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Por Gabriel Rocha Gaspar
Fotos: Bob Marley (por Roger Steffens), Bunny Wailer e Peter Tosh (por Adrian Boot) e Roger Steffens (por Marcus Cuff)
Chegou três horas antes do início de um show do já internacionalmente reconhecido Bob Marley e sua lendária banda The Wailers, na Universidade de Los Angeles, em 25 de novembro de 1979. A paixão do jornalista californiano Roger Steffens pela música dos rastas da Jamaica data de 1973, quando adquiriu uma cópia de segunda mão do disco "Catch a Fire", de um tal Bob Marley. Sentado numa das primeiras cadeiras do auditório Pauley Pavillion com sua esposa, Roger reparou num figurão com dreadlocks sentado logo à sua frente. Teve certeza de que aquele cara estava com a banda, se não fosse um dos integrantes. Timidamente se apresentou e disse que gostaria de saber se a banda tocaria a música "Waiting In Vain", na qual havia um solo do guitarrista Junior Marvin que ele achava fascinante. O rasta perguntou com seu patois jamaicano carregado, “você quer conhecer Bob Marley?”, ao que Steffens respondeu gaguejando, “claro!”. Seguindo por um corredor, o jamaicano falou com uma gargalhada: “eu sou Junior Marvin!”.
Este primeiro contato com Bob Marley mudou a vida do então editor da revista "Rolling Stone" e fã incondicional de Rock and Roll. Roger Steffens acompanhou toda a turnê da banda pelos Estados Unidos em 1979, coletando informações, fotografias e entrevistas. Combinou inclusive de encontrar Bob Marley na Jamaica para escrever um livro. Apenas Marley sabia que aquele encontro jamais se concretizaria: estava sendo lentamente corroído pelo câncer que o mataria em maio de 1981.
Após a morte de Bob Marley, Roger Steffens passou a colecionar todo e qualquer artigo que se relacionasse à Jamaica e à Reggae Music, formando o maior acervo existente sobre o assunto. Os mais de 200.000 itens serão organizados em um museu na Jamaica pelo bilionário Michael Lee-Chin, presidente da companhia financeira canadense AIC Ltd, para quem foram vendidos. Certamente soa estranho que alguém tão apaixonado como Steffens resolva, da noite para o dia, vender todo seu acervo desta maneira.
Por água abaixo O fato é que, em outubro de 1990, Roger se engajou em um projeto ambicioso: escrever a maior biografia já feita do único sobrevivente da banda original de Bob Marley, Bunny Wailer. Junto com outro jornalista, Leroy Pierson, Roger coletou mais de 64 horas de entrevistas de Bunny contando sua história e, conseqüentemente, a história do ritmo que saiu de uma ilhota caribenha para dominar o mundo. Tendo completado três capítulos, com quase 1.800 páginas escritas, Roger foi obrigado a abandonar o projeto. Não queria escrever o livro inteiro antes que Bunny revisasse aquilo que já estava escrito.
Bunny recebeu o texto no Colorado em setembro de 1998 e, segundo Steffens, nunca leu. Nas tentativas de compreender o porquê de tamanha negligência, o jornalista ficou três anos e meio sem obter uma resposta satisfatória. Até que, em um show de Bunny – no qual, diga-se de passagem, Bunny não apareceu –, o baterista Carl Ayton da banda Solomonic Reggaestra, o chamou de canto e disse: “Roger... Bunny nunca vai deixar você terminar este livro. Para conseguir os direitos autorais sobre a caixa 'Songs of Freedom', ele teve que prometer a Rita Marley (viúva de Bob) que o livro não seria publicado”.
Curiosamente, Rita Marley recentemente lançou sua própria versão da história num livro chamado "No Woman, No Cry – My Life With Bob Marley" (“Não chore, mulher – Minha vida com Bob Marley”). É sabido que a condução que Rita deu ao imenso espólio de seu marido não foi das mais honestas. Irritado com a falta de iniciativa de Bunny em relação a esta questão e com o lobby da senhora Marley, Roger abandonou o projeto que lhe consumiu 10 anos de vida, sem nenhum dinheiro, sem contrato e uma enorme frustração.
O sobrevivente Nascido em 10 de abril de 1947 como Neville O’Riley Livingstone, Bunny Wailer cresceu em St. Ann, na zona rural da Jamaica com seu pai Thaddius Livingstone e sua madrasta, Cedella Booker, mãe de Robert Nesta Marley – Bob Marley. Aos quinze anos, ele e seu “irmão” mudaram-se para Rema, bairro barra-pesada da capital Kingston, para tentar a vida como pedreiros, carpinteiros, ferreiros, ladrões ou, com muita sorte, músicos.
Os dois conheceram um rapaz alto de temperamento difícil, dotado de extraordinária habilidade como guitarrista. Conhecido como Peter Tosh, esse guitarrista ensinou aos dois as artimanhas do ritmo que contagiava as favelas da Jamaica no início da década de 60, o ska. O primeiro compacto dos Wailing Wailers, "Simmer Down", foi lançado em 63 pelo selo Studio One, considerado a Motown jamaicana. Foi sucesso absoluto nas festas freqüentadas pelos “rudies” (juventude delinqüente das favelas de Kingston). A partir daí, os três iniciaram uma escala de sucesso que ganharia notoriedade global em 1973.
Marley morreu de câncer em 1981 e Peter Tosh foi assassinado com seis tiros na cabeça em circunstâncias extremamente suspeitas. Atualmente, Bunny é fazendeiro no interior da Jamaica, de onde raramente sai.
Sob suspeita A viúva de Bob Marley, Alpharita Anderson Marley, vive às voltas com os tribunais. Foi processada por absolutamente todos os membros da banda de Bob Marley por condução indevida do espólio do marido. Pouco antes de morrer, Marley não achou que fosse necessário escrever um testamento, alegando que “verdadeiros rastas jamais brigarão por bens materiais”. Ao que parece, a “babilônia” (segundo os rastas, a babilônia é tudo aquilo que vem do sistema ocidental impuro, incluindo a polícia, a Igreja católica e o sistema capitalista) estava mais próxima do que Bob imaginava.
Rita detém hoje 95% dos direitos autorais das músicas – sabe-se que não compôs nenhuma delas, pois Bob compunha sozinho ou com o baixista Aston Barrett, a quem Bob, segundo testemunhas, teria destinado oralmente 70% dos direitos em um contrato oral feito já em seu leito de morte. Barret preside a Bob Marley Foundation e a Tuff Gong International Inc., esta última fundada por Bob ainda em vida.
Atualmente, Rita vive em Gana e costuma promover eventos pelo mundo sob as marcas Bob Marley e Tuff Gong. Aston Barrett lidera a banda The Wailers, gravando e tocando pelos cinco continentes.
Roger Steffens conversou com a Radiola sobre o engavetamento de seu projeto.
Radiola Urbana - Que outros projetos você tocou enquanto escrevia "Old Fire Sticks" e que tipo de trabalho você pretende levar adiante, agora que o livro pode não mais ser publicado? Roger Steffens – Estou lançando um livro que vim escrevendo nos últimos 14 anos com Leroy Jodie Pierson chamado "Bob Marley and the Wailers: A Discografia Definitiva", que detalha todas informações que se poderia querer saber sobre quem fez o quê em cada faixa dos Wailers: o produtor, o engenheiro, número de canais da fita master, número matriz e os números de série das primeiras edições jamaicas, inglesas e americanas, além de inúmeras histórias sobre cada música. É parcialmente baseado numa maratona de entrevistas de três semanas com Bunny Wailer feitas em Kingston, 1990, onde eu e Leroy pusemos todas as faixas dos Wailers para tocar, lançadas ou não, e Bunny nos contou a história completa de cada uma delas. Depois disso, eu espero completar uma história oral sobre Bob Marley. Recentemente, Ziggy, Stephen e Damian Marley me visitaram e nós conversamos seriamente sobre o lançamento de dois álbuns inéditos do Bob Marley, que eu espero que possam ser realizados em breve. E, é claro, continuarei a dar palestras pelo mundo sobre “A Vida de Bob Marley”. Acabei de concluir um ciclo de 12 dias em sete cidades da Austrália, a que fãs do Bob vieram em grandes números.
Bunny Wailer alega ser impossível a publicação de “Old Fire Sticks” para que possa receber os direitos sobre a caixa “Songs of Freedom”. Por que Rita imporia tal condição? Só ela poderia responder.
Teria algo a ver com o fato de ela haver lançado recentemente "No Woman No Cry - My Life with Bob Marley"? Pode-se suspeitar.
Por que Bunny insiste que o livro será publicado, mesmo sem trabalhar nele? Pergunte a ele.
Você coleciona artigos relacionados a Bob Marley há mais de trinta anos, coletando alguns de seus mais honestos álbuns póstumos. Como se sente ao ver as pessoas mais próximas a Bob – como Rita e Bunny – sempre guardando informações e faixas inéditas do público? Frustrante pra cacete. Eles só prejudicam a eles mesmos a longo prazo. Mas saiba que meus artigos não se relacionam apenas a Bob Marley – ele representa menos de 10% do total. Eu cubro a história inteira da música jamaicana, desde os primeiros passos do ska, e a coleção já preenche seis salas do chão até o teto, na nossa casa em Los Angeles. Excluindo os 6.000 objetos que foram para a exposição chamada “O Mundo do Reggae com Bob Marley, Tesouros dos Arquivos de Reggae de Roger Steffens”.
Eu soube que o senhor vendeu sua coleção ao bilionário Michael Lee-Chin, presidente da investidora canadense AIC Ltd. Como é ter a casa vazia? E, ao mesmo tempo, ter o sonho do acervo exposto em museu realizado? É uma maravilha, apesar de inquietante. Minha esposa costuma dizer que é a coisa mais próxima que um homem pode sentir do pós-parto. Nem preciso dizer que minha maior preocupação é com a segurança dos arquivos a longo prazo, mas eles precisam ser institucionalizados – é muita coisa para eu cuidar sozinho. A mais de 12.000 horas de fitas que precisam ser digitalizadas em breve. Assim como 1.830 horas de vídeos de reggae. Mais de 10.000 pôsteres e fliers do mundo inteiro. A cada palestra, as pessoas me dão pôsteres, fotos, CDs e outras recordações de cada país. Só porque vendi a coleção não sigfnifica que parei de colecionar.
* Essa matéria foi escrita para publicação no "Contraponto", jornal laboratório da PUC SP
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