O evangelho de Aretha

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“Amazing Grace” não é apenas um disco inspirado em temáticas religiosas. Este álbum é uma homenagem e um registro da liturgia da igreja cristã afro-americana. Tanto é que foi realizado num local sagrado: a New Temple Missionary Baptist Church, no bairro de Watts, em Los Angeles. Aretha Franklin o gravou acompanhada de sua banda e do pianista James Cleveland e seu coro (o Southern California Community Choir) durante dois dias em janeiro de 1972. Foi uma volta às raízes para a rainha do soul: embora ela nunca tenha se afastado da igreja, foram suas gravações de canções seculares que lhe trouxeram sucesso popular. Naquela época, Aretha estava em seu auge como intérprete. Doze de seus singles haviam alcançado disco de ouro, entre eles, hits como “Chain of fools”, “Respect”, “Spanish Harlem” e “Think”. Era o momento de gravar as músicas que influenciaram definitivamente sua formação como artista.

O repertório de “Amazing Grace” reflete diversas facetas da relação de Aretha com a música gospel. Entre as canções escolhidas, estão clássicos do gênero como “Mary, Don’t You Weep”, “Old Landmark”, “How I Got Over”, “Climbing Higher Mountains”. Eram músicas que ela ouviu na igreja durante a infância e na voz de seus ídolos, cantoras como Mahalia Jackson, Clara Ward, Inez Andrews, do grupo The Caravans,  Rosetta Tharpe – algumas eram inclusive amigas da família Franklin: o pai de Aretha era o reverendo C.L. Franklin, respeitado líder religioso de Detroit. Ao tradicional, ela combina canções de compositores contemporâneos, como “Wholy Holy”, de Marvin Gaye. Além disso, a segunda faixa é uma integração perfeita das facetas religiosas e seculares dela: a interpretação de “Take My Hand, Precious Lord” é feita num arranjo que combina esta letra à melodia e o refrão de “You’ve Got a Friend”, hit pop de Carole King.

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As escolhas de arranjo ajudaram a definir os caminhos que a música gospel seguiria a partir de então, afastando-se das interpretações mais tradicionais — em que os cantores eram acompanhados apenas por instrumentos como órgão, piano e violão — e indicando o rumo para o gospel contemporâneo: em que uma gama maior de instrumentos permite arranjos mais sofisticados. Em 1972, não era uma tarefa simples colocar dentro de uma igreja a formação da banda de Aretha, composta pelo guitarrista Cornell Dupree, o baixista Chuck Rainey e o baterista Bernard “Pretty” Purdie (três lendas do soul e do funk que gravaram com artistas como King Curtis, Steely Dan, Donny Hathaway, The Staple Singers, entre outros). Era um pouco demais para os tradicionais do gênero. Mas, ao lado da cantora estava o pianista e arranjador James Cleveland, outro amigo de infância dos Franklin, que chegou a morar na casa deles até ser expulso por roubar o pudim de banana que o reverendo Franklin havia guardado pra comer outra hora, segundo Aretha. Cleveland ficou notório por lançar novos artistas do gênero: já começava a adaptar a tradição do gospel para a contemporaneidade e era famoso pela precisão da performance e arranjo de seus corais.

As gravações aconteceram em dois dias (13 e 14 de janeiro, de 1972) para uma platéia formada principalmente por frequentadores da igreja, além da família da cantora, convidados como a cantora Clara Ward e uma dupla inusitada: Mick Jagger e Charlie Watts, dos Rolling Stones. Uma equipe de filmagem, liderada pelo diretor Sydney Pollack, registrou as duas apresentações. Até hoje, o filme nunca chegou aos cinemas e as últimas tentativas de trazer as imagens à público foram frustradas pela própria Aretha, que não autorizou o lançamento. Pelo trailer do filme dá pra ver que, dentro da igreja, Aretha não é somente a rainha do soul. Ela é uma irmã fervorosa, uma representante da religião que não está no papel de popstar, mas sim de condutora do extâse religioso. Suas interpretações movimentam as emoções da plateia e transmitem mensagens que ultrapassam o significado primário das letras de louvor. Ela escolhe canções que podem dialogar com o momento que a comunidade afro-americano vivenciava. As ideias de batalhar para alcançar um lugar melhor, a terra prometida, se comunicam diretamente com a luta vivida desde o movimento dos direitos civis por igualdade social. A voz de Aretha guia a plateia ao sublime espiritual, mas também inspirando o combate às desigualdades da época. Esta posição política está na capa do álbum também. Pela primeira vez, a cantora aparece vestida com roupas que remetem diretamente à África e ao afrocentrismo.

A versão original chegou às lojas como um álbum duplo com 14 faixas. Em 1999, a gravadora Rhino lançou uma edição especial com a íntegra dos dois dias de apresentação. As 28 faixas trazem músicas e sermões estendidos, além de uma interpretação instrumental de “My sweet Lord”, do ex-Beatle George Harrison, ao final dos dois cultos. Se essas gravações mostram a entrega de Aretha durante a performance, o baterista Bernard “Pretty” Purdie diz que os ensaios foram ainda mais intensos. No livro “Amazing Grace”, de Aaron Cohen, ele diz que: “Enquanto estávamos na igreja, Aretha pregava. O que foi gravado não chegou aos pés do que ensaiamos um ou dois dias antes. Ela estava agindo como um ministro mesmo. O coro e todos nós estávamos em choque, porque ela estava pregando. Ela alcançou um outro lugar. Ela pregava melhor que qualquer outro pastor que eu já vi e dava pra sentir tudo que ela fazia. Cada canção, cada palavra nos dava arrepios”. Os ensaios foram registrados em fita e seriam usados no filme.

“Amazing Grace” tornou-se um sucesso de vendas e é o recordista da carreira da cantora, tendo alcançado mais de 2 milhões de cópias vendidas até hoje. Um dos fatores certamente é o sucesso que músicas de temática religiosa estavam fazendo na parada pop naquela época: a versão de “Oh, Happy Day”, do grupo Edwin Hawkins Singers chegou ao quarto lugar da parada norte-americana em 1969; e “My Sweet Lord” chegou ao topo em 1971. Além disso, o formato de álbum estava se provando rentável no gênero soul após o sucesso de “What’s Going On”, de Marvin Gaye. Mais que isso tudo, Aretha provou com o disco que era mesmo a rainha da música negra secular e pregou a mensagem para além das paredes da igreja, conseguindo espalhar o gospel dos ouvidos urbanos antenados no seu soul aos mais tradicionais apreciadores da música do evangelho. Aos fãs da cantora, só restou dizer obrigado pela graça alcançada.

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