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Por Filipe Luna
Daedelus é o nome artístico do produtor de Santa Mônica, Califórnia, Alfred Weisberg Roberts. Não se engane pelo nome pomposo. Ele faz música à moda Hip Hop, mas está longe de ser classificado como pertencente ao estilo. E faz questão que seja assim. É mais um dessa ótima linhagem de produtores que se utiliza dos recursos tecnológicos oferecidos e muita criatividade para fazer música desafiante em todos os sentidos.
Mas ele acrescenta algo mais por ter formação acadêmica em música. Começou estudando música clássica e jazz, mas logo foi seduzido pelas batidas envolventes da música eletrônica e do rap. Seu primeiro disco, "Invention" (de 2002), foi muito bem recebido pela crítica como mais um sopro de inventividade na música eletrônica e no Hip Hop.
Em seu mais recente trabalho, "Exquisite Corpse", tem a colaboração de alguns dos melhores expoentes da música moderna. Gente do quilate de MF Doom, Mike Ladd e Prefuse 73. Inspirado na técnica surrealista de desenho colaborativo chamada de "cadavre exquis" ("exquisite corpse", em inglês), ele vai montando as partes de um todo com a ajuda de seus colaboradores. O resultado é uma colagem sonora com diversas perspectivas diferentes, mas que consegue apresentar um sentido geral. Hip Hop surrealista? É um rótulo possível mas, afinal, para que rotular? Música é para se ouvir e pronto.
Além de um artista inventivo, Alfred parece ser uma figura única. Espécie de neo-hippie, ele e sua namorada, Laura, se atribuem o sobrenome de "Darling" e gostam de trocar comentários positivos. Pode entrar no site e conferir: http://www.daedelusdarling.com. Um dos espiões da Radiola Urbana conseguiu contatá-lo por e-mail e, logo nos primeiros contatos, o produtor disse que estava pensando muito no Brasil ultimamente. Hum, bastante intrigante não?
Você estava dizendo que está pensando muito no Brasil ultimamente. Por que isso? Você provavelmente gosta muito de música brasileira, seus discos causam essa impressão. O Brasil tem atraído meu interesse parcialmente por causa dos rumores que eu tenho ouvido sobre o fantástico Hip Hop e música eletrônica feitos aí, que não chegam aos ouvidos norte-americanos. Também sou muito cativado pelo samba brasileiro tradicional e música folclórica mas, honestamente, não saberia por onde começar a ouvir.
Quando foi que a música se tornou realmente importante em sua vida? Desde muito novo eu decidi me render à música. Por um tempo eu não estava certo de como isso aconteceria, mas com um pouco de sorte e trabalho duro agora eu sei como proceder -- pelo menos por enquanto. Durante esse tempo eu estive estudando jazz e música clássica, instrumentos folclóricos como tambores Bata (tipo de percussão cubana) e ouvindo, ouvindo, ouvindo!
Você cursou música na faculdade, certo? Isso te dá uma abordagem diferente na hora de compor batidas no computador ou num sampler? Definitivamente, minha abordagem é muito baseada em notação musical, linhas melódicas separadas que se relacionam com grooves e batidas. Também aprendi que a escola de música não era pra mim, eu queria fazer sons novos e, de um certo modo, também queria fazer música antiga que as escolas não ensinam...
Quando que você começou a garimpar discos? Por que você começou a fazer isso? O que você acha que move homens crescidos a procurar por esses discos raros e obscuros sem importância para a maioria das pessoas? Eu acho que as pessoas se importariam mais se ouvissem esses sons antigos. A música de nossa infância é muito importante para a maneira com que ouvimos a do nosso presente. Estou apenas canalizando antigas trilhas sonoras por novos gêneros. Estou sempre procurando por qualquer som que seja de partir o coração ou alegre. Eu definitivamente tenho ouvidos seletivos: alguns discos são perfeitos e outros, que deveriam ser por todos os indicativos (ano, compositor, orquestração, etc.), podem soar murchos no toca-discos. Eu acho que gosto pessoal é muito importante para a criação.
Você ainda garimpa? O que você procura quando está garimpando discos? Eu tento não deixar nenhum gênero musical de fora, todo som tem algo a oferecer, eu apenas preciso achar a música certa para combinar com esses sons. Mas eu me encontro procurando por música incompleta, como trilhas de filmes e discos para crianças... Sinto que posso adicionar algo a esses discos.
Madlib disse recentemente numa entrevista que, quando esteve no Brasil, foi garimpar discos com Cut Chemist e outros DJs. Ele disse que começou a escolher, de propósito, os discos com as capas mais bizarras e os outros ficavam dizendo "você nunca vai achar nada nesses discos". Depois ele fez uma fita de batidas só com os discos bizarros que ele havia comprado e todos ficaram surpreendidos com o resultado. Você acha que é possível fazer batidas com qualquer coisa? Você às vezes se força a fazer música a partir de fontes inusitadas? Às vezes é o melhor lugar para começar, no inusitado, especialmente se você quer fazer uma batida boa. O que vai separar seu som das outras centenas de batidas boas? Acho que uma surpresa sempre aumenta o entretenimento.
E como foi ser sampleado por Madlib? Você gostou da faixa? Foi uma das maiores honras que recebi. Sendo um artista que sampleia, ter uma das minhas faixas originais sampleadas é um sentimento maravilhoso e o fato de ter sido Madlib que a escolheu foi melhor ainda...
Você ainda acha que alguns artistas ainda pensam que estão sendo explorados e plagiados por artistas que os sampleiam? Você se sentiu explorado? Eu acho que por razões próprias existem artistas que pensam que o sampler está acabando com o mundo da música. Entretanto, eu acredito que nesse mundo pós-moderno o sampler salva e salvará a música de se repetir. O sampler nunca deixa o compositor esquecer o passado, te força a perceber o quanto foi feito antes e pensar em maneiras de fazer o novo a partir do antigo, é disso que trata a composição clássica ou moderna de qualquer maneira. Fazer novo o que havia cansado ou sido descartado e fazer isso seu.
Você acabou de lançar um novo álbum, "Exquisite Corpse". Como foi trabalhar nele? Foi muito diferente dos anteriores? Esse disco tem tantos convidados, tantas visões novas e diferentes. Eu realmente penso nele como um tipo de romance escrito por muitos autores. Não uma compilação, mas uma peça contínua que foca no mesmo protagonista só que com estilos diferentes. Foi um prazer trabalhar nele do começo ao fim. Os discos antigos haviam sido prazerosos depois de terminados, mas nunca tão fáceis de fazer.
Você tem uma rotina para trabalhar com música? Você faz isso o tempo todo, em qualquer lugar, quando a inspiração bate, ou você tem um jeito mais organizado de trabalhar? É sempre diferente. A maneira como a inspiração virá é uma coisa complicada de saber. Eu trabalho em casa mas às vezes uma idéia ou som surge no meio da rua ou em lugares estranhos como na cama e eu tento fazer o melhor para lembrar-me. Também tento me manter um artesão, sempre trabalhando mesmo quando a inspiração não está ali. É parte da arte de fazer música, não há espaço para bloqueios criativos. Nós devemos sempre imaginar as coisas antes...
Como é trabalhar com MCs? Seu som é meio único, é difícil achar bons MCs que possam adicionar coisas ao trabalho? Imagino que alguns deles devem achar suas batidas estranhas demais para eles, isso acontece? Tive muita sorte de trabalhar com MCs que conseguiram adaptar seus estilos às minhas batidas. Ainda não tive que fazer concessões até agora com minha música, tomara que isso continue. Mesmo pessoas como MF Doom, que eu imaginava que preferiria um certo estilo, escolheu uma canção minha ("Impending Doom") que é bem rápida e tem uma batida de batucada. E ele fez um trabalho sensacional!
Você liga para como as pessoas, especialmente críticos musicais, percebem seu trabalho? É difícil para eles porque é complicado rotular sua música. Bem, eu sempre aprecio quando as pessoas páram um pouco para realmente escutar minha música. Tem um monte de música sendo feita que vale a pena ser ouvida e eu tenho sorte de ter alguns ouvidos para a minha... Tendo dito isso, eu realmente gosto que minha música tenha uma vida própria com o ouvinte. Se a canção é bonita para alguns ou áspera para outros, isso é ótimo! Às vezes, um crítico musical vai dizer que tal canção é isso ou aquilo e isso sempre me desaponta, acho que é preguiçoso apenas rotular algo. A música tem que ter tanta vida quanto for possível, em um mundo perfeito ela falaria por si própria aos poucos que a escutassem.
Você não acha que as pessoas ficam mais confortáveis com algo que tenha um rótulo? Você se preocupa em fazer algo que atenda às expectativas das pessoas ou até mesmo de um gênero musical? A idéia de um gênero é muito poderosa, é como um clichê. Eu acho que essas idéias trazem responsabilidade para respeitar e subverter as expectativas. Eu acho no mínimo divertido fazer isso e no máximo pode mudar a vida de fãs de música de verdade.
Quais são seus artistas preferidos e como você os descobriu? Eu realmente acho influência de qualquer direção, mas mais notadamente da música eletrônica. Eu fui muito inspirado pelos primeiros sons de rave saídos da Inglaterra nos anos 1990. Artistas como Acen, Two Bad Mice e muitos outros estavam criando música desafiadora para dançar -- que tinham melodias e ritmos intrincados --, mas eles também haviam sido influenciados por muitas outras fontes. Do lado do Hip Hop, acho que produtores como o Bomb Squad (que fez muitas das músicas do Public Enemy, por exemplo) serão sempre interessantes e especialmente importantes hoje em dia. Esses artistas foram parte do tecido dos meus jovens anos, independente de eu ter entendido ou não o quanto eles significariam para mim hoje.
Qual o tipo de música que você gosta? Eu gosto de qualquer coisa que me impulsione, seja a dançar, a refletir, a sentir, a enlouquecer. Música emocional domina meu dia-a-dia!
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