|
Por Alê Duarte
Passaram-se sete meses desde o lançamento de “Prairie Wind” (2005), para que Neil Young aparecesse com um novo disco. “Living With War” e suas 10 faixas foram compostas e gravadas em apenas nove dias. Algumas passaram por todo o processo em apenas um dia. Também foi lançado com urgência, primeiro na internet, onde ficou disponível para download, e agora em disco. Trata-se, basicamente, de um protesto anti-Bush, onde o músico chama o presidente de mentiroso e desonesto em quase todas as faixas, além de desdenhar a guerra que os Estados Unidos travam no Oriente Médio. Foi gravado com o baterista Chad Cromwell e com o baixista Rick Rosas (mesma dupla que o acompanhou em “Freedom”, de 1989), além de um trompete com um tom meio "faroeste mexicano" em algumas faixas e um coral com 100 vozes.
O disco remete às obras mais sujas do guitarrista como “Freedom”, “Ragged Glory” (1990) e “Mirrorball” (95), para ficar só nos mais recentes. Claro que todos esses discos têm a base nos seus trabalhos entre o final dos anos 60 e meados dos 70, quando ele lançou de “Everybody Knows This Is Nowhere” (69) à “Zuma” (75). Young tem faces bem distintas, e por mais que elas mudem, sua essência sempre permanece. Sua voz é característica demais para ser confundida ou copiada, embora tentem. Sua guitarra é uma marca extremamente forte que teve grande impacto em muita coisa que apareceu no rock nos últimos anos. Sua influência é inegável, e abarca desde ótimas bandas como My Morning Jacket, Wilco e Grandaddy, até os nomes mais famosos do falecido movimento grunge.
A força que move o músico encontra paralelo em um outro, de um gênero mais afastado, mas que é uma influência fundamental dentro do rock – desde os psicodelismos dos anos 60 até pos-rock dos dias atuais, passando pelo punk da década de 70. É a mesma que movia os sopros espirituais de Albert Ayler. Por mais estranho que possa parecer, existe um ponto em comum entre os dois: o instinto. Ambos são músicos completamente instintivos. Claro que cada um ao seu modo, eles têm domínio do instrumento e sabem o que tocam. Os dois poderiam facilmente servir de exemplo máximo para o conceito de arte desenvolvido pelo filósofo Arthur Schopenhauer, que já dizia que ela nasce do instinto. Como tal, dentro do rock não existe ninguém mais instintivo do que Neil Young, assim como no jazz, Ayler é o expoente primordial. Nesse aspecto, eles são músicos-irmãos mesmo sem nunca terem se encontrado. Não há muita dúvida de que Neil tenha ouvido Ayler. Já o contrário...
Os dois – seja no impulso que move Young a gravar um disco em apenas nove dias com sua guitarra suja e distorcida entoando um som agoniado, seja nas demências que escapam do saxofone de Ayler em forma de melodias sopradas e que resultam em uma radicalidade jamais ouvida no jazz – trabalham com elementos parecidos para transformar, cada um dentro de seu gênero, tudo isso em música profundamente autoral. A matéria-prima de ambos é a tradição. Com filtro instintivo, Neil Young dá ao country e ao folk um tratamento que muitos dos artistas que seguiram sua linha não alcaçanram porque, talvez, tenham desprezado a intuição. Na mesma medida, Ayler filtrou a tradição mais enraizada e pura do jazz – as marchas de rua de New Orleans – para transformá-la em uma visão furiosa inédita no jazz de vanguarda dos anos 60, tornando-se, a exemplo de Young no rock, um dos saxofonistas de free jazz mais imitados e influentes de todos os tempos. Isso tudo sem ser um virtuoso do porte de um John Coltrane ou um Eric Dolphy.
Essa espécie de força bruta funcionou bem com Ayler, e tem funcionado também com Neil Young. Essa pulsação instintiva para criar é a principal característica dos dois, coisa que os torna, de certa maneira, alvo fácil para criticas. O jazz de Ayler só encontrou aceitação muito depois de sua morte, em 1970, quando foi inexplicavelmente encontrado afogado em Nova York. Seu som sempre foi movido por uma espécie de musicalidade espiritual e caótica que tinha base no seu instinto e nessas raízes das já faladas centenárias marchas de rua. Por seu lado, ao gravar apressadamente um disco essencialmente político, Young coloca mais do que a sua música a julgamento – mas, também, uma posição ideológica que pode ser vítima de preconceitos que ofusquem a qualidade musical.
As improvisações também marcam o perfil dos dois músicos. Em seu segundo disco, “Everybody Knows This Is Nowhere”, Neil Young tem dois grandes momentos de longos improvisos de guitarra em “Down By The River” e “Cowgirl In The Sand”. A característica reaparece em outras obras do músico e se repete até hoje seja em disco ou ao vivo. Em Ayler, até mesmo por se tratar de jazz, isso também acontece. Nesse aspecto, o que mais os aproxima é o fato de suas improvisações não terem nada de calculado. Ambos parecem mergulhar na música até seu ponto mais profundo – onde percebem não terem mais para onde ir para expressar essa faceta interna. Eles também, por mais que improvisem, nunca elegem esses momentos para o brilho de um instrumento: o que se vê é uma comunhão musical entre a banda inteira. Ainda que a guitarra de Young ou o saxofone de Ayler apareçam em primeiro plano em suas composições, a base dialoga de maneira forte com o que está acontecendo no solo, como se eles exigissem de seus músicos a mesma verve instintiva que os domina.
Dois músicos diferentes, mas com muita coisa em comum: apesar de representarem gêneros distinton e histórias que não são parecidas, ambos ilustram a força instintiva da música. Claro que outros muitos músicos, tanto do rock quanto do jazz também demonstram essa veia quase vocacional de criar, muitas vezes, dispensando os preceitos mais cerebrais da música (não que eles não estejam ali) e despejando seus sons quase como um grito desesperado. Riffs, no caso de Neil Young. Sopros, no caso de Albert Ayler.
|