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Por Alê Duarte
"Radiance", Keith Jarrett, 2005 O melhor disco de jazz dessa década é "Radiance", de Keith Jarrett. Isto posto, é bom entender como o músico chegou lá. O pianista Keith Jarrett era um garoto prodígio. Começou a tocar aos três anos de idade e aos sete já dava recitais. Cresceu e nos anos 60 se destacou na banda do saxofonista Charles Lloyd. Tocou no marco do fusion "Bitches Brew" (de Miles Davis) e em outros discos do trompetista. Antes disso, em 1967, já tinha gravado seu primeiro disco, "Life Between The Exit Signs", num trio formado ao lado do baterista Paul Motian e do baixista Charles Haden.
Nos anos 70, atacou em frentes diferentes. Formou um quarteto americano (com a mesma formação de seu primeiro disco acrescida do sax de Dewey Redman) e um europeu (com Jan Gabarek no sax, Palle Danielsson no baixo e Jon Chirstensen na bateria) que gravaram discos fundamentais, explorando os sons do post-bop e avant garde como "Survivor’s Suite" e "My Song".
Mas foi antes disso, sozinho ao piano, que ele começou uma revolução. Seu primeiro disco nesse formato é "Facing You", de 1971. O resultado aperfeiçoado disso viria em 1975, com o que talvez seja o melhor disco de improviso livre solo da história do jazz, o clássico "The Köln Concert". Gravado ao vivo, dizem que no dia do concerto Keith não estava satisfeito com as teclas extremas do piano, o que o obrigou a usar somente as médias. A limitação espacial inspirou uma compensação criativa e o pianista concebeu uma obra-prima que mudou o rumo do instrumento e estabeleceu novos parâmetros para qualquer pianista que veio depois dele.
A partir daí, Keith alternou os trabalhos entre suas bandas e concertos como solista, tocando inclusive música clássica e formando um trio para tocar standards com Gary Peacock (baixo) e Jack DeJohnette (bateria). Entre esses concertos solos, depois de passar inclusive por uma doença que muitos acreditaram que o impediria de tocar, Keith tem em seu currículo uma obra que pode ser considerada uma espécie de extensão do "Köln Concert". Trata-se de "Radiance", que cobre dois concertos do músico no Japão, gravados em 2002 e lançado em um único disco duplo no ano de 2005.
As músicas não tem nome. O primeiro show foi gravado em Osaka e vai da parte 1 à 13. O segundo show foi gravado em Tokyo e vai da parte 14 à 17. Ao todo, são mais de duas horas de uma música que aborda todas as facetas que o instrumento pode revelar. Algumas partes são mais líricas, outras mais experimentais, outras caem para o lado de uma tradição que Keith sempre gostou de respeitar. Mas tudo forma uma unidade ao mesmo tempo complexa e de uma beleza reveladora, com detalhes que não se pega logo de cara. Pelas mãos do pianista e pelas teclas do piano, passa uma música que muitas vezes é inclassificável e única, e que só poderia sair da alma de um músico que também fosse assim. Um casamento perfeito entre técnica e emoção.
"Timeless", Fred Anderson, 2006 Fred Anderson completou 80 anos em 2009. Se pegarmos três de seus discos gravados nos últimos anos – "Timeless" (2006), "From River To The Ocean" (2007) ou "Staying In The Game" (2009) – e jogarmos pra cima, tanto faz o que cair na mão, será merecedor de figurar entre os melhores da década. Mas é preciso escolher um, então lá vai: "Timeless", gravado ao vivo no clube do próprio saxofonista, o Velvet Lounge, é a sua obra-prima. O disco foi gravado em trio. Fred pode ser ouvido soprando seu sax em boa companhia, com Hamid Drake – talvez o melhor baterista de sua geração – e Harrison Bankhead no baixo. É só um trio, mas logo na primeira audição isso já é esquecido por causa da maneira como a música ganha corpo e preenche todos os espaços.
Fred Anderson, apesar de não ser muito conhecido, é uma lenda do jazz de Chicago. Foi mentor de quase todos os músicos importantes da cidade. Entre outros é, por exemplo, venerado por John McEntire do Tortoise (um exemplo de como sua influência extrapola o gênero ao qual se dedica). Fred também foi co-fundador da AACM, associação que revelou o Art Ensemble of Chicago, Anthony Braxton e outros, tornando-se uma espécie de mestre e referência pra toda essa gente. Gravou seu primeiro disco como líder apenas em 1978, mas desde então, e principalmente na última década, ele tem mostrado que a idade só ajuda na hora de produzir sua música.
"Timeless" tem apenas quatro músicas, todas improvisos coletivos que não caem na mesma fórmula de muitos dos discos de free jazz. É um som que fica difícil classificar dentro de apenas uma linha do jazz, já que Fred consegue, de uma maneira original, condensar diversas décadas e sonoridades dentro de algo que só ele consegue fazer. Seus improvisos podem ser ora mais lentos, ora mais rápidos, mas sempre a favor de algo maior que é a música, com uma forte vertente puxada pra o spiritual jazz. Em outras palavras, o trabalho de Fred, Hamid e Harrison em "Timeless" soa como uma oração musical – o que remete, em termos de sensação, a uma experiência parecida com discos clássicos do gênero como "Love Supreme" (de John Coltrane) ou "Karma" (Pharoah Sanders). E é bom lembrar: Coltrane seria hoje só 3 anos mais velho do que Fred e Sanders é 11 anos mais novo do que o mestre de Chicago.
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