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JHF#8: música jamaicana de todos os estilos + misturas com eletrônica + rasta excentricidades Produção: Chico Dub Ilustração: Mateu Velasco
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a discoteca do massive attack; o primeiro dub; o fogo do bobo; funky dancehall; surfistas de sofá; dub portenho; dub poetry brooklyniano; post-reggae alemão; paul st. hilaire, ex- tikiman; dub poetry dinamarquês; dub poetry dinamarquês 2
- “Five man army dub” – Lewin Bones Lock (1982) - “Hard fighter” – Little Roy + “Voo-doo” – The Hippy Boys (1971) - “Fire pon Rome” – Anthony B (1996) - “Me and me princess” – Lightning Head (2002) - “Passing´tru” – Sofa Surfers (2004) - “Ante tus ojos” – Federico Aubele (2004) - “Dilly dally” – Brooklin Funk Essentials (1994) - “Life is worth dying for” – Burnt Friedman - “Little song” – Paul St. Hilaire (2006) - “Creation” – Djosos Krost (2006) - “Chapter one” – Djosos Krost (2006)
))) Robert Del Naja (3D), Andrew Vowles (Mushroom), Grant Marshall (Daddy G) e Tricky são sujeitos de extremo bom gosto. Pega o "Blue Lines", marco zero do trip-hop. Agora, dá uma olhada nos samples. Isaac Hayes, Al Green, Wally Badarou, John McLaughlin & The Mahavishnu Orchestra. A junção de todos esses nomes mais uma penca de outros do soul, do funk, do hip hop e do reggae deu origem ao Massive Attack. Ou seja, o melhor da música negra sob a ótica de figuras que se auto-intitulam Cogumelo, 3D, Papai G e Trapaceiro. É... não tinha como dar errado. “Five Man Army”, quinta música do "Blue Lines", é quase uma cópia de “Five Man Army Dub”, produção de 1982 de Lewin Bones Lock para o Oaks Sound. Amigo, isso é o obscuro do obscuro do obscuro. Não sei nada sobre esse produtor. Nem eu e nem o Google. A única coisa que descobri é que “Five Man Army Dub” é a versão de um som que tem Dillinger, Trinity, Wayne Wade, Al Campbell e Junior Tamlin como vocalistas. Daí o exército de cinco homens, que na versão do Massive Attack, junta os quatro membros originais mais o supra-sumo do cool jamaicano, Horace Andy.
))) Ao contrário do que você lê por aí, King Tubby não inventou o dub. Lee Perry muito menos. O dub como nós o conhecemos é resultado de uma longa evolução, papo de cinco, seis anos. A história é mais ou menos a seguinte (não existem fatos na Jamaica). Um belo dia, em 1967, Ruddy Redwood, principal selector de Spanish Town, percebeu que Byron Smith, engenheiro de som de Duke Reid (Treasure Isle/Trojan Sound System), se esqueceu de incluir o vocal de “On the beach”, dos Paragons, no dubplate que ele havia cortado. Ruddy levou o acetato assim mesmo e o discotecou no mesmo dia, alternando a faixa original com o “remix” instrumental. O público foi ao delírio, cantando com entusiasmo a letra e implorando por seguidos rewinds. No ano seguinte, vários compactos carregavam em seus lados B versões instrumentais das músicas presentes no lado A. Num primeiro momento, essas versões eram dominadas por levadas adicionais de órgão, guitarra, sax, trombone. Aos poucos, os engenheiros de som começaram a inovar, adicionando efeitos, sampleando pedaços de músicas muito antes do sampler ter sido inventado, manipulando a mix original e transformando-a cada vez mais em outra música. Até 1972, o engenheiro Lynford Anderson aka Andy Cap era, talvez, o mais criativo deles. Tanto é que “Voo-doo”, sua versão (creditada à banda The Hippy Boys) de “Hard Fighter”, do Little Roy é considerada o primeiro dub da história; isto é, uma versão em que os elementos da música original entram e saem da mix, somados a truques de equalização, efeitos e outras bossas. Obeah é a medicina ritualística africana que chegou à Jamaica através dos escravos. Sua característica mais importante é a divisão do corpo humano em sete centros ou "eus" - sexual, digestivo, emocional, racional... Através de poções e ervas, o curandeiro fortalece alguns desses elementos e ao mesmo tempo enfraquece outros. Traçando uma analogia do obeah com o dub (“Voo-doo”, “Phantom”, o disco "Garvey´s Ghost", do Burning Spear), dá pra imaginar, numa boa, o curandeiro – também chamado de cientista – como engenheiro e o paciente como mesa de som. Dessa forma, o curandeiro remixa “o todo” do paciente, rebalanceando seus elementos de acordo com sua vontade.
))) Por que dez entre dez fãs do novo roots jamaicano adoram usar a palavra fogo? A resposta está em Anthony B e sua “Fire pon Rome”, música tida como pioneira da onda bobo dread que tomou conta da Jamaica em meados dos anos 90. Na verdade, o fogo faz parte do cancioneiro jamaicano há décadas – “Blood and Fire”, “Babylon´s Burning”, “Fire fe de Vatican”. O que pegou é o fato de boa parte dos cantores que fazem sucesso na ilha atualmente (Sizzla, Capleton, Jah Mason, Jah Cure, Determine, Norris Man, Warrior King, Lutan Fyah) serem membros da polêmica e ortodoxa corrente rastafari dos Bobo Ashanti. De turbante na cabeça, robe no corpo e vassourinha na mão (simbolizando limpeza espiritual), os bobo seguem os ensinamentos do Príncipe Emanuel Edwards, estudioso das idéias pan-africanistas de Marcus Garvey e o primeiro homem a fundar uma comunidade rasta na Jamaica, mandando tudo e todos à fogueira.
))) Quando o Rockers Hi-Fi terminou suas atividades no final dos anos 90, Richard Whittingham (DJ Dick) foi se dedicar integralmente ao (excelente) Different Drummer. Já Glyn Bush, a outra metade do Rockers, apesar de ter partido em carreira-solo, não alterou muito a fórmula do Rockers, uma das mais bem azeitadas fusões de dub, eletrônica e hip hop que se tem notícia. Assinando como Lightning Head, Glyn injetou doses de música latina e afro à mistura. Como Biggabush, Glyn foi fundo na eletrônica. Da fase Lightning Head, que gerou o ótimo "Studio Don", de 2002, selecionei a funky e quebradona “Me and me princess”, uma das mais interessantes incursões européias ao dancehall jamaicano. Quem gosta do Rockers não pode deixar de ouvir as produças de Glyn (“Stilla Move”, “Bass drum and a snare”, “Deep Eastwood”, “Acid Fly”) e os lançamentos do Different Drummer (Noiseshaper, G-Corp, Overproof Sound System, International Observer).
))) O Sofa Surfers surgiu em Viena na cola do Kruder & Dorfmeister, duo austríaco que ganhou fama por seus remixes altamente chapados que de certa forma eternizaram o rótulo donwtempo – batida eletrônica preguiçosa de vibe esfumaçada, porém menos dark que o trip hop por incorporar tintas de world music. Rapidamente, o quarteto formado por Wolfgang Schlögl, Markus Kienzl, Wolfgang Frisch e Michael Holzgruber mostrou que suas influências, fora o dub e o trip hop, eram bem diferentes das do K&D, e abraçaram um som mais orgânico e experimental. Os anos se passaram e o Sofa Surfers não surfa mais no sofá. Sua onda agora é outra: post-rock. Mas o trabalho anterior, "See the Light", de 2004, é ótimo. Principalmente pelos sons ragga/dancehall à la Stereotyp e Al-Haca. Vamos de “Passin ´Tru” e seus violoncelos sinistros. Lucas Santtana bate palmas.
))) Ao notar que seu som cairia como uma luva no catálogo do Eighteen Street Lounge, o argentino Federico Aubele, estudante de violão e DJ ocasional, enviou uma demo para Eric Hilton e Rob Garza, donos do label e membros do Thievery Corporation. A resposta chegou de bate-pronto. Indicava precisamente como gravar e mandar o material para ser pós-produzido nos estúdios da ESL. Por isso mesmo, a impressão que se tem de "Gran Hotel Buenos Aires" é a de ser um disco latino do Thievery Corporation: beats low-fi, melancolia cool, vocais lânguidos em espanhol, violão acústico flamenco, bandaneón e linhas de baixo gordas provenientes da Jamaica. Nada original, mas muito interessante, principalmente “Ante tus Ojos”, “Despertar”, “Diario de Viaje” e “El Amor de este pueblo” (com direito a discurso de Evita Perón), belos exemplos do dub portenho.
))) Brand New Heavies, Us3, Jazzmatazz, Buckshot LeFonque (projeto do saxofonista Brandford Marsalis), Digable Planets e o Brooklyn Funk Essentials faziam muito sucesso nos anos 90 com seu misto de funk, hip-hop e jazz para as massas – o chamado acid-jazz. Só que Brooklin Funk Essentials se diferenciava dos demais por ter uma forte influência da música jamaicana. Brooklyn, né? Seu maior sucesso, “The creator has a master plan”, uma versão do hino pacifista do Pharaoh Sanders, tem um toast raggamuffin ótimo. Mas é “Dilly Dally”, visão poética de um jamaicano recém chegado a Big Apple que merece todos os louros. O som, de 1994, fez bonito nas principais coletâneas de dub européias, inclusive botando no chinelo muito artista especializado no gênero.
))) Na Hi-Fi #2, selecionei um som do Root 70, banda que toca as músicas do Burnt Friedman e do Flanger (projeto do mesmo Friedman com Atom Heart, do Señor Coconut) numa pegada mais jazzy que o comum. Aliás, projeto é o que não falta ao alemão Friedman. Destaco dois: seus discos de dub progressivo com o baterista da lendária banda de kraut-rock Can, e sua participação à frente do Nu Dub Players, parceria que rendeu "Just Landed", de 00, e a obra-prima "Can´t Cool", de 03. Quem acompanha a Hi-Fi e o meu blog sabe da minha paixão pelos sons germânicos, sempre originais e difíceis de rotular – o que é sensacional. Veja essa “Life is worth dying for”, por exemplo, música que conta com os vocais do também alemão Patrice. Mesmo que a entrada pareça Augustus Pablo, “Life...” é totalmente diferente de tudo que eu já tenha ouvido. Até porque, antes de ouvi-la, nunca imaginei que pudessem fazer um som com bateria estranha, (quase) sem grave e que ainda soasse reggae. Post-reggae?
))) Em 2003, Paul St. Hilaire, natural da República Dominicana, baseado na Alemanha, perdeu uma disputa legal pela posse do nome artístico Tikiman e passou a usar seu nome de batismo. Logo em seguida, no mesmo ano, abriu o selo False Tuned, e lançou seu primeiro trabalho-solo como cantor e produtor, "Unspecified", disco que mantém a atmosfera de Moritz Von Oswald e Mark Ernestus (Basic Channel/Rhythm and Sound), duo que fez sua fama nos anos 90. Já em "ADSOM – A Divine State Of Mind", da onde foi extraída a faixa “Little Song”, a pegada é um pouquinho mais caribenha – sinal de que Hilaire está em busca de uma identidade própria – mas sem abandonar em definitivo a influência alemã. Não há como se aprofundar no dub moderno sem ouvir Tikiman/Hilaire. Sua voz, misto de Horace Andy e Bim Sherman, tá em tudo quanto é música: dos já citados Rhythm and Sound, passando por Stereotyp, The Bug, Tarwater, Modeselektor, Beat Pharmacy, Markus Kienzl e muitos outros.
))) Ainda que alunos da escola alemã, os dinamarqueses Pharfar e Turbotito, do Djosos Krost (Jesus Cristo?), realizaram um dos trabalhos mais interessantes do ano passado. "No sign of bad" funde house, electro, downtempo e dancehall ao dub com maestria. Como não consegui escolher uma música do Djosos apenas, fato inédito na Hi-Fi, selecionei dois sons com o jamaicano Jah Bobby no vocal. “Creation” versa sobre a criação do mundo sob base Rhythm and Sound que depois se transforma num tech-house de grave sinuoso. Irresistível. Já na electro-dub “Chapter one”, Jah Bobby conta um pedaço da história da Jamaica, mencionando os nativos Arawaks que nomearam o país (Xamayca), o descobrimento da ilha por Cristóvão Colombo em 1494, a chegada dos navios ingleses em 1655 e a guerra com os espanhóis que foram expulsos da ilha anos depois. Dub é cultura. Quem merece uma citação na coluna é Tuco, cantor que manda muito bem em três canções de "No sign of bad", especialmente na dubhouse “Better Place”. Já conhecia o vocal melódico de Tuco do excelente selo dinamarquês Crucial Sounds. “Feelin Irie”, produção do Pharfar, é marca registrada dos meus sets. Pra terminar, já que estou falando do Crucial Sounds, o Yellow P adora tocar “Light it up”, do Don Wayne, versão poderosa do sueco Martin:ez para o Zion Gate riddim. Um dos hinos do Java.
Rewind.
Jamaica Hi-Fi é um programa produzido por Chico Dub, DJ residente da balada carioca de mesmo nome. A Radiola Urbana passa a hospedar sua coluna radiofônica a partir da quarta edição. Para ouvir as anteriores, clique aqui. Acesse também o blog do cara clicando aqui.
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