Jazz além

Strata East é um dos selos de jazz mais conceituais da historia da música do século XX. Fundado em 1971 pelo trompetista Charles Tolliver e pelo pianista Stanley Cowell, lançou uma quantidade impressionante de álbuns inovadores. O primeiro disco é “Music Inc.”, com uma big band moderna e explosiva composta por instrumentistas que lançariam depois seus trabalhos solo pela SE. A gravadora apostava em um som que ia do post-bop, passando pelo spiritual jazz, o free jazz, o afrojazz e chegava até as sonoridades latinas em alguns de seus discos. Muitos dos músicos que passaram pelo selo já possuíam nome estabelecido no cenário jazzístico, como os saxofonistas Pharoah Sanders, Clifford Jordan, Charlie Rouse e a organista Shirley Scott. Muitos outros, porém, aparecerem com trabalhos surpreendentes pela primeira vez no catálogo da gravadora, que teve como grande hit o disco “Winter In America” (1974), do músico, escritor e ativista Gil Scott-Heron com o pianista Brian Jackson. Lançar um nome como Heron demonstrava que a Strata East tinha, além da função musical, uma preocupação política e de afirmação do negro na sociedade norte-americana.

É difícil destacar alguns poucos trabalhos em um celeiro tão bom e produtivo, mas qualquer um dos discos dos fundadores do selo, bem como “Black Capra” (de Billy Harper), “Mutima” (de Cecil McBee) e “In Harmony” (de Weldon Irvine), merecem atenção. E como uma inspiração filosófica, o selo abriu caminho para outros projetos semelhantes em todo os EUA. Os selos Tribe Records, em Detroit, e Black Jazz, em Chicago, são alguns dos que seguiram uma estética parecida. E, curiosamente, esta filosofia nasceu de uma frustração com o mercado musical na época: Charles Tolliver e Stanley Cowell formaram em 1970 um quarteto — que, além dos dois, tinha o baterista Jimmy Hopps e o versátil e incrível baixista Cecil McBee — para gravar o que eles pensavam ser um álbum fino. Percorreram quase todos os selos de jazz da época, mas ninguém quis lançar. Convencidos de que tinham um bom produto em mãos, buscaram uma forma de lançamento independente.

A fórmula foi simples: um disco com boa prensagem e gramatura do vinil, tiragem pequena e um design gráfico simples, mas com grandes significados. Faltava apenas um nome para o selo, então Cowell lembrou de alguns de amigos de Detroit que estavam trabalhando em prol da comunidade negra e que se chamavam Strata. O saxofonista Clifford Jordan, impressionado com a qualidade do lançamento de “Music Inc “, perguntou se eles estariam dispostos a liberar algumas sessões que estavam guardadas, resultando no álbum “In the World”. A partir daí, tiveram um monte de gente batendo na porta da gravadora.

A consolidação do selo aconteceu sob o que Cowell chamava de “conceito condomínio”, onde os artistas tinham autoridade e responsabilidade total — desde as gravações das fitas master até o design das capas e liberação das músicas. Isso deu aos artistas um grande controle artístico sobre suas próprias gravações e, em conjunto com a filosofia da gravadora, os músicos já estabelecidos no poderiam lançar obras com uma estética mais arrojada e personalista, sem a imposição do mercado fonográfico ou de algum modismo da época. Viabilizou também que alguns jovens desconhecidos se lançassem de uma forma mais livre, sem a necessidade de um currículo de sucesso — bastava estar alinhado com o conceito da gravadora. E, claro, nada disto aconteceu em um vácuo cultural, mas como parte de um conjunto maior da cultura afro-americana, — como os movimentos de direitos civis, panteras negras, cinema blaxploitation e Angela Davis, só para citar alguns exemplos.

O selo continuou até 1977, quando outras oportunidades e responsabilidades obrigaram Charles Tolliver e Stanley Cowell a parar de lançar novas gravações.

(Por DJ Jazz, para o site Outra-Cena)

1- The Piano Choir – “Nation Time”
2- Clifford Jordan Quartet – “Alias Buster Henry”
3- Mtume Umoja Ensemble – “Baba Hengates”
4- The Heath Brothers – “Smiling Billy Suite Pt.II”
5- Charles Tolliver – “Earl’s World”
6- Larry Ridley – “Well You Needn’t”
7- John Gordon – “Danish Drive”
8- Gil Scott-Heron – “The Bottle”
9- The Descendants Of Mike And Phoebe – “Chick Chick”
10- Weldon Irvine – “Turkish Bath”
11- Cecil McBee – “Tulsa Black”
12- Pharoah Sanders – “Prince Of Peace”
13- Stanley Cowell – “Trying To Find A Way”
14- Billy Parker’s Fourth World – “Dance Of The Little Children”
15- Billy Parker’s Fourth World – “Get With It”
16- Juju – “Black Experience”
17- Music Inc – “Ruthie’s Heart”

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