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Por Ramiro Zwetsch Fotos: divulgação
É como um projetor de slides confuso: instiga paisagens, constrói cenários, sugere roteiros, intercala cenas urbanas e apocalípticas, singelas e agressivas, surreais e documentais. As imagens são embaralhadas e não fazem distinção de gênero – da crônica policial à comédia romântica, do clima de cabaré à atmosfera fantástica, da sacanagem pornô aos ambientes orientais . Tudo bem editado. Sempre em enquadramentos originais. Nada de excessos para tapar buraco. Nunca desfocado.
A rima cinematográfica de Black Alien presenteia o rap brasileiro com o melhor disco de 2004, pelo menos por enquanto, na categoria “música contemporânea”. “Babylon By Gus” registra finalmente toda versatilidade vocal do sujeito com embalagem sonora à altura do potencial de sua garganta. Empata em relevância com o também fundamental “Enxugando o Gelo”, de B-Negão, do ano passado. Os dois rimadores da banda roqueira Planet Hemp, cada um a seu modo, tiveram a manha de misturar tudo que é boa referência em uma sonoridade autoral para emoldurar versos instigantes.
Musicalmente, a influência jamaicana salta aos ouvidos nas primeiras audições: está na cadência vocal estilo ragga, no trocadilho do título do disco – um derivado de “Babylon By Bus”, álbum ao vivo de Bob Marley & The Wailers – e na tradução da linguagem dub para finalização, confecção de texturas e tratamento de timbres. O aroma da fumaça de referências da ilha impregna as doze faixas direta ou indiretamente.
Mas o parágrafo acima passa longe de resumir o conceito sonoro do disco. Ecoam ainda uma disfarçada suavidade no estilo João Gilberto de sussurrar, harmonias jazzísticas na concepção dos arranjos, uma certa atitude herdada do punk rock, uma ou outra recaída para o jeito gangsta rap de produção e uma assumida inspiração na psicodelia funk da escola George Clinton. As letras também não economizam citações: Van Gogh, Miles Davis, Chico Buarque e Robert De Niro estão entre os personagens que aparecem nos versos de Gustavo Black Alien.
Apesar da vocação tarantinesca de mostrar identidade em meio a um mosaico de referências, ele diz preferir os cineastas Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. “Os dois filmes que eu mais gosto são 'Apocalypse Now’ (Coppola) e ‘Bons Companheiros’ (Scorsese). Gosto da visão italiana – ou ítalo-americana – para o cinema. Acho que a Itália é o país europeu mais parecido com o Brasil. Gosto de Fellini, Ettore Scolla, Nino Rota, Enio Morricone. Marlon Brando é o mais sinistro”, diz.
A Radiola Urbana não poderia deixar de levar um lero com essa figura. O papo deu no seguinte:
Seu primeiro disco guardava uma certa expectativa. Por quê demorou tanto para sair? Black Alien – O primeiro show que eu fiz foi em 23 de setembro de 1993. De lá para cá, foram exatos 11 anos até sair meu disco. Naquele momento, mudei de vida e decidi que queria fazer música. Conheci o falecido (rapper) Skunk, que me apresentou para o pessoal do Planet Hemp e do O Rappa. Fui convidado a escrever duas músicas para o Planet e quando Skunk morreu, foi substituído pelo B-Negão. Uns anos depois, o B-Negão montou o Funk Fuckers e o Marcelo (D2) me chamou para cantar com o Planet. Eu acompanhava a banda desde o começo, conhecia as letras. E como integrante de um grupo que vende disco de ouro e disco de platina, você paga suas contas tranqüilamente. Por isso o meu disco demorou tanto para sair – e também pela preguiça e pelo medo que dá. Mas meus amigos sempre me cobraram e também a molecada, de 12 anos, que chegava e falava: “você tem de gravar um disco para nós! Para nós”. Comecei a avaliar as propostas que sempre apareceram e eu sempre disse não. E o Rafael Ramos (diretor artístico da Deck Music e filho do dono da gravadora, João Augusto) apareceu com uma proposta interessante. E eu gostei do jeito que ele se aproximou.
Que jeito? Ele é o patrão, não é um intermediário e não ficou cagando regra aqui e ali. E foi humilde. Comecei a pesquisar produtores e a música que o (Alexandre) Basa produziu foi a que mais me pegou.
Por quê? A gente tem as mesmas influências – jazz, reggae, Santana, AC/DC. E é um cara que consegue me agüentar dentro do estúdio. O Basa me comoveu porque filtra todos instrumentos muito bem e gosta dos mesmos lugares que eu: Índia, Jamaica, Espanha... E é multiinstrumentista. Domina o mackintosh e o MPC, toca trumpete, baixo... Se eu precisasse chamar um saxofonista para tocar no disco, seriam dois caras para me aturar no estúdio. E somos amigos desde 1996. Tudo que ele me mostrou, eu adorei. E, diferente de mim, ele não bebe. Não é fácil olhar para a mesma cara 24 horas por dia. Primeiro, ele me pegou pelo talento. Depois, pela personalidade zen.
De onde vem a inspiração para suas rimas? Papel e caneta são a minha vida. A rima aparece assim: observo tudo à minha volta e isso se mixa com o meu sentimental. Em uma caminhada de 100 metros vejo uma porta, um hidrante, uma casa rosa... A tudo isso eu somo minha indignação. Não consigo guardar muita coisa na cabeça e eu anoto. Antes eu sempre andava com uns guardanapos no bolso.
“Como Eu Te Quero” é uma música sobre o amor. Como foi escrever uma letra romântica? Sinistro! Já tinha tentado em 2000 mas ficou horrível. Fiquei com vergonha, era pedante. E as rimas que eu aprovei, nessa linha, descambavam para o pornográfico. Essa letra foi um parto de cesariana: pedi para as meninas saírem do estúdio, senão eu não conseguiria gravar. E eu nunca fui casado, não sei como é acordar abraçadinho. Essa letra é uma história de ficção.
Essa letra tem versos muito bons: “quero a vida sempre assim/ com você perto de mim/ ao som de Tom Jobim/ Miles Davis e seu trumpete/ Falo no seu ouvidinho e você se derrete/ e aos domingos/ ouvindo Charles Mingus/ Você diz vem em mim, Gus”. Como é esse negócio de rimar inglês com português? Tive aula de inglês muito novo, com cinco anos eu já falava inglês. E a música na minha juventude era do rádio, a música norte-americana. Ouvia Michael Jackson, George Benson. Faço as rimas pela sonoridade das palavras, faz parte do meu jeito de escrever.
Você gosta de cinema? Minha vida sempre foi ver filme, ler livro e ouvir música. Não viajo no verão: fico em casa com a namorada e um monte de filmes, ouvindo música e lendo livros. Isso é luxo para mim. Se eu pudesse, teria um museu em casa. Meus luxos são pequenos: não tenho pretensão de viajar de navio, comprar roupa... Luxo para mim é ter acesso à cultura. Sempre fui o último a ser escolhido no time de futebol...
De onde veio a idéia do nome do disco? Tenho um amigo especialista em Bob Marley e, desde os 14 anos, penso nesse cara pelo menos uma vez por dia. Ele sempre passa pela minha cabeça. Estava ouvindo “Babylon By Bus” e, como meu pai me chama de “Gus”, percebi que era só trocar o “b” pelo “g”. E veja bem: não é “Babylon By Black Alien”, é “Babylon By Gus”. É a babilônia segundo a visão de um moleque de Niterói – e é por isso a capa do disco tem uma foto minha ainda moleque.
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