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Por Ramiro Zwetsch
O pigarro do punk nunca desceu tão suave na garganta do mercado fonográfico como naquele disco. Lançado na Inglaterra em dezembro de 1979, tragava o aroma dos gêneros musicas mais populares das três últimas décadas (do rockabilly ao jazz, do reggae ao soul, do blues à música latina) sob o filtro do punk rock e assoprava uma fumaça sonora densa e irresistível. E apresentava a fórmula pop dos anos 80 – pena que a maioria esmagadora dos grupos daquela geração tenha maltratado tanto um modelo artístico tão promissor.
'‘London Calling'’, o álbum duplo e maior clássico do The Clash, foi tudo isso: fez o punk inglês recuperar o fôlego perdido com o desaparecimento precoce dos Sex Pistols, antecipou o new wave, apresentou estilos desprezados pela maior parte da juventude rebelde e, sobretudo, alçou o quarteto inglês – Mick Jones (guitarra e vocais), Joe Strummer (guitarra e vocais), Paul Simonon (baixo e vocais) e Topper Headon (bateria) – à condição de grande banda de seu tempo. Prestes a completar 25 anos, o disco volta ao centro da mira da imprensa especializada. A revista mensal londrina '‘Uncut'’ de setembro, por exemplo, dedicou matéria de capa com 18 páginas. A conterrânea '‘Mojo'’ oferece reportagem de 12 páginas.
A discussão puxa com ela o que mais interessa (material inédito) e o público inglês já tem à disposição um relançamento de luxo – além do CD remasterizado, um DVD com documentário sobre as gravações e um CD extra com valor especial: ‘'The Vanilla Tapes'’ oferece 16 versões demo de músicas do ‘'London Calling'’ e cinco faixas desconhecidas do público. Segundo a gravadora Sony, o material deve sair no Brasil em novembro.
'‘The Vanilla Tapes’' guarda uma daquelas histórias que garantem graça aos bastidores do rock. Esse material era dado como perdido até agosto passado. Mas Mick Jones, guitarrista e vocalista do Clash, encontrou as fitas em uma caixa de papelão quando mudava de casa. Até então, a versão oficial dava conta de que o roadie Johnny Green havia esquecido as únicas fitas em um vagão de metrô. Sua missão era simples: levar as fitas para o produtor de ‘'London Calling'’, Guy Stevens. Uma parada em um pub e muitas cervejas, porém, teriam feito Green dormir no trem, acordar apressado para a baldeação e deixar as fitas para trás.
Tanto a ‘'Uncut'’ como a ‘'Mojo'’ ainda se pautam por essa versão em suas reportagens. As fitas encontradas por Jones, portanto, devem ser cópias das originais. Ou a história do metrô não passa de lenda. Curiosamente, as duas revistas também abordam nos primeiros parágrafos de suas matérias uma crítica que Charles Shaar Murray – jornalista do semanário londrino ‘'NME’' – fez sobre o segundo álbum do Clash, ‘'Give ‘Em Enough Rope'’, de 1978. O artigo era duro e culminava com a observação de que o grupo devia “voltar urgentemente para a garagem”. Depois do lançamento de ‘'London Calling'’, o mesmo crítico mudou de idéia e decretou que o Clash era a banda mais importante de sua geração.
A síntese do álbum está na faixa-título – a primeira do repertório de 19 faixas: guitarras e bateria duras, linha de baixo escorregadia, sonoridade inclassificável. Entra o vocal e Joe Strummer disserta sobre uma Londres decadente, à beira do caos civil. A essência punk está na acidez da letra e no jeito agressivo de tocar mas, musicalmente, o Clash desobedece a cartilha dos três acordes e da velocidade desenfreada. A agressividade aparece em andamento cadenciado e arejada por harmonias mais elaboradas.
As 18 faixas seguintes contribuem para a expansão do punk rock. ‘'Brand New Cadillac'’ é rockabilly nervoso. ‘'Guns of Brixton'’ é um reggae perturbado por guitarras imundas. '‘Lost in Supermarket'’ trata versos ácidos em arranjo manso. E ‘'Train in Vain'’ encerra o disco com um tributo punk ao legado soul das gravadoras Stax e Motown.
No Brasil, o álbum também explodiu como bomba. “Quando ouvi, foi um chute no meu estômago. Desenhei a capa do disco em uma camisa rasgada e ia à faculdade todo rabiscado de ‘London Calling’”, diz Fred 04, líder do Mundo Livre S/A. Nasi, do Ira!, é igualmente devoto. “Foi o disco mais esperado da minha vida. Eu já era fã, li várias resenhas antes de o álbum ser lançado no Brasil e pressentia que seria meu disco preferido. Encomendei ao Museu do Disco e fiquei esperando de manhã a loja abrir. É o álbum que concede contornos artísticos ao punk: tem ares jazzy, de blues, do Caribe, de rockabilly... E a qualidade das letras? Jones e Strummer, para mim, são Lennon e McCartney do punk”, derrete-se.
* Texto publicado originalmente no Jornal da Tarde, em outubro de 2004
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