BUSCA NO SITE  
 
Safári Estereofônico, vol. 3
Os ecos do afrobeat de Fela Kuti: sintonize Safári Estereofônico, vol. 3!

Safári Estereofônico, vol. 1
Ouça a primeira edição do Sáfari Esterofônico, nosso novo programa com achados e perdidos da música africana! Tema da estreia: a influência de James Brown no afrobeat!


NEWSLETTER  
email:
Para receber nossa newsletter via e-mail, coloque seu e-mail, e clique em CADASTRAR.








30/06/2009
Dia de colheita

Por Gustavo Garcia*

O público já estava devidamente amaciado pelas competentes apresentações de Pretenders, Seasick Steve, Ben Harper e Fleet Foxes quando é chegado o momento de Neil Young fazer do Hyde Park o altar de sua cerimônia pessoal, no sábado (27/06), no festival Hard Rock Calling. De fato, quando o músico canadense entra no palco, a história muda de figura – a começar pelo volume, claramente mais alto do que nas apresentações anteriores já nos primeiros acordes de “Hey Hey My My”. A Old Black de Young (uma Gibson preta que o acompanha desde sempre) emite o estrondoso e inconfundível riff da música. O público responde com alvoroço, dando início a um duelo entre a guitarra do músico e a voz da plateia, em um prenúncio do que estava por vir nas próximas duas horas e culminaria num desfecho épico: a volta para o bis, com uma versão para “A Day In The Life”, dos Beatles, com a participação de um certo Paul McCartney.

De cara, se estabelece a tônica da apresentação: a voz da lenda e sua Old Black são soberanos; já a bateria de Chad Cromwell e o baixo de Rick Rosas se espremem por um sofrido (porém pertinente) destaque, enquanto à segunda guitarra de Ben Keith resta o consolo do anonimato. Não poderia ser mesmo muito diferente e os músicos de apoio estão plenamente conscientes de suas respectivas funções: criar o esqueleto das canções para que o cantor e guitarrista as molde como lhe convir. E é isso que Young faz magistralmente. Causa surpresa a energia com que o compositor – já com 63 anos – conduz a apresentação. Young castiga a violentas palhetadas a guitarra elétrica com uma disposição de fazer inveja a qualquer moleque de 21 anos. E com essa juventude de espírito o musico vai traçando as linhas da sua performance.

Passada a euforia de “Hey Hey My My”, Young dá à plateia a chance de respirar e absorver o impacto inicial da apresentação com a obscura “Mansion on the Hill”, para logo em seguida tomar novamente emprestada a voz uníssona do público em “Are you ready for the country?” e na clássica “Everybody knows this is nowhere”. Ao contrario do que muitos poderiam esperar, o show começa a tomar os contornos de um apanhado de grandes sucessos, tais como “Cinnamon girl” e “Fuckin up”. Ao novo e ecológico album “Fork in the road”, Young relega apenas “Get behind the wheel”. Seria essa turnê o derradeiro agradecimento e a despedida de Young dos palcos internacionais? Em se tratando de um ícone tão enigmático do rock, não seria surpresa.

Mas a benevolência de Neil Young tem limites e ele ainda faz questão de lembrar que é ele quem manda. O repertório de greatest hits é servido à moda da casa. As longas – e por vezes cansativas – improvisações em “Words (between the line of age)” e “Down by the river”, em que o guitarrista se diverte ao usar e abusar de diversos timbres e microfonias, são ingredientes indispensáveis da receita. É como se ele dissesse: “Ok, essa noite vocês vão ouvir o que querem, mas à minha maneira”. Esse é o modo Neil Young de fazer as coisas. “Se as pessoas me dizem o que fazer, não dá certo. Eu não vou ouvir. É simples assim”, explicou ele a uma publicação inglesa. E é desta forma que o artista cativa o público, que não tira o olho do palco. A atenção é absoluta, religiosa.

O show de sucessos de Neil Young passa longe do trivial. Sem cair no lugar comum, o artista ignora os célebres álbuns “On the beach”, “Tonight is the night” e “After the goldrush” – dos quais nenhuma música foi incluída no repertório – e surpreende com três faixas de “Ragged Glory”, disco lançado na iminência da explosão grunge e obscuro se comparado aos clássicos citados. Dentre elas, merece destaque a belíssima versão de “Mother Earth” que, com uma melodia que evoca um hino nacional, foi conduzida apenas por teclado, voz e gaita. Neil Young tem uma obra e sabe disso. Sua colheita é prolífica.

Quando o publico já se conformava com a ausência de “Don't let it bring you down”, “Cortez the killer” e outros clássicos da década de 70, Young mais uma vez mostra sua faceta benevolente: empunha o violão e dispara, nessa ordem, “The needle and the damage done”, “Comes a time”, “Unknown legend”, “Heart of gold” e “Old man”, cinco dos seus grandes sucessos. É justamente esse jogo com o imprevisível que faz com que a figura de Neil Young seja cativante e polêmica ao mesmo tempo. As apresentações do compositor, assim como muitos de seus discos, são um desafio ao público. Nunca se sabe o que esperar. É impossível ficar indiferente a uma obra tão repleta de antagonismos dos quais Young se valeu ao longo da carreira, colhendo frutos, desavenças e pagando o preço do ostracismo por sua ousadia. Sua postura lhe rendeu admiradores e críticos, e nessa noite Young faz um balanço de sua colheita. A reação do publico demonstra que, sem dúvida alguma, o saldo é positivo.

O peso e a importância do artista já se empunham soberanos diante do público, mas a noite ainda reservava algumas surpresas. “Keep on rocking in the free world” é o coringa da banda para o fechamento do set, que toma uma vez mais o Hyde Park de assalto. Como de costume, Young estende a canção por muitos minutos e, ao improvisar com seu baterista diversas retomadas do refrão quando a musica já parecia terminada, prega mais uma peça – mas ainda não a última.

Muito aplaudida, a banda se ausenta rapidamente para logo em seguida retornar ao palco para uma estonteante versão de “A Day in the Life”, dos Beatles (simplesmente a faixa que encerra um tal de “Sargent Peppers”). Após a catarse do interlúdio instrumental da canção, Young retoma os vocais, dessa vez acompanhado subitamente por uma figura que o abraça. O sujeito, junto com Neil Young, entoa os versos finais do clássico e quem estava nesta hora naquele parque tem a certeza de que estava no lugar certo. Era ninguém menos que Paul McCartney, que fora convocado enquanto assistia à apresentação ao lado do palco.

Finda a parte cantada, Young dispara um final apoteótico para a música, arrancando os últimos suspiros de sua Old Black. Mas foi demais para ela. A agressividade com que o músico toca é tamanha que nenhuma corda permanece intacta. Ainda assim, ele consegue fazer os captadores da sua companheira de longa data rosnarem por mais alguns segundos. McCartney, ao seu lado, inadvertidamente toma para si a função de porta-voz da audiência ao fazer gestos de reverência ao músico, que une as palmas das mãos para retribuir a calorosa aclamação do público e de seu colega inglês.

“É uma longa estrada, atrás de mim; há uma longa estrada adiante”, cantou Neil Young em “The Painter”, do disco “Prairie Wind”. Em 2009, talvez a estrada adiante não seja mais tão longa e nem haveria de ser. Ao longo de mais de 40 anos de carreira, Neil Young soube utilizar como poucos a gama de opções que a música popular oferece, explorando diversos gêneros e produzindo discos que o alçaram ao estrelato e o relegaram ao anonimato em um intervalo de poucos anos. O recente lançamento do primeiro volume dos seus “Archives” – que contém diversas raridades e versões alternativas de músicas dos seus 10 primeiros anos de carreira – representa uma espécie de “volta pra casa” de um músico que foi incansável na busca pela originalidade. Nesse caminho, Young arrebanhou devotos seguidores, entre eles McCartney, que não teve pudores em reverenciá-lo diante de um público de milhares de pessoas – o que, convenhamos, não é para qualquer um.

Repertório:

Hey Hey, My My (Into The Black)
Mansion On The Hill
Are You Ready For The Country?
Everybody Knows This Is Nowhere
Spirit Road
Words
Cinnamon Girl
Fuckin' Up
Mother Earth
The Needle And The Damage Done
Comes A Time
Unknown Legend
Heart Of Gold
Old Man
Down By The River
Get Behind The Wheel
Rockin' In The Free World
A Day In The Life

*Gustavo Garcia é músico e acaba de lançar o EP "Many Hiding Places". Ouça: http://www.myspace.com/biconan










Home | Ouça | Leia | Agenda | Assista | Navegue | Escreva
Lançamentos | Arca do Velho | Discoteca | Arquivo | Contato