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15/07/2004
A pontaria calibrada de "Revolver"

Por Daniel Setti

Evocar o nome Beatles em discussões sobre rock é mais ou menos como citar Pelé em debates futebolísticos de qualquer espécie. “Nunca houve quem se comparasse” e “jamais surgirá outro igual” são alguns dos brados que todo mundo já deve ter escutado a respeito dos temas, mesmo sem querer, em mesas de bar, em programas de rádio ou em casa. Mas apesar de hors concours, tanto o atleta quanto a banda mais conhecidos de todos os tempos rendem infinitos sub-tópicos sobre os quais se pode polemizar. Se, por exemplo, os discípulos de Edson Arantes do Nascimento discorrem sobre qual foi seu gol mais bonito, a pergunta beatlemaníaca que não quer calar é: afinal, qual é disco mais importante dos Beatles?

Convenciona-se responder na lata “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, de 1967 (a "Rolling Stone" fez isso outro dia), na mesma proporção em que o tal misterioso gol que Pelé fez contra o Juventus é a resposta pronta dos boleiros. O “White Album”, de 1968, também é frequentemente lembrado, como o gol de placa feito pelo camisa 10 no Maracanã. Mas o disco em questão aqui é “Revolver”, bolacha fabricada pelo Fab Four em 1966 e que anteveria a revolução pop. Fechando a série e comparações, o álbum soa impactante como a imagem do Pelé de 17 anos chapelando o zagueiro sueco na final da copa de 1958.

Goleada 
Desde “Help!” (1965) John Lennon e Paul McCartney se faziam notar como compositores capazes de ir muito além do iê-iê-iê -- já irresistível -- de seus primeiros trabalhos. Influenciado por Bob Dylan, o primeiro já começava a levar o rock para o mundo adulto, cantando angústias de gente grande na faixa-título e incorporando o folk em “You”ve Got To Hide Your Love Away”, enquanto o segundo escrevia seu primeiro standard, “Yesterday”. Vale lembrar que, embora assinassem juntos as composições, quase sempre era apenas um dos dois quem tomava as rédeas das músicas.

Em “Rubber Soul”, disco do mesmo ano, a dupla fez sua graduação em composição. “You Won”t See Me”, “Nowhere Man” e “In My Life” que o digam. A instrumentação e os arranjos de voz também faziam cair de forma cada vez mais vertiginosa o queixo do experiente produtor George Martin. Restava então uma ruptura maior, desconhecida inclusive pelos próprios Beatles, e que só o talento, o entrosamento e o contexto histórico experimentados pelos quatro poderiam fornecer. E a tal ruptura veio com “Revolver”.

Da contagem carregada com o sotaque de Liverpool de “Taxman” -- a faixa de abertura -- até as trombetas tocadas ao contrário dos segundos finais de “Tomorrow Never Knows” -- a 14a e última canção --, o que se escuta é uma obra-prima que aponta um caminho sem volta rumo ao futuro do rock, traçado por um grupo no auge de sua capacidade criativa, turbinado pelo envolvimento constante com drogas alucinógenas e a maturidade de quem tinha vivido durante quatro anos uma experiência única e irreproduzível de idolatria (alguém falou em Pelé?).

Empate técnico
“Revolver” é o álbum mais importante dos Beatles a começar porque nele John e Paul definitivamente empatam. Não dá para afirmar de qual deles é o disco (como dá para dizer que “Rubber Soul” e “White Album” são um pouco mais de John e “Sgt. Peppers” e “Magical Mystery Tour” são um pouco mais de Paul). Se Lennon apresenta jóias da acidez como “I”m Only Sleeping” e “She Said She Said”, Paul responde com melodias emocionantes como “Here, There And Everywhere” e “For No One” – pedaços de inspiração muito diferentes entre si, mas igualmente geniais. Para completar e equilibrar ainda mais a tabela, George Harrison, já em grande forma, emplaca pela primeira vez três de suas composições, abrindo o placar autoral com a inesquecível “Taxman”, uma crítica sem pudores aos impostos abusivos vigentes no Reino Unido impulsionada por um groovão a la Motown (outra influência que sempre acompanhou os rapazes).

Triangualção desconcertante
“Revolver” é a cereja no bolo do quarteto também por carregar três músicas responsáveis por grandes revoluções na estética pop. Uma delas é “Eleanor Rigby”, primeira canção de um grupo de rock totalmente arranjada para cordas em sua gravação original. A modernidade que violinos, violas e violoncelos transmitem sob a voz afinadíssima de McCartney ainda é instigante aos ouvidos. Para não falar da ousadia de Paul, então um garoto que mal havia completado 24 anos, se metendo a fazer música quase-erudita e obtendo um resultado totalmente particular e ainda assim pop.

Novamente no pólo oposto, Lennon promovia sua revolução, ainda maior que a do parceiro, com “Tomorrow Never Knows”, talvez a gravação mais impressionante de toda a trajetória da banda. Sob uma tamboura indiana perturbadora, a levada de Ringo Starr (que influenciaria todo o big beat dos anos 90 -- é só ouvir Chemical Brothers para sacar) e a base harmônica sem alterações cadenciam um mantra com pinta de pesadelo. A atmosfera é perfeita para a narração obsessiva da letra criada por Lennon com inspiração no "Livro Tibetano dos Mortos" e que, gravada através da caixa amplificadora de um órgão Hammond, parece definitivamente vir do Além.

Não bastasse tudo isso, uma série de loops criados em equipamentos analógicos de fita cassete dão um ar surreal à massa sonora. A idéia, que Paul absorveu de vanguardistas como Stockhausen, acabou fazendo com que guitarras ao contrário (presentes também em “I”m Only Sleeping”), trechos orquestrados sujos e assovios sinistros de repente fossem promovidos de barulheira sem sentido a elementos componentes da canção. Além de grandes compositores, cantores, arranjadores e músicos, os Beatles levavam a partir daquele momento as texturas sonoras ao primeiro plano na música pop – e graças a suas experimentações. A geraçao pós-sampler agradece.

Sem querer ficar de fora da brincadeira, George Harrison também fez , como sempre no estilo come-quieto, sua revolução particular. Em “Love You Too”, o “mais discreto” dos quatro oficializou o flerte do rock com a sonoridade oriental, que ele mesmo havia prenunciado ao enfiar uma cítara indiana em “Norwegian Wood”, de “Rubber Soul”. George radicalizou ao criar para sua composição um arranjo hindu completo, com tabla, sítar e a tamboura. Sobre a parafernália transcendental, acrescentou ainda um sensacional riff de guitarra com timbragem que seus colegas de instrumento dariam um braço para conseguir extrair -- como aliás ele faz também em faixas do calibre de “And Your Bird Can Sing”.

Anti-doping? 
Sem mais nenhum saco para turnês e aparições promocionais de TV, os Beatles pós-histeria tinham tempo. Tempo não só para afiarem seu labor de estúdio, mas também para irem a festas malucas, conhecerem celebridades fascinantes, trocarem figurinhas com outros roqueiros, tomarem drogas à vontade e respirarem os ares alegres da Londres efervescente de 1966, ainda não totalmente contaminada pelo deslumbre hippie. Toda esta liberdade conferiu ao lirismo do grupo a contemporaneidade necessária, que rendeu uma excelente diversidade de temas para as canções.

Numa fusão de ternura com mau humor que só ele conseguia tecer, Lennon pede que o deixassem em paz em “I”m Only Sleeping”, e relata uma conversa que teve com Peter Fonda em “She Said She Said”. O ator (representado na música como uma mulher) teria contado a John que, durante uma viagem de ácido, deu uma “morrida” e voltou. Sabia, portanto, o que era estar morto. “She said: 'I know what is like to be dead...'”. Era só uma das referências às drogas presentes no disco. O tal do “Doctor Robert”, homenageado em composição de John, era o sujeito que arrumava LSD para os caras; “Got To Get Into My Life”, de Paul, nada mais é que uma declaração de amor à maconha. “Yellow Submarine”, com o camarada Ringo nos vocais, é psicodelia explícita, ainda que embalada em ingenuidade. A inocência se dissiparia mais nos dois trabalhos seguintes, mais isso já é outra história -- que, como todas as outras do pop, não seriam a mesma se não fosse “Revolver”.










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