolucionário Commodore C-64, de 1983. Caseiro, o C-64 era o primeiro computador que vinha com placa de som synth digital, o SID (Sound Interface Design). Na prática, um computador que emitia sons bem mais avançados que simples “bleeps” e “bloins”. “IK +” é o dub da versão dub da trilha de “International Karate Championship”, joguinho do C-64 que usa trilha de Ron Hubbard.

))) O berlinense Jahcoozi é um trio multinacional (um alemão, um israelense e uma inglesa/cingalesa) de dancehall futurista bem na linha do Stereotyp, Al Haca e Tolcha. A diferença básica fica por conta dos vocais de Sasha Perera (que tirando o charme, não tem nada a ver com a M.I.A.) e de toques illbient em algumas faixas. Isso pra mim, claro. Porque tem crítico que diz que eles fazem um “mash-up de blip-hop, ragga-tech, r'n'b-fused punk e click-pop illectronica”. Segundo os próprios, as influências são tão ecléticas (Ramones, Neptunes, Wu Tan Clan, Aphex Twin, Missy Elliot, Massive Attack) que por conta disso deixam as pessoas confusas. Na verdade, essa é a tônica da eletrônica hoje em dia, nada é tão definido como há anos atrás. “Ghostbuster´s generation” e todo o disco "Pure breed mongrel" devem agradar tanto o povo do dancehall, quanto o da eletrônica, gêneros que na Alemanha e na Áustria andam lado a lado – Sasha, inclusive, é produtora da primeira festa de Grime de Berlin, a Grimetime.

Rewind.

Jamaica Hi-Fi é um programa produzido por Chico Dub, DJ residente da balada carioca de mesmo nome. A Radiola Urbana passa a hospedar sua coluna radiofônica a partir da quarta edição. Para ouvir as anteriores, clique aqui. Acesse também o blog do cara clicando aqui.


 










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