O testamento de Coltrane

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33 minutos: é esse o tempo que dura a suíte “A Love Supreme” (Impulse Records), gravada em 9 de dezembro de 1964 e lançada em fevereiro de 1965. Pode chamar de música ou oração, mas o fato é que as quatros partes da obra mais icônica de John Coltrane é, sem dúvida, um milagre. Gravado pelo saxofonista junto ao seu quarteto clássico (com McCoy Tyner no piano, Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo), o álbum se tornou uma fonte inesgotável de inspiração ao longo dos anos — 33 minutos que se tornaram eternos e se renovam a cada audição. Com a banda em seu auge de entrosamento e inspiração, o disco reflete a busca espiritual do líder e seu mergulho em diferentes filosofias, tanto do ocidente quanto do oriente. Já a sonoridade faz referência ao passado hard bop de seus primeiros anos, incorpora a experiência do jazz modal vivida intensa e recentemente como acompanhante de Miles Davis no igualmente clássico “Kind of Blue” (1959) e antecipa o futuro, com indícios do mergulho profundo e posterior no free jazz. “A Love Supreme” é uma espécie de síntese ou testamento musical de John Coltrane.

A base para se chegar a isto se desenvolveu até culminar na gravação de dezembro de 1964. Desde o início dos anos 1960, Coltrane e seu quarteto aprimoraram seu som e criaram uma atmosfera que deu uma personalidade única para sua música até encontrar a aura espiritual que pontuou a obra do músico a partir de determinado período. Como influência, “A Love Supreme” ultrapassou o campo jazzístico e chegou ao rock por meio de nomes que passaram a venerar o som do saxofonista — como Santana, MC5, Frank Zappa e uma infinidade de bandas psicodélicas que surgiram entre o final dos anos 1960 e 1970. Até mesmo no punk rock a influência respingou.

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Em uma reclusão de cinco dias em um quarto de sua casa, o saxofonista fez um mergulho na própria obra e em suas crenças até descer as escadas com as quatro partes compostas e uma inédita expressão de serenidade (segundo relato de sua esposa à época, Alice Coltrane). Tudo veio de uma vez, numa espécie de iluminação mágica. Mas não se trata, obviamente, de uma mera epifania repentina: foram anos e anos de trabalho intenso, treinamento e aprendizado iniciado no começo dos anos 40, quando a mãe de Coltrane lhe deu seu primeiro saxofone.

Não foi só a composição que veio em um lampejo. As quatro partes do disco (“Acknowledgment”, “Resolution”, “Pursuence” e “Psalm”) também foram gravadas em uma única sessão, três delas no primeiro take (“Resolution” precisou de 7 tentativas até que o quarteto gravasse a definitiva). Havia um transe intuitivo que pairava sobre os quatro músicos, de modo que líder não precisou ser detalhista quanto ao que esperava de cada um. A gravação simplesmente fluiu e seu resultado tem conexão direta com “Crescent” (que precede “A Love Supreme”, de 1964) e “Ascension” (lançado no ano seguinte, em 1966) — algo notável, inclusive, nos títulos das obras que sugerem uma espécie de trilogia.

“Crescent” já apresentava características que apontavam para sua busca, além de um título que sugeria o caminho a seguir. Logo depois do lançamento de “A Love Supreme”, a banda gravou “John Coltrane Quartet Plays”. No trabalho seguinte, Coltrane potencializou o seu clássico quarteto com mais músicos para gravar “Ascension” — sua versão definitiva para o free jazz, com uma sonoridade barulhenta, que escancarou de vez as possibilidades que o músico iria explorar em seus últimos meses de vida (ele morreu em 1967). E mais uma vez, o título sugere o alcance de um tipo de graça espiritual.

Porém, até mesmo essas experimentações tiveram início durante a gravação de “A Love Supreme” quando, um dia depois da sessão que foi lançada oficialmente (de 9 de dezembro), Coltrane integrou a seu quarteto mais um baixista (Art Davis, que já havia trabalhado com o músico no começo dos anos 60) e mais um saxofonista (Archie Shepp, um de seus mais talentosos “seguidores”). Na ocasião, foram gravadas mais duas versões de “Acknowledgement” e outra de “Resolution” — ambas mais ferozes do que as primeiras, o que acabaria levando o músico a escolher a sessão do dia 9 na íntegra e encarar a do dia 10 como uma abertura de possibilidades que viriam a ser colocadas em prática em “Ascension”.

A confiança de Coltrane e sua entrega nas composições fez com que, pela primeira vez, sua voz fosse ouvida em um disco. Justamente na primeira parte da suíte (que acabou se tornando a mais conhecida), o saxofonista e o outros integrantes do quarteto repetem o título do disco seguidas vezes como um mantra e reforçam o desenho melódico de quatro notas de uma linha simples de baixo que se repete durante a música inteira desde a introdução. “Resolution”, que vem a seguir, também abre com o baixo de Garrison. A entrada de Coltrane, porém, é bem mais vigorosa, assim como o solo de piano de Tyner. O que se percebe entre as primeiras duas partes da suíte — que ocupam o lado A do disco — é um caminho de êxtase que culmina no que vem a seguir.

“Pursuence” já é o Coltrane mais barulhento, próximo do grito do free jazz que se faria ouvir em seus trabalhos posteriores, com destaque para a abertura com um solo de bateria de Elvin Jones — seguido pelas teclas de Tyner, desta vez mais frenéticas e rápidas do que nas outras faixas. A mais longa composição do disco é como uma descarga de energia liberada com fúria no solo de Coltrane, que faz o quarteto (e os ouvintes!) atingirem um estado de sublimação e paz absoluta alcançada com o desfecho da obra. “Psalm”, a quarta e última parte de “Love Supreme”, retorna para uma atmosfera mais etérea, com o quarteto criando junto um clima que sugere uma conquista espiritual depois de um tour de force. Soa como o final de uma busca pela qual o próprio John Coltrane passou a vida inteira e alcançou no período entre os cinco dias em que ele se trancou no quarto para compor a suíte e a milagrosa noite de gravação em 9 de dezembro de 1964.

(Por Alê Duarte)

>> Ouça nosso podcast em homenagem aos 50 anos de “A Love Supreme”, com participação do saxofonista Thiago França (Metá Metá, Sambanzo, A Espetacular Charanga do França, Space Charanga e MarginalS).

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