Monumento do jazz

archieshepp

Archie Shepp está entre nós. Este senhor de 81 anos é uma testemunha ocular de algumas das passagens históricas do jazz. Ele participou, por exemplo, das gravações de dois dos álbuns mais icônicos de John Coltrane: “A Love Supreme” (1964) e “Ascension” (1965) – muito embora, no caso do primeiro disco, sua participação tenha sido preterida por uma sessão de gravação anterior, sem sua presença. Como protagonista, também escreveu páginas importantes do gênero com os seus próprios discos: “Fire Music” (1965), “The Magic of Ju-Ju” (1968), “Yasmina, a Black Woman” (1969) e “Attica Blues” (1972) são os preferidos deste blog. Não é exagero dizer que ele está entre os maiores saxofonistas da história e é um dos mais importantes jazzistas vivos.

A Radiola Urbana teve o prazer de entrevistá-lo na última segunda-feira, dia 27/08, no hotel em que está hospedado em São Paulo. O músico anda apoiado por uma bengala e fala com certa dificuldade – mas gosta de conversar. Ele é uma das atrações do festival Sesc Jazz (ex-Jazz na Fábrica) e veio ao Brasil para fazer três shows. O primeiro aconteceu na quarta-feira, 29/08, em Sorocaba. Os outros acontecem em São Paulo, no Sesc Pompeia, no sábado (01/09) e no domingo (02/09). A apresentação é divulgada como um tributo a Coltrane e contará com o acompanhamento do Ritual Trio, liderado pelo percussionista Kahil El’Zabar.

Esse tipo de reverência não é novidade na carreira de Shepp. Ao contrário: um dos seus primeiros álbuns é justamente “Four For Trane”, de 1964, em que oferece versões para quatro composições do outro saxofonista. “John foi um grande irmão, ele abriu as portas. Ele fez coisas que ninguém fez antes. A minha história é o que veio antes de mim – ou seja, John Coltrane é a minha história. Ele mudou o jeito de tocar saxofone, criando novas técnicas e novos sons”, diz Archie Shepp. “Meu show será uma celebração à sua obra, mas tocarei minhas próprias composições. Será um concerto dedicado a ele.”

“Four For Trane” marca o início da trajetória na gravadora Impulse!, onde Coltrane era a estrela principal. Sua credibilidade com o dono da companhia, Creed Taylor, lhe garantiu não só a liberdade para experimentar em suas próprias gravações como uma carta branca para indicar novos artistas ao elenco do selo. Shepp foi um dos beneficiados e gravou 14 LPs pela Impulse! até 1972. A contribuição não era somente nos bastidores. “Ele nunca se portava como um guru. A primeira vez que o vi, ele estava tocando com Thelonious Monk no Five Spot, em Nova York. Ele já era uma lenda pra mim quando o conheci”, lembra Shepp. “Perguntei se ele poderia me ajudar com o sax. Então fui à casa dele no dia seguinte do show e ele pediu para eu tocar para ele. Depois, ele tocou para mim. Foi realmente fascinante, foi a primeira vez que ouvi ‘Giant Steps’, ele tocou por 10 minutos sem interrupções.”

Em 1965, Shepp lança “Fire Music”, que foi gravado em duas sessões naquele mesmo ano: em 16 de fevereiro e 9 de março. Bem no meio desse processo, acontece o assassinato de Malcom X, no dia 21 de fevereiro. O álbum reverbera o sentimento de revolta que se instala sobre a comunidade afrodescendente norte-americana e uma das faixas é explicitamente dedicada ao líder negro: “Malcom, Malcom Semper Malcom”, que começa com um poema escrito e recitado pelo saxofonista. “Me lembro daquele dia da mesma forma que me lembro do dia que John F. Kennedy foi assassinado. É um desses momentos históricos que te deixam permanentemente chocado, ainda hoje posso falar do meu sentimento naquele dia trágico, espantoso. Escrevi aquele poema e o dediquei ao irmão Malcom”, lembra. “Ele foi muito importante, um libertário, um homem que falou diretamente ao povo negro para se unir contra a opressão.”

“Fire Music” acontece exatamente no período entre a concepção e o lançamento de “A Love Supreme” (gravado em dezembro de 1964 e lançado em janeiro de 1965) e “Ascension” (gravado em junho de 1965 e lançado em fevereiro de 1966). Juntos, os dois saxofonistas ainda lançaram o LP ao vivo “The New Thing At Newport”, em junho de 1965, com Coltrane no lado A e Shepp no lado B. “A Love Supreme” é constantemente lembrado como um dos discos mais importantes da música, uma obra dedicada a Deus e um trabalho exemplar do que se convencionou categorizar como spiritual jazz. O álbum teve duas sessões de gravação: a primeira com o quarteto clássico do período – além de Coltrane no sax, McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria. Na segunda, Coltrane convocou Shepp e um segundo baixista, Art Davis, para engrossar o caldo. O disco que foi lançado e se consagrou, no entanto, aproveitou apenas a primeira sessão. Já “Ascension” agrega ao quarteto tanto Davis como Shepp, além de outros músicos dos sopros: os trompetistas Freddie Hubbard e Dewey Johnson e os saxofonistas Marion Brown, Pharoah Sanders e John Tchicai. É a contribuição de John Coltrane ao radicalismo do free jazz.

“Eu provavelmente tocaria de um modo um pouco diferente tanto em ‘A Love Supreme’ como em ‘Ascension’ se eu tivesse pensado no processo de maneira um pouco mais racional. Em ‘Ascension’, ele pedia para gente tocar não o que estava escrito nas partituras, mas o que a gente sentia. Entre cada solo, que eram totalmente ‘free’, McCoy Tyner tocava alguns acordes. Eu estava tão feliz de estar lá que acabei nunca perguntando que acordes eram aqueles”, lembra. “Em ‘A Love Supreme’ foi parecido. Eu queria fazer algo diferente, algo na veia ‘free’ que eu achava que Coltrane gostaria que eu fizesse. Mas na verdade, eu poderia muito bem ter tocado no mesmo acorde menor que ele estava tocando. Uma das chaves para fazer música é a simplicidade. E John entendeu isso, independente de quanto o seu trabalho era complexo.”

Coltrane morre logo depois, em 1967, vítima de um tumor hepático. Shepp seguiu sua carreira e lançou na sequência mais álbuns emblemáticos na onda do free jazz – “Magic of Juju”, de 1968, é um espanto de tanta originalidade e inspiração, em uma longa conversa entre sax e percussão afro. Nos anos 70, ele intensifica o viés da crítica social e incorpora a influência da soul music em “Attica Blues”. O álbum faz referência à rebelião no presídio de Attica, em Nova York, que culminou na morte de 43 presidiários em 1971.

Desde então, o saxofonista continuou ativo, gravando, fazendo shows, dando aula. São imprecisos os dados relativos à discografia completa, mas é algo próximo de uma centena de discos lançados. A wikipedia contabiliza mais de 90; o site allmusic lista mais de 100. Trata-se de um monumento do jazz que se erguerá diante de alguns privilegiados no teatro do Sesc Pompeia no próximo fim de semana. Os ingressos estão esgotados, mas vale tentar a sorte um pouco antes da hora do show. Não é sempre que a história se escreve em um palco tão perto de nós.

Vai lá:
Archie Shepp & Ritual Trio, com Kahil El’Zabar
Quando: 01 de setembro, às 21h, e 02 de setembro às 18h
Onde: Teatro do Sesc Pompeia – R. Clélia, 93
Quanto: R$ 18,00 (comerciário), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 60,00 (inteira)
Ingressos esgotados!

*a playlist que acompanha este texto traz faixas do período de 1965 a 1972, que registra as obras mais apreciadas por este blog. Não se trata de uma compilação da carreira do artista e não tem a pretensão de fazer uma síntese de uma obra tão extensa.

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