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27/10/2005
Deixa a música fluir

Por Lígia Nogueira

O californiano Harrison Stafford passou meses viajando pela África e pela Jamaica. Foi recebido em casas de famílias pobres, fazendas no interior, conheceu grande músicos, mestres “rasta”, velhos sábios e líderes espirituais. Correr o mundo, para ele, é inspiração. E a recompensa é encontrar as raízes da música, “o maior presente da humanidade para o planeta”. Mas a saga não terminou aí. De volta aos EUA, o músico fundou o primeiro curso universitário de História do Reggae, o único no mundo. E ganhou o apelido de “Professor”.

Harrison conheceu o baixista “Iron” Ryan Newman na Sonoma State University, onde estudavam música e tiveram a oportunidade de fazer experiências com jazz. No final de 1998, eles se juntaram para formar o Groundation, banda de reggae cuja sonoridade, naturalmente, remete o ouvinte aos antigos grupos jamaicanos. Com um trumpetista (“King” David Chachere), um tecladista (Marcus Urani), um saxofonista e flautista (Jason Robinson) e um trombonista de 21 anos (Kelsy Howard, o mais jovem integrante), a banda está lançando agora seu terceiro disco, “We Free Again”, que sai no Brasil pela Atração. Os trabalhos anteriores são “Hebron Gate” (2002) e “Young Tree” (1999).

Do novo álbum, difícil não se deixar levar pelo baixo flutuante que aparece logo na primeira faixa, “Praising”, ou pelos tambores afros que abrem “Dem Rise”. Há ainda momentos mais dançantes, como em “Music is the Most High”. Com muitas boas faixas na bagagem, o Groundation chega ao País neste fim de semana para uma série de shows que começa em São Paulo e termina em Brasília. Leia abaixo a entrevista da Radiola Urbana com Harrison Stafford por e-mail. Como ele mesmo diz, “deixa a música fluir...”

Você viajou pela África e pela Jamaica para procurar inspiração. Quanto tempo passou em cada lugar?
A maior parte do tempo eu passei no Zimbábue, onde fiquei umas quatro semanas alguns anos atrás. E viajei para a Jamaica diversas vezes, desde que eu era mais jovem, ficando por períodos de mais ou menos um ano.

E o que você fez?
Uau... Como eu queria ter mais tempo para responder! Bem, viajei pela maior parte desses países ficando em casas de famílias pobres ou fazendas no interior. Tentei encontrar e aprender com todos os músicos locais com quem passei grande parte do tempo: na Jamaica, "Familyman" Barrett, Joseph Hill (Culture), The Congos. Aprendi muito com os velhos “rasta” como Mortimo Planno e grandes artistas como Nicholas Mukomberanwa. Basicamente, tentei viver na cultura dessas grandes nações. Encontrei pessoas de todos os tipos: grandes velhos sábios e líderes espirituais. É claro que eram tempos muito duros e também encontrei pessoas difíceis pelo caminho.

O que mais inspira a banda?
Vida... Viajar o mundo. Encontrar aqueles com quem dividimos vibrações e, acima de tudo, música, o maior presente do ser humano para o planeta.

O Groundation eleva o reggae a outros níveis a partir da mescla com elementos de jazz e dub. É difícil achar um equilíbrio?
O equilíbrio é encontrado dentro dos músicos... Não é difícil; é a sua verdadeira voz original. A dificuldade está em estudar e improvisar para deixar a vibe fluir.

De onde vem o nome da banda?
Da palavra “grounation”, com raízes na Jamaica, e do Nyabinghi “day” Selassié jamaicano. No entanto, Groundation somos nós... Uma reunião de pessoas diferentes, sem classes ou julgamentos. Um processo de “estar no mesmo nível”.

É verdade que você é conhecido como “Professor”? Poderia falar um pouco mais sobre isso?
Sim, é verdade que um grande número de músicos jamaicanos das antigas me conhece como "Professor". Fui eu quem começou o primeiro curso universitário de História do Reggae nos Estados Unidos.

Que tipo de música você ouve? Quais são suas principais influências?
Nós ouvimos todos os tipos de música... Principalmente música com groove – funk, soul, reggae, jazz, hip hop, salsa, etc. Boa música pode ser encontrada em todo lugar, às vezes onde menos se espera.

Ouvi dizer que o baixista de vocês, “Iron” Ryan Newman, foi aclamado como um dos melhores pelo baixista dos Wailers, Aston Barret. Vocês se conheceram pessoalmente?
Ele só conhece o Ryan através da música. A primeira faixa que ele ouviu foi “Young Tree”, quando o Aston e eu estávamos fazendo uma bagunça no estúdio, na casa dele. Ele parou, começou a ouvir intensamente e disse “esse baixista é o homem”.

Também ouvi que o trumpetista do Groundation, “King” David Chachere, é um dos destaques da banda não apenas por tocar trumpete, percussão e ser backing vocal, mas também porque ele dança o tempo todo, é verdade?
Claro... David é uma fonte constante de energia e vibe.

Esta é a primeira vez que vocês tocam no Brasil. Como estão as expectativas?
Esperamos energia séria. Ouvimos tanto sobre o amor dos brasileiros pela música, pela improvisação feita com "feeling", e isso é exatamente o que a gente faz. Estou realmente muito ansioso pela experiência.

Você conhece música brasileira?
Não conheço a música brasileira muito bem. Nosso antigo percussionista e amigo de longa data Ronnie Santos é do Brasil e me mostrou muitos discos brasileiros, da música mais pop ao mais profundo grupo percussivo polirrítmico. Estou honrado de ter a oportunidade de viajar para essa grande nação e planejo manter meus olhos e ouvidos abertos. Deixa a música fluir... Muito obrigado por ajudar a espalhar a música... Blessings!










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