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Por Lígia Nogueira
Durante o carnaval em Recife, as ruas costumam ficar tão entupidas que não raro uma orquestra de frevo cruza com outra no meio do caminho. “É aí que os músicos tocam o frevo de abafo”, diz o saxofonista Spok, maestro da orquestra pernambucana que leva o seu nome. “Não tem afinação nem técnica, o que interessa é abafar o que o outro está tocando”, explica o músico. “A zoada é grande. E é justamente por isso que acho esse tipo de frevo o mais mágico.”
Criada inicialmente para acompanhar Antônio Nóbrega, a SpokFrevo Orquestra passou a seguir carreira-solo há cerca de cinco anos e, no final de outubro, fez uma demonstração desse e de outros tipos de frevo de rua no Auditório do Ibirapuera. “Costumo dizer que a gente toca frevo de rua no palco”, explica Spok. “A rua é um lugar onde os pessoas estão para se divertir, em um momento de folia, que elas aproveitam para brincar, namorar... E a música acaba ficando em segundo plano. Mas o frevo é tão maravilhoso que pode ser tocado com um pouco mais de cuidado, de maneira que o público escute.”
A semelhança com o jazz, principalmente no contexto melódico e harmônico, não é mera coincidência. Spok, que já acompanhou o músico Antúlio Madureira em uma apresentação no Festival de Montreux, na Suíça, e passou por diversos outros eventos de peso, comenta: “A gente notava nos festivais de jazz que o público apreciava o coração do músico, a liberdade de criação, o improviso.” Mas mantém a humildade: “não inventamos nada.” E o que o frevo tem a ver com o gênero de origem norte-americana? “Rapaz! Olha, vou ser sincero. O frevo nasceu dos dobrados, maxixes, polcas... Com o passar do tempo, a música norte-americana foi chegando ao Brasil e os músicos começaram a colocar alguns elementos novos em suas interpretações”, resume. “Para mim, a palavra jazz há muito tempo deixou de ser norte-americana.”
O instigante gênero nascido do cruzamento entre os ritmos nordestinos é a linha condutora para os 18 instrumentistas da SpokFrevo Orquestra interpretarem composições do próprio regente e de autores como Hermeto Pascoal, Sivuca e Levino Ferreira – esse último conhecido como o mestre “vivo” do frevo. “Ele ganhou essa alcunha porque teve um ataque de catalepsia e lhe enterraram vivo”, conta o maestro, conforme trecho impresso no encarte de “Passo de Anjo”, disco de estréia da SpokFrevo Orquestra, lançado em 2004. “No velório, ele se levantou, dizendo, ‘minha gente, vocês querem me enterrar vivo!’ Depois disso, o músico compôs inúmeros frevos de rua, como ‘Lágrima de Folião’ e ‘Último Dia’. Gosto muito dos títulos das canções”, fala. “Alguns dizem que isso aconteceu mesmo, outros não. Eu prefiro acreditar... Chegaram a fazer velório e tudo.”
Além de saxofone, Spok se alterna em instrumentos como flauta, baixo, guitarra e percussão. Mas o sopro é, mesmo, sua paixão maior – uma espécie de herança. “A gente em Pernambuco é acostumado com isso desde criança”, esnoba, despretensioso. “Desde que tenho uns cinco anos me lembro do meu pai colocando os discos de frevo dos grandes mestres: Capiba, Claudionor Germano... Cresci ouvindo os repentistas e emboladores da região, e aí fiquei apaixonado pela música."
"Depois que aprendemos a tocar um instrumento de sopro, é quase uma obrigação tocar frevo. A gente nem sabe a escala e tem de aprender na marra!” Como ele diz, questão de cultura. “Quero tocar feito meus mestres tocavam, levar pra frente a música que eles criaram.” Spok tem levado isso a sério. “Tanto que sou casado com a filha de Maestro Duda”.
Se por aí já dá para ter uma idéia da dimensão do currículo do músico, vale dizer que, antes da Orquestra, Spok tocou com Chico Science na ocasião do lançamento de “Afrociberdelia”. “Era ele, a Nação Zumbi, mais três metais”, lembra. “Alguns anos depois, em 1997, montamos a orquestra que acompanharia Antônio Nóbrega e acertamos com o Chico que eles fariam uma participação puxando o bloco da Pancada do Ganzá. Mas ele faleceu poucos dias depois.”
Para cada lembrança triste, porém, ele guarda um punhado de boas recordações: “Foi por causa de Edson Rodrigues, meu professor na adolescência, que ganhei meu primeiro cachê.” Outros artistas com quem tocou também ganham menção: “Sou muito grato a Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner, Sivuca.”
O apelido intergaláctico – em tempo – é mais antigo do que tudo isso. “É por causa de “Jornada nas Estrelas”, sim. Na época de ginásio, sempre que eu ia falar alguma coisa, mexia a orelha sozinho, sem querer. Aí um garoto começou a me chamar assim. Era um gaiato qualquer, ninguém mais me chamava desse jeito. Hoje, se bobear, tem até músico na Orquestra que não sabe meu verdadeiro nome.”
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