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25/12/2008
4 X JAZZ 08

Por Alê Duarte

Jovens que usam a tradição para renovar um gênero. Veteranos que não se acomodam e botam pra quebrar com seus instrumentos. É assim que pode ser definido, a grosso modo, o que de melhor foi lançado dentro do jazz em 2008. Dois saxofonistas das antigas, dois pianistas relativamente novos. Os senhores do sopro foram Peter Brötzmann e Anthony Braxton, que se uniram à músicos tão inquietos quanto eles para gravarem discos ousados. Os das teclas são o já mais do que consagrado Brad Mehldau e Aaaron Parks. O primeiro ainda insiste no que faz de melhor: colocar seu estilo em canções pop e imprimir uma marca classuda ao jazz em suas próprias composições. O segundo chega com inovação suficiente para sua música merecer o termo "pós-jazz".

Aaron Parks, "Invisible Cinema"
O pianista botou pra quebrar nesse álbum surpreendente. Ao lado de um guitarrista, um baixista e um baterista, Aaron Parks trouxe uma renovação e uma modernidade que há muito tempo não se ouvia no gênero. Ele mostra que o jazz não tem nada de chato, como alguns mais preconceituosos costumam tachar, e traz 10 canções que conseguem confundir e levar a música a limites desafiadores – algo como se as melhores bandas de pós-rock decidissem tocar jazz. O pianista não apela para fórmulas convencionais ao mesmo tempo em que não usa truques para modernizar a sua música. O que ele faz é extremamente lírico, climático e ainda assim virtuoso na tradição dos melhores pianistas da história do jazz. Esse é apenas o terceiro disco desse músico que mostrou um caminho diferente para um estilo musical que muitas vezes, para não se repetir, precisa se misturar a outros, mas nem sempre com um resultado tão feliz quanto em "Invisible Cinema".

Brad Mehldau, "Live"
Não há nada de diferente nesse disco duplo do pianista Brad Mehldau do que há na maioria de seus discos anteriores gravados em trio. Está tudo ali: as versões surpreendentes de músicas pop, as suas próprias composições com uma forte influência erudita e um virtuosismo impecável, e a dose de emoção que só ele consegue imprimir diante de um piano e ao vivo. Mas já é o suficiente para deixá-lo ao lado dos melhores do ano. Aqui, ele toca versões de Oasis (“Wonderwall”), transforma uma canção do Soundgarden (“Black Hole Sun”) em um épico de mais de 20 minutos, e faz até uma homenagem ao Brasil com uma linda interpretação de “O Que Será”, de Chico Buarque. Claro, ele não se esquece dos mestres do jazz, e abre espaço para “Countdown” de John Coltrane. Misturado a tudo isso, estão ainda cinco composições próprias, que ficam gigantescas com a química entre o músico e seus companheiros de palco – os excelentes Jeff Ballard (bateria) e Larry Grenadier (baixo).

Peter Brötzmann, "Born Broke"
Quem viu o tiozinho alemão soprando seus saxofones em uma apresentação no começo do ano por aqui em Sampa, sabe o quanto ele pode fazer barulho. Nesse disco, ele aparece acompanhado apenas de um baterista, o sueco Peeter Uuskyla. A química entre os dois funciona perfeitamente e de maneira intuitiva nesse disco duplo com apenas quatro faixas de improvisação livre. Brötzmann é, possivelmente, o maior representante europeu do free jazz desde que gravou, no final dos anos 60, o poderoso "Machine Gun". Em “Born Broke”, ele reveza momentos que são puro ataque sonoro, dissonantes e atonais, com um lirismo que nasce em meio ao caos. É assim que ele mostra um lado espiritual que nem sempre está à vista, e presta uma homenagem aomúsico do qual é grande seguidor, Albert Ayler. Assim, ele consegue explorar todos os seus lados e mostra que apenas dois instrumentos tocados por dois grandes músicos podem fazer um grande álbum.

Anthony Braxton, "Beyond Quantum"
Braxton é o mais virtuoso, técnico e desafiador músico que surgiu na famosa AACM (o centro de músicos que deu origem ao Art Ensemble of Chicago, entre outros) nos anos 60. Seu segundo disco, "For Alto", é um marco do improviso livre, à altura de um "Koln Concert", de Keith Jarrett. Aqui, ele forma o trio de sonhos de qualquer amante do free jazz. Com Milford Graves na bateria e William Parker no baixo, ele mostra que está com todo o gás e não perdeu nada da ousadia e do virtuosismo que sempre marcaram a sua carreira. Em cinco improvisações, eles se entendem perfeitamente e conseguem passar por diferentes fases do jazz avant-garde, sem soarem chatos ou cansativos, tamanha a variedade de texturas que o trio alcança com seus instrumentos. Como se não bastesse o time de craques, o disco traz o baixista Bill Laswell operando a máquina de produção e saiu pela Tzadk, gravadora do genial saxofonista John Zorn.










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