BUSCA NO SITE  
 
Safári Estereofônico, vol. 3
Os ecos do afrobeat de Fela Kuti: sintonize Safári Estereofônico, vol. 3!

Safári Estereofônico, vol. 1
Ouça a primeira edição do Sáfari Esterofônico, nosso novo programa com achados e perdidos da música africana! Tema da estreia: a influência de James Brown no afrobeat!


NEWSLETTER  
email:
Para receber nossa newsletter via e-mail, coloque seu e-mail, e clique em CADASTRAR.








02/07/2004
Gênio do ritmo

Por Thiago Lotufo
Fotos: José Gabriel Lindoso

Quebradeira total. Assim pode ser definida a apresentação que o baterista Tony Allen fez no Sesc Pompéia no final de junho de 2004 durante o Fórum Cultural Mundial. Quem compareceu, como a gente aqui da Radiola Urbana, pirou e facinho, facinho entrou em êxtase. Dizer que o cara é um gênio das baquetas é óbvio demais; redundância pura. Arrumar uma palavra melhor fica pequeno.

Vamos lá. Para quem não o conhece, a gente apresenta: Tony Oladipo Allen é um músico de finíssima qualidade. Nasceu em Lagos, capital da Nigéria (África), em 1940. Começou a tocar bateria aos 18 anos – aprendeu tudo de ouvido – e não parou mais. Seu grande feito na carreira foi ter criado juntamente com Fela Kuti o afrobeat, estilo que mistura funk, jazz, rhythm‘n’blues e ritmos tradicionais africanos como o juju. “O afrobeat é o som que eu sempre procurei e que sempre vou carregar comigo”, disse Allen em entrevista exclusiva ao Radiola Urbana.

EM PLENA FORMA
Aos 63 anos (completa 64 em agosto), Allen desembarcou pela primeira vez no Brasil para participar do Fórum. Fez dois shows em São Paulo (no Sesc Pompéia e no Sesc Itaquera) e participou de uma jam session no estúdio da gravadora YBrasil com músicos do Instituto, Otto, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. Foi pouco tempo, mas quem assistiu às apresentações pôde conferir de perto que o cara continua em plena forma, dominando as baquetas como ninguém e destilando suas inimitáveis batidas quebradas.

Allen tocou profissionalmente pela primeira vez em 1960 quando entrou para os Cool Cats, uma banda nigeriana de highlife, ritmo que predominava no oeste da África (na área colonizada pelos ingleses) e que unia guitarras a um naipe de metais bem jazzístico. Detalhe: Fela Kuti já havia cantado nos Cool Cats antes de ir estudar em Londres, em 1958. Allen começou tocando teclado (vejam só!) e só foi assumir as baquetas meses depois com a saída do batera titular. Em 1961, a banda foi para o espaço. Allen, então, passou por mais três bandas até chegar 1964, ano que entraria definitivamente para a biografia do artista.

Foi em 64 que ele foi apresentado a Fela Kuti. Fela era líder do Koola Lobitos e estava atrás de um bom baterista que tocasse jazz e highlife. Já havia realizado diversas audiências e nenhum músico o satisfazia. Até que... tchan, tchan, tchan, tchan... encontrou Tony Allen. Após ouvi-lo tocar, Fela disparou: “Você é o único cara na Nigéria inteira que toca desse jeito”. Traduzindo, ele quis dizer algo do tipo: “Como é que você toca assim pra caralho?” .

DUPLA DINÂMICA
E aí já era. Juntaram a música com a vontade de tocar e não deu outra. Os dois formaram durante 15 anos uma das duplas mais importantes do cenário musical do século 20. O tranqüilo e taciturno Tony Oladipo Allen com o carismático e visionário Fela Anikulapo Kuti. Duas almas gêmeas – musicalmente falando – que se comunicavam por telepatia, como Allen conta na entrevista abaixo.

Em 1969, a turnê que o Koola Lobitos fez nos Estados Unidos (tendo como base Los Angeles) iria mudar a vida da dupla para sempre. O grupo excursionou por oito meses pelo país – tempo mais do que suficiente para que Fela entrasse em contato com as idéias de Malcom X, dos Panteras Negras e outras lideranças que defendiam os negros e o afrocentrismo. De volta à Nigéria, não deu outra: Fela radicalizou em suas posições políticas, trocou o nome do Koola Lobitos para Nigeria 70 e passou a experimentar ainda mais incorporando a sonoridade do funk em suas composições. Pouco adiante, ele ainda iria abrir o seu “club” – batizado de The Shrine – e ter o seu próprio estúdio. A banda, já com uma média de 20 componentes, passou a se chamar Afrika 70.

Nascia aí o afrobeat, um caldeirão de influências e transformações muito bem colocado sobre o fogo de um regime autoritário e sanguinário. Na década de 70, Fela e Allen eram unha e carne; uma combinação perfeita. “Fela escrevia as músicas para todos os instrumentos da banda, menos para mim”, conta Tony Allen. “Ele dizia que eu soava como quatro baterias.”

"NÃO VOU DAR AUMENTO PARA NINGUÉM"
A lua-de-mel entre os dois começou a ruir em 1974. Fela era um superestar, mas sua banda não recebia o devido reconhecimento – financeiro inclusive. Decidiram, então, fazer uma greve e não aparecer para um show que havia sido marcado. Fela foi incisivo: “Não vou dar aumento para ninguém. Se vocês quiserem continuar vai ser assim. Se não quiserem, eu arrumo outros músicos.” Mas disse também: “Se alguém de vocês quiser fazer suas próprias músicas eu dou todo o meu apoio.”

Foi aí que Tony Allen (Fela o chamava de Allenko) aproveitou a senha e partiu para a carreira solo em paralelo ao trabalho que fazia com Fela. Gravou três discos produzidos pelo próprio Fela ("Jealousy", "Progress" e "No Accomodation for Lagos") e tendo músicos do Afrika 70 como banda de apoio. Em 1978, o caldo desandou de vez e Allen achou que era o momento certo para cair fora e seguir seu próprio rumo. “Fela achava que tudo estava normal, mas ele não me dava o devido reconhecimento”, diz Allen.

O outono de 78 assistiu à última apresentação dos dois numa mesma banda: festival de jazz de Berlim, na Alemanha. Depois disso, cada um foi para o seu canto. Fela, mais adiante, iria montar o Egypt 80 e Allen lançaria o seu álbum "No Discrimination". Ele se mudou para Paris (onde vive até hoje) e durante a década de 80 sua carreira ficou um tanto apagada, lançando apenas um trabalho: " N.E.P.A." (Never Expect Power Always). Na década de 90, gravou "Black Voices" e, em 2002, lançou uma sonzeira em "Home Cooking".

O disco mistura rap, R&B e alguma coisa de eletrônica. Coisa fina. Mas com o afrobeat ali, sempre pulsando na base de tudo que ele faz. Destaque para as faixas "Home Cooking", um libelo contra a globalização, e "Don’t Fight Your Wars", que prega a paz acima de tudo (e olha que ele diz que não gosta de política!).

Leia a seguir a entrevista exclusiva que Tony Allen concedeu à Radiola Urbana momentos antes do show no Sesc Pompéia:

Radiola Urbana - Qual a sua expectativa para o show?
Tony Allen - Eu não sei. Esta é a minha primeira vez no Brasil. Não sei o que esperar.

O senhor imaginava que um dia tocaria no Brasil?
Claro que sim. Claro que sim. Eu sempre esperei tocar por aqui. Groove people.

Seus álbuns mudaram ao longo de sua carreira. O sr. incorporou ritmos novos...
Continua sendo afrobeat. Eu coloquei coisas novas, mas a base é o afrobeat. É a evolução do som, do estilo. Eu tento evoluir dentro do afrobeat.

O sr. acha que a evolução vem de ritmos como R&B, rap, música eletrônica?
Não, não. Eu ouço todos os estilos de música. Eu gosto de muita coisa. Não tenho um gosto particular por determinada coisa. Você tem que ouvir os outros para poder criar o seu próprio estilo.

O afrobeat é um ritmo muito poderoso e não dá para simplesmente esquecê-lo. Não é isso?
É isso. Não é como outras músicas como o rock e o reggae, por exemplo, que têm uma determinada batida. O afrobeat não é uma batida específica porque estou criando a todo momento, reinventando – especialmente quando fico entediado com determinada batida. Nos meus concertos, por exemplo, apesar de ser afrobeat, você não vai ouvir a mesma batida do início ao fim do show.

Como o sr. criou o afrobeat junto com Fela Kuti ? Vocês costumavam tocar jazz juntos nos clubs de Lagos...
Fela era o cara que eu procurava. Eu passei por várias bandas até encontrá-lo. Eu trocava porque não via evolução. E quando não vejo evolução me cansa e eu vou procurar outras pessoas. Fela foi a pessoa certa que me levou a expandir os limites de criação. Ele era um gênio e nós nos comunicávamos por telepatia.

Vocês se comunicavam por telepatia?
Com certeza.

Como o sr. o conheceu?
Foi uma baixista que eu conhecia que me apresentou a ele. Fela estava atrás de um bom baterista na Nigéria – ele tocava jazz naquela época. Ele procurou e disse que não havia um baterista bom no país. Até que este baixista disse: “Check somebody out first” (dê uma olhada em alguém antes) e depois você toma a sua decisão. Isto foi em 1964. E, desde emtão, começamos a tocar jazz juntos. Fela me perguntou onde eu havia estudado bateria. Eu disse: ‘Em nenhum lugar, aprendi aqui mesmo na Nigéria.’

O sr. aprendeu tudo de ouvido? Nunca teve aulas?
Nunca. Eu experimento bastante. A bateria não é um instrumento que não deve ter limites. Talvez, se eu tivesse tido aulas eu estaria limitado àquilo que o professor me ensinaria.

O sr. foi influenciado por bateristas como Art Blakey, Max Roach...
Sim. Fui. Eles foram os meus ídolos. Quando eu comecei a tocar eu queria tocar como eles. E consegui. Mas depois comecei a me perguntar: ‘Ok. Eu sei tocar como Blakey, Max Roach, Tony Williams, mas e eu? Quando vou tocar como Tony Allen? E o meu estilo?’

Foi por isso que mais para frente o sr. saiu do Africa 70?
Mas foi no Africa 70 que eu pude experimentar bastante, colocar minhas idéias para fora. Fela era um compositor genial.

O sr. também é...
É. Por isso a gente se comunicava por telepatia.

O sr. ficou triste quando vocês se separaram?
Não, porque ele continuou a ser meu amigo até os seus últimos dias. Algumas pessoas disseram que eu queria arruiná-lo, mas não é verdade. Ficamos 15 anos juntos e foi o suficiente. Uma hora tive de partir.

O sr. pode contar um pouco mais sobre o encontro com o James Brown e os JB’s?
Não conheci James Brown pessoalmente porque quando ele esteve na Nigéria não apareceu nos nossos shows. Apenas os seus músicos, como o Bootsy Collins.

E a história de que o diretor musical dos JB’s ficou colado na sua batera vendo o sr. tocar...
É verdade. Ele ficou ao meu lado durante um concerto. Observava como eu tocava e anotava num papel o estilo da minha batida. Eu vi aquilo e fiquei rindo. Ri muito de ver ele tentando anotar tudo aquilo.

O sr. costumava ouvir James Brown?
Sim. James Brown é um dos músicos que eu mais respeito. Todo mundo no meu país era fã de James Brown.

O sr. começou a tocar com 18 anos e agora já acumula quase 50 anos de estrada. O que você destacaria nesses anos todos de carreira?
A minha dedicação à música, ser um artista dedicado ao que eu acreditava. Quando você acredita no que faz, o resto é o resto.

E o sr. sempre acreditou profundamente na sua música?
Claro. Senão já teria parado.

Atualmente o sr. vive em Paris, mas ainda vai para a Nigéria com freqüência?
Estive no meu país há cinco semanas. Sempre estou por lá.

E como o sr. vê o país atualmente comparando com os anos 60 e 70? O sr. acha que a Nigéria está melhor?
Não. Agora é uma loucura total. Mas eu não sou político e não quero falar sobre política. No passado, meu país era melhor. É verdade que os militares ficaram no poder por cerca de 30 anos e eu acho que a função deles não é dirigir um Estado, mas, sim, se preparar para a guerra.

Quer dizer que o sr. não gosta muito de falar de política?
Não gosto. Não sou político e odeio política. É um jogo sujo, muita corrupção.

Para finalizar, uma declaração que Tony Allen fez certa vez sobre tocar bateria: “Eu não sei ensinar alguém como tocar. A única coisa que eu posso dizer é que se alguém quer tocar como eu, não deve olhar para a bateria, mas, sim, para a sua própria cabeça. A bateria está aí, as baquetas estão aqui (nas mãos), mas você coloca para fora o que esta aqui (na sua cabeça). Se alguém quer tocar como eu tem que desenvolver esta habilidade”.

Assista trechos em vídeo desta entrevista e do show de Tony Allen em São Paulo

E leia mais sobre afrobeat e Fela Kuti na Radiola

 










Home | Ouça | Leia | Agenda | Assista | Navegue | Escreva
Lançamentos | Arca do Velho | Discoteca | Arquivo | Contato