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20/03/2009
Quanto vale o show?

Por Alê Duarte

Politicamente a atitude não tem precedentes na história da música pop. A banda considerada "a banda" em termos criativos – levando-se em consideração o alcance de público, comercial e de influência – da atualidade, mandou um foda-se bem dado não só para a industria musical, mas para a forma de comercializar a música e a relação dos criadores com seus fãs. A boa arte é subversiva por natureza, mas não são muitos que marcam época. O Radiohead lançou "In Rainbows" e deixou a pergunta para seu público responder: minha música é algo que marcou o começo do seu namoro? Ou o nascimento do seu primeiro filho? O que tocava em algum momento importante da sua vida? Qual a trilha sonora que marca as suas emoções? E, acima de tudo, quanto você pagaria por isso, ou pelo menos pela sonoridade que foi ou será o fundo de determinada cena? A questão está além da relação econômica e do ato político, ela é acima de tudo filosófica.

Para quem não sabe ou estava naquelas terras gélidas que o Radiohead criou em discos como "Kid A" e "Amnesiac", é preciso explicar. A banda liderada por Thom Yorke não renovou seu contrato com a Capitol, subsidiada pela gigante EMI, para o lançamento de seu mais novo disco. Cogitou-se que eles lançariam o trabalho pela gravadora da Starbucks, que já conta com Paul McCartney e a brasileirinha Céu em seu elenco. Depois a coisa não decolou. O resultado: todos erraram, a banda acertou. Acertou ao assinar o contrato de total independência de meios de gravação e distribuição. Os músicos decidiram gravar o disco sozinhos e disponibilizá-lo em seu site para download. Até aí nenhuma novidade, muita gente já faz isso há algum tempo. Porém, ao fazer a perguntinha "Quer pagar quanto?", eles desestruturaram não apenas as gravadoras e produtores e comerciantes de discos, mas acima de tudo os consumidores. É o comprador que dá o preço ao produto, baixa em seu MP3 player e escuta como bem entender. Também pode fazer cópia pros amigos, distribuir de brinde de final do ano, fazer sorteio, ou seja, as opções são infinitas. Mas acima de tudo, eles mexeram com as emoções de seus fãs, que em sua maioria pagou pela música em valores variados.

Tirando toda a análise filosófico-político-comercial fica a questão: e o disco? "In Rainbows" é, fácil, um dos grandes discos do Radiohead e um dos melhores do ano. Abre com "15 Step", um rock robótico cheio de batidas minimalistas, mas sem aquela frieza de canções atmosféricas que estão em outros discos. A guitarra que acompanha a música é quase jazzística, mas ainda assim bem simples. Na seqüência, "Bodysnatchers" anuncia-se como a mais pesada e roqueira do disco, com guitarras em diferentes texturas e um ritmo mais pesado, que vai num crescendo até explodir no final. Parece até que a atitude agressiva da banda deixou seu som mais brutal. Errado. Logo em seguida, toda a sutileza de "Nudes" -- uma das mais bonitas canções do grupo -- desvenda arranjos polares que se tornam ternos logo de cara, quando uma voz sintética parecendo o vento atravessa a porta dos ouvidos. Thom Yorke canta suavemente uma melodia melancólica e climática. Como já se via em "Hail To The Thief", a banda voltou a flertar com as canções. Claro que, em se tratando de Radiohead, isso nunca é convencional. Mas aqui a fórmula entre o experimentalismo climático de outros tempos e a quase volta à base do álbum anterior encontra o equilíbrio exato, capaz de emocionar sem se entregar ao previsível ou à pieguice. Isso pode ser percebido em músicas como "All I Need" e "House of Cards", em que prevalece a velha veia para criar uma beleza quase obscura.

Ainda assim, nada soa repetitivo, cada canção é única e segue uma linha de regularidade que não deixa nada no álbum, com menos de 45 minutos de duração, cansativo. Ninguém soa como o Radiohead e ninguém tem tanta atitude quanto eles hoje em dia. Além da versão para download, ainda existe uma mais luxuosa com dois cds, dois vinis (incluindo sete faixas bônus) e ainda um livreto, tudo pelo preço de 40 libras. A banda impõe a sua nova filosofia, inaugura uma escola onde o caro e o barato convivem juntos e o único intermediário entre artista e o consumidor é o valor da música: se você a ouve e gosta, algo ela a vale. Certo?










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