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Por Filipe e Guilherme Luna
Em ano em que o primeiro presidente norte-americano negro foi eleito e que marcou quarenta anos da morte do Reverendo Martin Luther King, a trilha sonora mais adequada não poderia ser outra que não a soul music. Os ecos de 68 espalharam-se até este lado do hemisfério com a Radiola Urbana e seus correligionários apoiando o movimento e trazendo o talco para pista em sete edições da festa Talco Bells. Dois discos, em especial, ressuscitaram o estilo com todo o louvor merecido: "Roll with you", disco de estréia de Eli "Paperboy" Reed and The True Lovers, e "The Way I See It", este composto, produzido, arranjado e em grande parte executado inteiramente por Raphael Saadiq.
"The Way I See It", Raphael Saadiq O Sr. Saadiq, apesar de desconhecido do grande público, tem na sua ficha corrida produções com Joss Stone, John Legend, Mary J. Blige e, até mesmo, com ele, Lionel "All Night Long, My Endless Love" Ritchie – de onde tirou algumas valiosas lições e, ao que parece, felizmente desconsiderou outras, como testemunha o bom gosto das suas composições. Elas são curtas, bem produzidas, com refrães potencialmente pop e bases ora mais aceleradas, ora mais lentas. Parecem psicografadas de algum espírito errante da Motown, talvez Norman Whitfield?, quem sabe, quem sabe. Os destaques ficam para “Big Easy” – que tem um batida bem marcada, lembra as produções de Mark Ronson e os Dap-Kings e que já debutou com estilo nas pistas da Talco Bells – e para “Staying in Love”, que tem os melhores arranjos vocais desde....hum....o último disco do Al Green. Enfim estas são as duas mais fortes candidatas a hit, ainda que o disco inteiro seja irrepreensível, devendo registrar-se ainda menções mais que honrosas à “Just One kiss” (com participação de Joss Stone); “Oh Girl” e “Never Give You Up”.
"Roll With You", Eli "Paperboy" Reed and The True Lovers “The Way I See It” poderia ter sido muito bem lançado em 1968, no entanto, mas há rumores de que “Roll with You” do jornaleiro Eli e dos Amantes Verdadeiros é um relançamento. Todos os méritos vão para a banda que reconstituiu com fidelidade a música e o espírito, com o perdão do trocadilho, da soul music sessentista, especialmente com enfoque nos grandes “crooners” da época, o que rendeu ao Eli comparações (ainda que injustas) a Sam Cooke e Otis Redding. Obviamente é um sacrilégio compará-los, em pé de igualdade, com os dois mitos do gênero e da música norte-americana mas, mesmo assim, o jovem Eli parece ter sido batizado em alguma Igreja Batista de Memphis, com a benção do espírito de Otis, e os True Lovers catequizados por Booker T and the MG´s no Capitol Theatre. Quem disse que homens brancos não conseguem cantar soul? Pois é, bastam duas músicas para afastar qualquer dúvida a respeito da capacidade vocal de Paperboy. Apesar da evidente influência do som da Stax, as canções flertam com o funk e, algumas vezes, com o rock, mas não se iludam com os solos de guitarra (“Stake your Claim” e “I´m Gonna Getcha”) ou com a batida frenética (“Doin´The Boom Boom" e "The Satisfier”) de algumas músicas, o disco é puramente soul. “Take my love with you” é discutivelmente a melhor canção do disco, embora as que mais se destaquem sejam as baladas (“Am I Wasting My Time”, “It’s Easier” e “Am I Just Fooling Myself”) – daí as comparações a Cooke e Redding – muito bem arranjadas pelos True Lovers, com solos melodiosos e oportunos (como o de sax em “Am I Wasting My Time”) em harmonia com o vocal.
"Lay It Down", Al Green E o que é mais curioso neste ressurgimento da soul music em tempos de Barack Obama é que os “novatos”, caso de Eli e Saadiq, fundaram sua música com solidez na estrutura do gênero como ele era nos anos 60, enquanto veteranos como Al Green se arriscaram mais em novos timbres e parcerias inesperadas. Pois é do reverendo a honra de assinar o melhor trabalho de soul do ano e quiçá o melhor álbum do ano e ponto final – embora o frenético autismo bipolar de Lil Wayne em "Tha Carter III" tente fazer frente ao mestre. "Lay it down", produzido por Ahmir Questlove, baterista do Roots, é de fazer chorar – e olhe que o dia nem amanheceu para a quarta-feira chegar. O homem da voz mais sedutora, romântica e charmosa – e que ajudou casais a superpopular o planeta mais até do que Barry White – provou que a idade não é empecilho para a força da natureza. E se sua garganta não é mais o trovão que era nos anos 70, o reverendo aprendeu a ser sutil e a pregar suas canções de amor com variações e arranjos vocais que preenchem o espectro sonoro com camadas sobre camadas. Ele não precisa de coro, ele é o coro inteiro. O tom sobre tom vocal do reverendo realiza proezas como “Just for me” e “No one like you” – que disputam as honrarias de melhores do disco. O que na verdade é uma competição sem sentido porque o disco é daqueles que ficam no repeteco sem parar. Mérito em grande parte do restante do staff do disco e principalmente de Questlove. O baterista do Roots soube equilibrar o som para destacar Al Green ao máximo. Em nenhum momento ele tenta ofuscar o veterano e se esmera em preparar o melhor apoio possível para a voz. E que voz! Nenhum dos participantes, todos feras da nova soul music como John Legend, Anthony Hamilton e Corinne Bailey Rae, consegue fazer frente ao Sr. Green. Todos se esforçam para acompanhar as cordas vocais que o tempo não prejudicou.
"Jim", Jamie Lidell E por falar na nova safra de cantores de soul, é uma satisfação perceber como um deles simplesmente apareceu do nada. Até 2005, Jamie Lidell limitava suas aventuras musicais a experimentações com música eletrônica. Até que, de repente, ele descobriu que cantava tão bem fora do chuveiro como dentro. Daí saiu o amálgama de referências de música negra chamado "Multiply" – que agora ganha um sucessor. "Jim" solidifica Lidell como um talentoso cantor de soul. “Another day”, a abertura do disco, exibe de cara que aqui não há lugar para as experimentações que faziam o anterior se arriscar por todo lugar. Este álbum é mais focado e o músico parece completamente confortável no seu novo papel de vocalista. É só escutar baladas como “All I wanna do” ou músicas com clima de Motown como “Where D’You go?”. Para felicidade dos fãs de música negra e alegria dos freqüentadores da Talco Bells, a produção de música soul deste ano não para nesses quatro discos. Outros álbuns, se não tiveram o conjunto da obra para entrar nessa modesta lista, agraciaram nossos ouvidos com singles que empurraram um pouco mais para o lado as fronteiras da soul music – a começar pela talentosa irmãzinha mais nova de Beyoncé, Solange Knowles. “I decided” é o grudento destaque de "Sol-angel and the Hadley St. Dreams", segundo disco da carreira da garota, que traz uma sonoridade bem diferente da irmã mais velha e plantada nos anos 60. A inglesa Estelle dividiu com Kanye West a suingada “American boy” – que dominou o verão europeu. John Legend foi abençoado com a mágica de André 3000 (do Outkast, claro) em “Green light”, melhor música de seu irregular terceiro disco, "Evolver". Poderíamos até incluir “Comfortable”, parceria louvável de Babyface com Lil Wayne – mas talvez ficasse muito na cara a intenção de incluir o Waynezinho de qualquer maneira na lista de melhores do ano alheia.
* E quando o assunto é soul, a Radiola Urbana não pode deixar de vender seu peixe e divulgar a festa Talco Bells, inteiramente dedicada à música da alma. A primeira edição de 2009 acontecerá na sexta-feira 13 de fevereiro e é só clicar aqui para saber mais. Vá!
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