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20/08/2009
Numa relax, numa tranquila, numa boa

Por Ramiro Zwetsch
Fotos: Zé Gabriel

A dica está no título: "Vagarosa", segundo disco da Céu, é para ser ouvido com calma, sem pressa. A afobação da grande mídia, no entanto, falou mais alto nos primeiros textos publicados sobre o trabalho e quem perde com isso é você, leitor. Não se deixe ludibriar: por mais que as 13 faixas transcorram "numa relax, numa tranquila, numa boa" ("Guiné Bissao, Moçambique, Angola", Tim Maia), o trabalho num tem absolutamente nada a ver com a fase racional do soulman brasileiro – como sugeriu a Ilustrada, na semana passada. E também num lhe caem bem os termos "electro" e "lounge", aplicados em texto publicado hoje no Caderno 2.

Então, vamos lá, pra simplificar: a cantora e compositora conduz suas músicas com o samba – e toda sorte de ritmos brasileiros – a levando por um braço, e o reggae – e seus derivados jamaicanos – pelo outro. Nesse passeio, outras referências aparecem mais discretamente para colorir o mosaico: a chansón sacaninha do francês Serge Gainsbourg, o jazz etíope e climático de Mulatu Astatke e a psicodelia funk e sexy da norte-americana Betty Davis. Dentro desse labirinto, Céu tem na própria personalidade uma bússola precisa: o jeito de cantar e compor, a produção desregrada (dividida entre ela, Beto Villares, Gustavo Lenza e Gui Amabis) e as boas companhias (Fernando Catatau, Curumin, Los Sebozos Postizos, Gigante Brazil, Luiz Melodia, Thalma de Freitas, Anelis Assumpção, Guizado, Siba, etc...) não a deixam perder o rumo da originalidade neste redemoinho de influências.

"Vagarosa" registra um notável amadurecimento em relação ao disco de estreia, "Céu" (de 2004), e garante à artista um lugar confortável entre os melhores de sua geração.

Lá se vão cinco anos desde o primeiro disco. Esse período entre um trabalho e outro foi necessário?
Foi necessário pra que eu pudesse divulgar legal o primeiro, tocando em vários lugares que só depois de muito tempo consegui ir (João Pessoa, Salvador, Porto Alegre), pra ter novas histórias pra escrever, pra cuidar da minha filha, enfim...

Este disco soa bem diferente em relação ao primeiro. Você também vê estas diferenças ou essa sensação é algo mais relacionado com a experiência do ouvinte do que do artista?
Sim e não. Pra mim, é difícil ter esse olhar fresco sobre o que fiz agora, pois ainda estou bastante envolvida. Mas acho que na primeira audição pode parecer muito diferente, mas depois que você se familiariza com as músicas, vê uma linearidade, uma continuidade.

O que mudou de um disco para o outro?
No primeiro disco eu estava tentando entender onde queria chegar com minha música, se era banda ou não, se era possível compor minhas proprias músicas, se eu iria conseguir levar isso adiante e se alguém iria se interessar quando o disco se formatasse. Tudo isso atribui características específicas ao primeiro álbum. No segundo, fui um pouco mais desencanada, deixei fluir bastante todas as ideias e sons, tomando mais risco mesmo. Eu queria trazer mais a tôna o amor que tenho pela música jamaicana, desde os reggaes e dubs até o niabingui, que já é um som mais roots mesmo, relacionado aos "spirituals". Quis também um som mais tocado, mais orgânico. Alguns discos eu estava (e estou) ouvindo muito e acho que eles foram bastante culpados... O do Melodia ("Pérola Negra"), o "Melody Nelson" do Gainsbourg, os infinitos Studio Ones, o "Caymmi e o Mar"... É louco pois, pra mim, todos têm muito a ver um com o outro.

O disco também ecoa algo do jazz etíope de Mulatu Astatke e do funk da Betty Davis (no caso específico de "Espaçonave"). São referências, realmente?
Pois é, o "ethio jazz" me deixou de queixo caído desde o dia que ouvi pela primeira vez a trilha do filme do Jim Jarmuch, "Broken Flowers"... Pensei: "como eu não conhecia isso antes?" Um som profundo, familiar, que me leva pra um lugar próximo aos nossos afrosambas, ao Moacir Santos, às melodias árabes... Foi amor à primeira audição e uma procura constante de vinis da música etíope do Mulatu e bandas com essas influências, como a Budos Band. Também A-M-O a Betty Davis e seu funk sujo, meio subversivo, pra mim ela é uma artista à frente de seu tempo. E, sim, ela é uma referência e eu quis mesmo flertar com a psicodelia do funk misturado com um tipo de niabingui brasuca em "Espaçonave". Ninguém melhor do que Fernando Catatau (que toca guitarra na faixa) pra incorporar isso.

Casamento, marido e filha parecem influências explícitas. O cotidiano é uma das principais inspirações?
Cara, o cotidiano é muito importante pra mim. Eu até volto pra sua primeira pergunta e até pro nome do disco pra tentar explicar um pouquinho isso.O que mais me inspira na vida é mesmo o dia-a-dia, é estar presente de verdade nas situações mais simples. No café que você toma com um amigo, na fralda que eu troco da minha filha, nos problemas e alegrias que surgem. Quando você viaja muito e fica "ensimesmada", só falando dos seus trampos, fazendo seu som, isso me tira a inspiração. Então "Vagarosa" também funciona nesse sentido, um pouco de leseira e preguiça não faz mal a ninguém. Caymmi é que estava certo!

O primeiro disco teve boa repercussão, você criou um público. Como acha que estas pessoas vão encarar o novo trabalho?
Olha, eu procuro não pensar muito nisso pois, se eu entro nessa preocupação, provavelmente não vou fazer o disco que quero, sabe? É difícil, claro que às vezes penso: "puxa será que alguém vai curtir? Será que estou viajando?" Mas música pra mim é algo pra se sentir e não pra pensar, é algo vivo, que agrega as coisas importantes pra quem a faz.

Desta vez, são quatro produtores com a mão na massa. Como funcionou isso? Todo mundo trampando junto em todas as músicas?
Começou mais eu e o Beto. Depois, quando fiquei de "liçença maternidade", ele acabou pegando muito trabalho e isso dificultou os horários dele no momento que eu retornei pra continuar o disco. Então entraram o Lenza e o Gui. Tenho profunda admiração pelo trabalho de cada um, meio que naturalmente. O Lenza já ia gravar mesmo, fazer a parte técnica, e o Gui já estava no estúdio trabalhando em outros projetos. Fiquei muito feliz de fazer a oito mãos!

Imagino que não faltaram chances para ser contratada por uma grande gravadora. Qual é a importância de trabalhar com um selo independente?
Olha, essa é uma pergunta delicada pois acredito que cada caso é diferente do outro. Mas eu vou tentar simplificar um pouco e falar do meu caso.Todo mundo está vendo que estamos num momento transitório na industria fonográfica. Acho que ser independente nessa hora me ajuda, pois é como se eu não ficasse, digamos, engessada a um antigo molde. E é um pouquinho como a diferença entre um objeto mais artesanal e um mais industrial, sabe? O tratamento dado à coisa. É o contato, a proximidade, a especialidade... Estar num selo independente é ver o cara que quer vender seu disco logo de manhã acordar e pensar o que ele ainda não fez pelo disco, o que está faltando pra divulgar e correr atrás.

As letras são curtas, poucos versos. Isso é algo que você procura ou simplesmente sai assim?
Sai assim! E olha que eu tinha achado que estavam maiores...

Como rolaram e o que representam as colaborações? Por exemplo, Luiz Melodia?
Eu estava com ele na cabeça já desde o primeiro disco. Fiz "Vira -lata" com a voz dele na cabeça... Fiz um show com ele há dois anos e essa foi a deixa pra que eu perdesse a vergonha de chamá-lo.

Gigante Brazil?
Esse era outro cara que eu queria trazer pro disco de qualquer maneira... Vi um show da Isca de Polícia (banda que acompanhava Itamar Assumpção) em 2006 e fiquei chocada com ele tocando e cantando. Bendita a hora que ele gravou, fico emocionada só de lembrar. Quem fez a ponte foi a Anelis (Assumpção).

Los Sebozos Postizos?
O disco que mais rola no meu i-pod é aquele dos Sebozos tocando no Sesc Pompéia que alguém (hehehe) rateou... E mais especificamente a música "Rosa, Menina Rosa", pois eu cantava o tempo todo pra minha filha... Eu amo esses meninos!

Fernando Catatau?
Essa gravação do Catatau aconteceu nos primórdios do disco, não tinha nada em "Espaçonave" ainda, só a conga chamando e a primeira parte da letra. Eu nem estava no estúdio, estava com barrigão e o Beto me liga em casa: "gravei o Fernando na Espaçonave!" Pronto, aí sim! Fiquei tão feliz que ele tinha curtido a música, que me empolguei e fiz o segundo verso em cima do solo dele. Essa música é um momento totalmente hippie, tipo: "não aguento esse concreto, preciso me recarregar, tomar um banho de sol, natureza!"

Anelis Assumpção?
A Ne é muito amiga e temos um milhão de projetos juntas, inclusive um com a Thalma que é o NegreskoSis. Três backings vocals, duas pretas e uma branca! Contei pra ela que havia feito um primeiro verso de uma música sobre "ir na Bubuia", que é uma expressão nordestina tipo "ir na borbulha", "ir leve como as borbulhas mesmo em ondas gigantescas". Acho ela uma grande artista.

Thalma de Freitas?
Essa é outra, grande cantora, uma das pessoas mais musicais que já conheci! Fora que também é minha amiga do coração.

Em julho, você fez uma turnê pelos EUA. Como foi a temporada? Gostou da reação do público às novas músicas?
A tour foi ótima. Não estava esperando muito pois fiquei parada de viagens por um tempo e achava que a coisa teria esfriado um pouco. Mas isso não rolou, os shows estavam lotados e as casas eram sensacionais... Umas bem mais rock, como a Roxy, em Los Angeles, outras mais tradicionais, como o Herbst Theater, em San Francisco. A recepção foi calorosa e o entusiasmo com a música nacional só aumenta!

Quando e onde rola o show oficial de lançamento do disco? Você pretende tocar o repertório novo inteiro? Terá participações? Versões?
O show começa oficialmente agora no dia 27 de Agosto, em Porto Alegre, e aí sigo em tour levando pra várias cidades até chegar aqui em Sampa, no comecinho de Outubro. Terá participações, sim, mas ainda não tenho como confirmar pois os convidados estão vendo as datas. Vai ter bastante música nova, algumas do disco anterior e uma versão ou outra que sempre rola – como "Takes Two to Tango", do Ray Charles.

Lançado o disco, como tem sido agora a adaptação dele para o palco e para a dinâmica de banda? Como funciona a participação do DJ Marco ao vivo?
Este disco, na verdade, está mais fácil de transpor pro palco pois está mais tocado, sem beats e tal. A maior dificuldade é trazer o som do melotron, um instrumento pesadíssimo, customizado e muito caro, inviável de pegar estrada. Mas aí eu tenho o auxilio extra-luxuoso do Marco, que dispara samples na MPC e na picape. O Marco é muito importante pois ele dispara sopros, vocais e ruídos atuando como um músico mesmo, um instrumentista.

*Clique aqui para ouvir programa de rádio sobre "Vagarosa" e "Sem Nostalgia" (de Lucas Santtana) e aqui para ver fotos dos shows que Céu e Lucas fizeram, na semana passada, dentro da comemoração de dez anos do projeto Prata da Casa.










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