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20/01/2009
Quando Miguel de Deus fez história

Por DJ Paulão*

Em meados dos anos 1970, surgiu um grande movimento de promoção da música negra norte-americana e de desenvolvimento de uma soul music tipicamente brasileira. Esse movimento era capitaneado pelas gravadoras, em particular pela WEA, CBS e Phonogram, que percebiam na música negra um filão comercial a ser explorado. Seu nome surgiu antes mesmo de explodir: Black Rio. Essa impressão veio de um fenômeno que, guardadas as diferenças, continua vivo e forte até hoje: a proliferação de bailes na periferia, cujo carro-chefe era o soul, trazendo milhares de jovens aos salões de clubes nos finais de semana.

O movimento Black Rio tinha nomes como Tony Bizarro (da dupla Tony e Frankye), Gerson Combo (antes Gerson Cortes, agora “King”) e Cassiano, vindos do boom soul do começo dos anos 70, mesclados a nomes como Lady Zu e Carlos Dafé, além de bandas como União Black, de Rui Combo, e Banda Black Rio, de Oberdan Magalhães. Uma das características do movimento, ao contrário do que se via no funk norte-americano, era a sua despolitização. “O que os blacks querem é dançar e curtir muito soul”, dizia Gerson King Combo em seus “Mandamentos black”.

E dentro desse molho estava Miguel de Deus, um baiano que, recém-chegado da Argentina, fez um dos discos mais cultuados do movimento, o eletrizante "Black Soul Brothers". Miguel apareceu na cena junto com Os Brazões, conjunto formado no final dos anos 60 para acompanhar a trupe tropicalista, em especial as turnês de Tom Zé e Gal Costa. Nessa época, a banda lançou seu único disco (há rumores sobre a trilha sonora de uma chanchada, mas que não foi lançada), com interpretações de Tom Zé, Jorge Ben, Toquinho, Gil e outros. Em 1973, Miguelvoltou com seu "Assim Assado", que segundo o próprio, era mais um caça-níquel em torno da explosão dos Secos & Molhados naquele ano. Logo depois, embarcou para a Argentina – reza a lenda que foi passar três dias e ficou três anos. Na volta deu de cara com uma cena black fortíssima, os bailes levando milhares aos salões todo fim de semana e as gravadoras procurando artistas com influência soul.

"Black Soul Brothers" nasceu em São Paulo a partir da reunião de um cast violento por parte do selo Underground. Entre os artistas convocados brilhavam Willie Werdaguer e Dirceu Batera; o trumpetista José Roberto Branco, que assinou os arranjos, e Paulo Rocco e o hitmaker Mister Sam, responsáveis pela produção. É importante também ressaltar a presença de um dançarino, que participou na faixa “Mister Funk” e que é história viva da cultura black dos anos 70 pra cá: Nelson Triunfo. De resto, o disco é uma mistura de letras malucas, atitude black e um acompanhamento musical impecável – elementos que caminham juntos ao longo das oito faixas. Frases como “Fazem cinco anos que você saiu de casa, e eu não sei se você está vivo” (“Cinco anos”) ou “Flaca louca, me fez esperar na matinê” (“Flaca louca”) são cantadas em um estilo malandro, despojado. A faixa-título do LP, um funk uptempo com referências disco, hoje é uma das preferidas dos b-boys mundo afora.

Clemente Miguel de Deus foi da bossa nova pro tropicalismo, pra vanguarda teatral, pra black music, pra MPB, pro frevo, pro pagode. Tentou propor um movimento de valorização dos músicos sem gravadora nos anos 80 por meio de shows em bares. Experimentou o ostracismo, agravado por problemas de saúde. Deixou-nos em julho de 2008, justamente no mês em que ele e os Black Soul Brothers foram homenageados com um show-tributo, que originalmente contaria com sua participação. O disco foi executado na íntegra pela banda Soul na Goela, de Campinas. No palco, só faltava um...

>> PARA ENTENDER MAIS
:: Leia:

"Nada será como antes – MPB nos anos 70", de Ana Maria Bahiana
Livro escrito no calor dos anos 70 junta matérias lançadas na década na grande imprensa, feito por uma jornalista competente e bem-informada. Em “Enlatando Black Rio”, ela faz uma análise nua e precisa dos fatos, somada às histórias de bastidores – quem sabia que a Banda Black Rio era pra ser a banda de Luiz Melodia à época do seu LP "Maravilha Contemporâneas"? Pra ler enquanto o avião atrasa.

:: Ouça:
"Maria Fumaça", da Banda Black Rio
Principal disco do movimento e um dos melhores discos dos anos 70 no Brasil, mistura JB’s, Edu Lobo e gafieira na procura do soul brasileiro. A gravação é capitaneada pelo grande saxofonista Oberdan Magalhães (pai do atual líder da banda) e conta com nomes do quilate de Cristóvão Bastos, Jamil Joanes e Cláudio Stevenson. Discoteca básica!

"Gerson “King” Combo", de Gerson “King” Combo
Gerson Combo, no caldeirão da Black Rio, era quem tinha mais influência do que era feito nos Estados Unidos. Alguns anos antes, fora dançarino do James Brown nos EUA, onde fez o curso completo. Voltou pra ser um dos maiores nomes do movimento, e está na ativa até hoje, com sua luxuosa capa de lantejoulas.

* DJ Paulão tem a idade de Cristo, apesar de não ter Sua Paciência. Gosta tanto de mulher que tem uma. E cuida. Acha que o disco e o livro tem o mesmo valor documental, só não tem o mesmo reconhecimento. Sempre fala com cachorros, mas nem sempre com pessoas. Foi radialista por 15 anos, é DJ há 13, cientista político há 10, casado há 9, produtor há 7, morando em São Paulo há 2, e pai há menos de um... Sempre pensou, leu, debateu e escreveu sobre música. Dos debates sobre música brasileira nas universidades paulistas até a colaboração na exposição sobre o Tropicalismo que correu o mundo todo, ficou o vício, a necessidade de expressar suas ideias.

** A coluna Hérnia de Discos também é publicada no site Gafieiras










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