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07/02/2006
Bateria nota 10**

Por Filipe Luna
Fotos: Zé Gabriel Lindoso

O estúdio paulistano El Rocha ainda não é nenhum Hitsville USA (onde surgiram gravações históricas da fundamental Motown), mas sua influência na música brasileira de hoje é definitiva. Naquela noite, a bagunça no local era generalizada. Equipamentos e instrumentos da banda Hurtmold amontoavam-se para virar bagagem da primeira turnê do sexteto. O baterista Maurício Takara estava lá para conversar com a gente. Nunca ouviu falar? Sem problemas, a gente te apresenta.

Takara é um músico daqueles que não aparecem todo dia. Sua contribuição para o segmento musical em que atua pode até alcançar um dia o feito de outros grandes bateristas brasileiros (como Wilson das Neves, Mamão, Dom Um Romão, Milton Banana, Edison Machado) para o samba. Só o tempo dirá. Além da bateria, porém, o garoto-prodígio domina também guitarra, trumpete, vibrafone, computador, sampler, entre outros instrumentos. É um compositor meticuloso e perfeccionista. Tenha certeza de que daqui há algumas décadas, seu nome será cultuado pelas futuras gerações de jovens músicos e, talvez, os discos em que participou sejam tão procurados nos sebos como os das lendas referidas acima são atualmente.

Em 2003, lançou seu primeiro disco-solo, "M. Takara" (Submarine Records), que foi aclamado pelos poucos privilegiados que tomaram conhecimento de sua existência. Gravado ao longo de três anos, mostrava um Takara diferente daquele que aparece no Hurtmold. O músico explora gêneros como free jazz, dub, IDM, hip hop e o disco desvenda um trabalho autoral potente. O segundo disco foi lançado em maio de 2005, "M. Takara com Chankas e Jon" (Slag Records), e mostra uma identidade sonora ainda mais desenvolvida. O resultado é mais próximo do que ele mostra em suas apresentações ao vivo. Em outubro passado, depois dessa entrevista, seu projeto-solo ocupou um dos palcos do Tim Festival, no Rio de Janeiro. Além de tudo isso, ele ainda encontra tempo para contribuir para o trabalho de outros artistas: toca bateria nos shows do Instituto (que tem seu irmão, Daniel Ganjaman, à frente do grupo), tocou trumpete no último disco da Nação Zumbi ("Futura"), entre outras coisas. A Radiola Urbana conversou com o rapaz na noite anterior à viagem para Barcelona, onde Hurtmold e M. Takara se apresentaram no festival Sonár (em junho de 2005). Faz tempo, hein? Mas nunca é tarde para saber mais sobre a boa música contemporânea.

O teu primeiro disco parecia um trabalho mais introspectivo e solitário, como algo concebido durante algum tempo que você decidiu lançar de uma vez. Assim, apontava para várias direções e mostrava uma evolução no teu trabalho. Nesse novo disco parece que você define ainda mais a originalidade de tua música. É uma evolução natural do que havia sido explorado anteriormente?
Cara, eu nunca tinha pensado muito desse jeito, mas acho que faz sentido. Aquele primeiro disco é mais como uma coletânea, por isso que ele tem essa cara. Tem músicas de várias épocas diferentes, eu comecei a gravar ele uns três ou quatro anos antes dele sair. Gravava uma leva de músicas, parava, gravava mais uma leva. Por isso que ficou com essa cara bem... Eu também acho, tem várias direções diferentes dentro dele. Esse novo, eu acho que ele perdeu um pouco essa cara porque foram umas músicas que acabaram aparecendo quando eu montei o show pro projeto. Então, já estava com uma sonoridade mais de banda, apesar de nem ser, mas já tem um pouco mais. E eu já estava sabendo bem melhor o que eu queria, apesar de eu já ter mudado bastante minhas produções depois de ter saído o disco. Acho que faz sentido sim, pra mim foi uma evolução natural.

É interessante porque no primeiro disco, quando a gente ia no show, via que não tinha nada a ver...
É, tinha nada...

Depois de ter feito tantos shows com o Fernando e começar a trabalhar com Jon, foi influenciado por eles na hora de compor para o segundo disco?
Certeza, isso acabou influenciando bastante. Até por isso coloquei o nome do disco citando eles porque achei que fez uma diferença grande. As músicas ainda são todas minhas. Eu fiz tudo, mas o jeito deles tocarem e ter essa colaboração muda bastante.

Foi uma coisa bem colaborativa mesmo, não é como se eles fossem artistas convidados então?
As faixas em que eles tocam, eu acabei criando muito em cima deles -- das coisas que eles me apresentavam e do jeito de eles tocarem. Aproveitei bem isso, diferente de fazer alguma coisa e falar “toca”.

Sendo você primordialmente um baterista, apesar de tocar uma infinidade de instrumentos, como funciona teu processo de composição?
Funciona de várias formas diferentes. Ultimamente tenho começado mais a partir do eletrônico, de programação, de sampler. Trabalho com bastante som externo, ambiente, de coisas assim, sabe? É nisso onde eu tenho buscado mais o ponto de partida para a composição, mais do que aspectos musicais. Pra mim tem mostrado muita coisa nova, sabe? Pegar algum barulho, algum timbre, alguma sonoridade bonita e ver o que me traz.

Você está pesquisando mais então...
É, tenho ido mais pra esse lado. A partir disso eu começo a desenvolver todo um trabalho mais musical em cima, de achar o tom dessas coisas, um ritmo nelas, às vezes eu recorto tudo também. Mas tenho buscado mesmo a partir desse ponto.

A bateria eletrônica que você usa é das mais simples, bem tosca mas faz sentido na composição sonora do trabalho. Isso é intencional? É uma maneira de diferenciar explicitamente o que você programou e o que você tocou?
É quase intencional no sentido que, quando eu uso batida eletrônica, eu não quero reproduzir algo que eu poderia estar tocando. Até por eu ser baterista não faria muito sentido. Eu só uso a batida eletrônica porque é uma coisa que eu não consigo reproduzir na bateria -- ou por questão de timbre ou por questão do instrumento mesmo, tem coisa que você não consegue reproduzir. Isso é meio intencional. Quando eu estou tocando bateria, quero deixar a coisa bem com o meu jeito de tocar, em geral bem sujo, bem cheio de nota, bem variante. Quando eu toco bateria eletrônica, em geral é uma coisa bem mais de robô mesmo e com timbres que não tem nada a ver com bateria acústica. Para ver que é eletrônico mesmo.

Porque que as faixas continuam sem nome?
Cara, acabou sendo pelo mesmo motivo do outro disco. Fui fazendo as músicas, gravando as coisas. Muitas vezes eu faço elas até o final sem começo, meio e fim. Sabe, é uma idéia que está ali, que eu desenvolvo. Faço muito isso. Gravei um monte de coisa, juntei um material grandão e tentei dar um sentido para elas na hora de montar o disco. Na verdade, o disco é uma coisa. Eu separo tudo para não ficar uma coisa chata também; eu poderia fazer uma faixa só com tudo e para mim até faria sentido. Claro, tem os momentos, tem as diferenças mas, para mim, o que faz sentido é o o conjunto das músicas. Tanto que no disco inteiro tem uma pausa, que nem tinha mas, ouvindo bastante, achei que precisava dar uma respirada. Tem uma separação de faixa, o resto é tudo uma grudada na outra. Até poderia dar nome, na verdade, tenho feito umas músicas com nomes que eu provavelmente vou manter. Essas músicas não tinham, eu ia colocar só por colocar. É até uma coisa que prejudica um pouco, para registrar dá um pouco mais de trabalho. Se eu for recolher qualquer tipo de direito sobre elas será um problema um pouco maior. Mas eu achei que ia ser muito forçado, sabe? Dar doze nomes de músicas só por dar. Podia até perder um pouco a função delas que é deixar uma idéia menos simplista.

O que ou quem te inspira hoje em dia a fazer música? Você tem fama de não gostar de nada, mas deve ter alguma coisa hoje em dia que ainda te agrada.
Não, tem sim, gosto de coisa para caralho. É que isso aí, sei lá... Mas, porra, o que me inspira na verdade, o que me faz fazer música... Sei lá, cara. É uma coisa muito natural para mim, é o que eu penso, é minha vida, na real. É o que me faz acordar e querer fazer, tipo tomar café da manhã e sair para rua para fazer. Mas em termos de artistas assim, pô tem um monte de gente que eu gosto bastante na verdade. O trabalho do Rob Mazurek, que tem estado bem próximo ultimamente, eu gosto bastante. De todas as variedades, solo, com o Chicago Underground, agora com o grupo novo dele, o Mandarim Movie. Me identifico pra caralho com a estética e tudo dele. O Carlos Issa, do Objeto Amarelo, está com um projeto bem legal, O Dia. Tem esse saxofonista, o Thomas Rohrer, com quem eu tenho tocado também. É um suíço que mora aqui faz tempo e tem uns projetos de improvisação livre mais free jazz, improv, que são bem legais. Four Tet é um cara que eu sempre gosto das coisas dele. O EP que ele fez com uns remixes do Madvillain é bem fodão. O Prefuse 73 eu gosto bastante em geral. Às vezes tem uma coisa ou outra que não é a minha cara, mas gosto do jeito que ele encara a coisa.

É interessante porque todos têm uma relação contigo, são caras que fazem música no computador. Até tocam também, mas fazem muita música no computador.
É, tem bastante a ver no fim. Pô, tem mais uma galera na verdade, mas esses são os que estou gostando mais agora. Mas eu escuto muita coisa antiga, esssas coisas têm um pouco mais a ver com o que eu faço.

Fala um pouco de sua iniciação musical. Você e seus irmãos hoje são bem atuantes na cena independente paulistana e brasileira. Como você começou a tocar?
Foi lance de família mesmo, você falou dos meus irmãos. Meu pai tocava quando era mais novo e desde que eu me lembre em casa sempre teve instrumento, sempre teve guitarra e teclado. Comecei a estudar quando era criança, sete ou oito anos.

Começou como algo formal ou foi sempre informal?
É, já comecei fazendo aula e tal. Mas foi muito natural, sabe? Na verdade, antes disso até, meu pai me ensinava as coisas de um jeito mais informal. Porque eu era criança mesmo, para ver se gostava ou não. Desde então eu comecei a estudar e não parei. Na verdade, estudo música até hoje. Comecei estudando violão e com uns dez anos comecei a aprender bateria porque era o que mais faltava, era uma coisa que eu gostava e acabou virando meu instrumento principal. Montei as primeiras bandas com uns 11 ou 12 anos de idade, um lance mais de punk rock e tal porque era o que a gente conseguia tocar e porque a gente gostava também.

E as influências? Quais foram os artistas que ajudaram a dar forma ao teu som?
Na hora de fazer som mesmo eu meio que me desvinculo. Mas assim, de qualquer forma, tem artistas bem importantes atualmente para mim. O John Coltrane com certeza é um cara que foi muito importante. Quando ouvi o "A Love Supreme" pela primeira vez eu era moleque e foi foda. O Fugazi pra mim é uma das maiores bandas que já teve. Esses são os top mesmo, os caras que são hors concours. Coisas que ouço há muitos anos e nunca deixei de gostar nem um pouco. Engraçado até, estava conversando disso ontem com o Guilherme (Granado, músico do Hurtmold). Eu falei: “Cara faz muito tempo que eu não escuto 'A Love Supreme', é um disco que eu gosto tanto que eu nem escuto”. Está ali, está na cabeça, não sei o que é, nem escuto muito. Toda essa galera do free jazz foi bem importante porque deu uma mudada no conceito que eu tinha até então, mais fechado de música. Tipo Albert Ayler, Pharoah Sanders, o baterista Milford Graves, essa rapaziada fez a maior diferença pra mim.

Modern Jazz Quartet?
Nem tanto, todo mundo pensa isso. Eu gosto e tudo, até tinha uns discos do meu pai, mas nunca foi uma parada que eu peguei tão forte assim. Esse lance de percussão mais harmônica, tipo o vibrafone, eu sempre gostei muito de músicas do sudeste asiático. Música da Indonésia, aquelas músicas religiosas que eles usam muito sino, isso eu sempre gostei, sempre me interessou muito. No meio do rock, com certeza o Tortoise foi uma banda que usou de uma forma que eu falei: “Caralho!”. Gostava até de coisa meio progressiva, tipo Frank Zappa, que usava essas coisas, algumas coisas do King Crimson. O Tortoise era uma banda quase punk que começou a usar e porra... Todos esses são os nomes mais importantes assim.

Você vai tocar no Sonár pela segunda vez com o Hurtmold, novamente acompanhados por Rob Mazurek, e ainda fará um DJ set – sem contar que tocou ano passado com o Instituto. Como vai funcionar esse DJ set?
Eles chamaram para participar, aí a princípio eu pensei: “posso fazer meu show e tal”. Aí eles pediram pra eu fazer um DJ set que era parte do formato do showcase deles, duas atrações performance mesmo e um DJ set. Eu falei: “ó, eu posso até fazer, mas eu não sou DJ, eu preferiria fazer um esquema mais live PA mesmo”. Tipo com o laptop, reconstruindo minhas músicas ao vivo, porque isso eu já tinha feito antes até. Aí os caras falaram: “pô, melhor ainda para gente, tem mais a ver com o que a gente pede”. Fiquei meio assim no começo porque os caras pediram que tivesse uma hora e vinte. Aí, eu reduzi um pouco. Desde que rolou essa fita, no começo do ano, eu fiquei trabalhando em cima disso. Nessas eu fiz uns quarenta minutos, um repertório meio grande de coisa nova e reconstrução das músicas do disco, umas três ou quatro faixas que eu remontei de um jeito meio diferente. Consegui montar o set e fiquei bem feliz porque ele é bem aberto para improvisação, eu reconstruo e sampleio muita coisa ao vivo. Uso um laptop, um sampler, um toca-disco e um toca-cd, tudo ligado em um mixer onde eu reconstruo as coisas.

Mas você vai tocar só coisa sua então?
Então, deu uns quarenta ou cinqüenta minutos esse set, varia um pouco porque tem faixa aberta, mas essa parte é só coisa minha. Depois eu vou fazer um set de DJ mesmo, mais curto, de discotecagem. Aí eu fiquei pensando o que tocar, tipo: “e agora?”. Aí eu resolvi contextualizar um pouco porque esse showcase que vai ter lá chama Underground Brasil, a idéia é mostrar “a nova música experimental brasileira” que não é nem muito conhecida nem aqui. Então eu vou discotecar coisa daqui que tenha a ver com isso. Vai ter Cidadão Instigado, O Dia, tem um Egberto Gismonti, Conseqüência, que é um grupo de rap daqui de São Paulo, e mais umas coisas que eu vou ver na hora.

E como foram as experiências anteriores? A reação do público?
Lá no Sonár?

Sim, e até na turnê que você fez agora na Europa.
Cara, a turnê foi legal para caramba. A gente fez Alemanha e Polônia. Alemanha foi um festival maiorzinho que chama Club Transmediale e era uma galera responsa. O Jaki (Liebezeit), que era baterista do Can...  Puta, o cara é foda. E outro cara que era um trompetista da Noruega bem conhecido, eu não conhecia muito. Eu toquei no mesmo dia que eles e foi legal, achei que o povo nem ia dar muita atenção, mas chegou na hora do show e o lugar tava cheião, gente pra caramba. E a resposta foi muito boa, fiz vários contatos, vendi bastante merchandising. E na Polônia foi demais também. Foi um circuito completamente diferente, foi tudo show só a gente mesmo e eu até estava meio assim. E era mais clube de jazz, um público mais para esse lado assim. E foi bom para caramba, o povo interessado, eles se aproximam bem mais. Pelo que me falaram, o leste europeu inteiro é assim. Até pelo fato de que até uns 15 anos atrás os caras eram culturalmente muito fechados, por causa da União Soviética e tal. Então, depois que abriu isso eles têm uma sede bem maior de coisa de fora. Foi muito louco, fiz um monte de contatos e até rolou um interesse para eu voltar lá em um festival e tal, vamos ver se rola.

E depois do Sonár, vocês vão fazer mais algumas datas por lá?
Solo eu vou fazer em Lisboa. Acho que vai ser legal também, vai ser em um lugar que chama Galeria Zé dos Bois e, eu estava vendo no site, a programação é bem legal, mais destinada à música experimental. O Hurtmold vai fazer Barcelona, no Sonár, uma cidadezinha na Espanha que chama Murcía, Lisboa, junto com meu show-solo, e Londres também.

Já se começa a falar bastante de vocês na Europa e os shows de vocês até saíram na (revista) "The Wire", de abril. Existem planos de lançar o disco no exterior?
Cara, interesse por parte da gente rola. Por enquanto a gente não chegou a fechar nada nem... Comigo já teve algumas conversas um pouco mais sérias, mas eu nunca cheguei a fechar nada. Existe algum interesse sim, não é nada certo, mas é bem capaz que para os próximos lançamentos role alguma coisa. Esses que já saíram aqui... Esses daqui eu acho... Até teve interesse para lançar esse último, mas eu prefiro lançar coisa nova quando for para fazer. Lançar esses discos antigos acho que não vai fazer muito sentido, principalmente porque se for rolar alguma coisa vai ser daqui um tempo. E eu já estou com um monte de material novo, então prefiro trabalhar nisso. Não tem nada certo, mas é bem provável.

Depois você volta para o Brasil para tocar no Festival Coquetel Molotov. Primeira vez em Recife com o Hurtmold e com o trabalho-solo também. Como que vai ser o show lá, o do Hurtmold? 
Será no esquema parecido com o que agente está fazendo aqui, esses últimos dois shows. É baseado no "Mestro", o último disco, mas daí tem duas músicas novas e uma música que a gente faz uma versão sem o Mazurek, que a gente toca com ele na verdade. Uma música que a gente fez com ele, mas fizemos uma versão sem ele. Vai ser mais ou menos isso, é bem o que a gente está fazendo no momento e, na real, vai ser bem o show que a gente vai fazer na Europa depois do Sonár. Vai ser bom porque a gente já vai emendar tudo. Época boa, sabe cara? Primeira turnê fora e primeira turnê no Nordeste. Acabou virando uma turnêzinha, porque a gente vai fazer Fortaleza, talvez João Pessoa, e Salvador também.

O teu show também ou só o Hurtmold?
Não, só o Hurtmold.

Mas no Coquetel você toca? Como será o show? Vai ser igual o que você está fazendo aqui?
O que estou fazendo aqui em São Paulo é trio, lá eu vou fazer sem trio. Queria muito fazer, mas não vai ter como. Aí lá eu vou fazer em dueto. Eu gosto tanto dos dois na verdade, mas é que trio ás vezes ao vivo funciona melhor, dependendo de onde for, porque é um lance mais cheio de coisa mesmo, mais coisas acontecendo. O duo com o Fernando é um pouco mais abstrato, mais minimal, mas eu gosto tanto de um formato como do outro. Aí vai ser também o esquema do show que eu vou fazer lá em Lisboa que era mais no esquema, com uma mudança ou outra, que eu fiz na turnê por lá na Alemanha e Polônia.

É o show que você estava fazendo antes do disco novo?
É, mas daqui pra frente eu quero ver se firmo a história do trio melhor. A história do trio e o esquema de live PA sozinho também. Vou tentar ver se consigo trabalhar mais ou um ou outro, porque se não dá para ir os três eu faço o esquema só e pronto. Vamos ver, né? Difícil é a estrutura.

Mas é legal você ter três tipos de show também...
É, para eu trabalhar é ótimo. Musicalmente mesmo. Agora eu estava tocando só em trio, aí eu fiz um monte de coisa nova porque o trio possibilitava. Agora, na hora de ensaiar show para dois, tive que reformular para fazer no duo de outra forma. Isso é louco porque surgem idéias para caralho. Para mim é legal para caramba isso, foi um bagulho que foi uma puta conquista louca. Legal que os caras estão ajudando para caramba, trabalhando junto e tal.

E a expectativa para tocar em Recife? Você trabalhou muito com pessoas ligadas à cidade, já tocou lá com Instituto, né?
Já, Instituto e Xis também, acho. Com Otto toquei várias vezes e com o Cidadão Instigado também.

E a expectativa para reação do público?
Cara, não sei mesmo. Acho que vai rolar bem porque a gente tem contato com bastante gente de lá e a gente está bem empolgado na real, porque com sete anos de banda a gente nunca conseguiu tocar no Nordeste. Já teve várias conversas e nunca firmou nada. Pelo que estou vendo, não estou muito por dentro ainda, mas vai ser um festival legal com um monte de coisa acontecendo. Pô, estou empolgadão. No mesmo grau que a gente está indo para fora, acho que esses shows no Nordeste vão ser um puta espaço legal pra gente.

Você já trabalhou com muita gente aqui na cena paulistana e de fora também. Tem alguém em especial que você gostaria de gravar algum dia, do Brasil ou do exterior?
Porra, deve ter, com certeza tem.

Algum plano assim?
Puta, plano assim, mais em vista ou alguma idéia maior acho que não tem nada não. Na verdade, o trabalho com Rob está sendo bem legal para gente e o plano é, sempre que possível, ficar desenvolvendo essa coisa junto. Eu estou com um projeto com ele, meio definitivo. A gente está fazendo um lance junto, que ainda nem tem nome exatamente, nem um formato exato, provavelmente não vai ser nem só eu e ele. Mas a gente já está fazendo música junto. Esse CD aqui, inclusive, eu estou queimando para entregar para ele amanhã. Fora ele não tem mais ninguém. A gente pretende ver se até o fim do ano consegue fazer alguma coisa, gravar, fazer show.

Me disseram que você já tem mais um disco-solo quase pronto, é verdade isso?
Cara, disco novo ainda não. Teria mas, assim como eu fiz com esse outro aí, quero trabalhar e retrabalhar durante muito tempo. Quero fazer isso, mas tem coisa para caramba já. Até nos shows eu já venho tocando algumas coisas novas, já tem umas dez ou doze músicas. Parte disso, eu ainda não sei, mas como estou começando a fazer esse lance com Rob, quero ver se algumas dessas coisas eu uso com ele. Até pra ver no que vai dar, porque minhas coisas sempre foram bem do meu jeito e, por mais que tivesse os outros caras, eu meio que fechava tudo antes. Com ele eu quero ver se começo do zero algumas coisas, pego umas idéias bem no começo e trabalho com ele. Tem material pra um disco novo, mas eu quero ver se eu dou um trampo nesse projeto com ele, se eu dou uma focada nisso.

Você não pára, não?
Não, não. Na verdade, cara, acabei de fazer uma trilha pra um documentário do Itaú Cultural. É um documentário sobre o corpo que eles fizeram. E foi tipo, muito louco, foi meio de última hora que me chamaram. E, sei lá, em dois meses eu fiz tudo, foi quase um disco, fiz umas doze faixas. Mas isso foi uma coisa bem à parte. Até voltei a pensar umas coisas porque a referência que o pessoal da produção me passou foi meu primeiro disco. Então foi legal até, eu voltei a produzir umas coisas daquela forma que eu produzia mais antigamente. Fiquei uns dois meses trabalhando nisso e fiz uns quarenta minutos de material novo. Mas isso eu não vou usar pra nada, só na trilha.

Foi legal voltar a fazer daquele jeito?
Foi louco cara, rolou até uma dificuldade. Umas coisas que, na minha cabeça seriam mais fáceis, eu tive dificuldade para fazer. Mas, foi legal, um trabalho bom para caramba. Eu gosto de exercitar isso o tempo inteiro. Com certeza, acredito em inspiração, que tudo isso é muito importante, mas para mim é um exercício também. Às vezes eu não tenho nem um objetivo claro e fico pegando som, misturando, compondo coisas que eu nem uso para nada, mas eu gosto de estar sempre fazendo isso aí.

É mais transpiração do que inspiração então?
É, para mim é, cara. Com certeza tem muito o lado emocional e tudo, mas isso vem junto. Pra mim o bagulho é quase físico até, sabe? Fico várias horas, cansadão, eu meio que acredito em trabalhar desse jeito.

O som que você faz, tanto no Hurtmold como solo, não é o que podemos classificar de popular. É um público muito específico, mas fiel. Isso te incomoda de alguma maneira? Você gostaria de atingir um público maior ou está satisfeito com a recepção que tem o seu trabalho?
É e não é específico. Em geral o som popular é bem definido, as bandas mais pop, falando nesse sentido maior, mais comercializadas, ou são de rock, ou de samba, ou de rap, em geral é uma coisa bem definida. E o nosso som é bem o contrário disso e até por isso acaba abrangendo mais gente do que a gente mesmo imagina. Porque a gente se envolve com muita gente diferente, toca em muitos lugares e ocasiões diferentes. Então, quando a gente menos espera, a gente está tocando em um festival com um monte de banda diferente e acha que não vão gostar, mas, por ser uma coisa bem aberta, o povo às vezes vê, às vezes não entende muito, mas gosta, sabe? Rola muito isso e eu fico meio impressionado. A gente não pensa em público na hora de compor. Pode até soar meio estranho, mas a gente compõe para gente mesmo. Até onde a gente está gostando está bom, sabe?

É assim que você mede o sucesso profissional?
É, sei lá, para gente sucesso é fazer um disco que a gente vai ouvir e falar: “ó, ficou louco”. Se gostarem, ótimo, mas se não gostarem também, paciência. Muitas vezes, principalmente meu trabalho-solo, que é uma coisa um pouco mais impessoal eu diria, até gente próxima de mim já estranhou para caramba, por ser só eletrônico e tal. Para mim, sendo um lance que está me satisfazendo, está ótimo. Mas assim, vontade de alcançar mais gente temos com certeza, desde que seja pelo viés musical. Mas é muito louco, cara. Por exemplo, uma vez que eu vi muito claro isso foi quando a gente foi tocar em Pouso Alegre no teatro municipal de lá. Tocamos, tinha bastante gente, foi um show legal para caramba. No fim do show, um dos caras que mais gostou, que mais conversou com a gente foi o porteiro do teatro que estava lá trabalhando, sabe? O cara adorou, comprou disco para o filho dele, falou que ele ia gostar com certeza. Isso para gente é muito classe.

As pessoas surpreendem?
Cara, tem rolado isso de verdade. Tipo de ir família nossa nos shows e gostar de verdade, não aquele lance da mãe ver o filho tocando não. Puta, está rolando isso para caramba. Moleque, velho, gente do rap, gente do reggae, isso é legal para caramba.

**Essa entrevista foi publicada originalmente (em versão editada) na Revista Coquetel Molotov.










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