O verdadeiro velho oeste

Rafael Mattar 1 small

Há muito ainda para se desvendar da música africana. Pense: se no Brasil, a diversidade rítmica é infinita e gera confusão na cabeça dos gringos que não conseguem diferenciar samba de maracatu, o que dizer de um continente com 54 países? A banda Höröyá dá um passo importante nessa jornada sem fim. Idealizada pelo músico André Piruka e formada em São Paulo por instrumentistas brasileiros e africanos residentes na cidade, sua pesquisa debruça sobre a cultura Mandeng e na conexão dessa tradição com elementos do samba e do candomblé. Surgida no oeste africano (em países como Guiné, Mali, Senegal e Burkina Fasso), essa raiz musical é baseada na tradição oral e em uma diversidade de instrumentos percussivos e harmônicos e fomentou o surgimento do blues e do jazz nos Estados Unidos.

A Höröyá tem dois discos gravados – “Höröyá” (de 2015) e “Pan Bras’Afree’ke” (de 2017) – e o trabalho mais recente aprofunda a aproximação com Mali na participação do mestre Cheick Tidiane Seck, que assina co-produção, canta e toca teclados no disco. Atualmente com 64 anos, ele é reconhecido como um dos principais músicos vivos em seu país. Parte das gravações aconteceram em seu país e também no Burkina Fasso e contaram com músicos locais: Barou Koyate, Petit Adama Diarra e Drissa Sidibe (Mali) e Petit Solo Diabate e Ibrahim Diarra (Burkina Fasso). As cantoras brasileiras Mãe Genilce de Ogum e Naruna Costa completam o time de músicos participantes. A banda é formado pelos brasileiros André Piruka (percussão e direção musical), Tobias Kraco (guitarra), Nando Vicêncio (baixo), Richard Firmino (sopros), Sintia Pichin (sax tenor), pelos senegaleses Maguette Mbaye (sabar), Moustapha Dieng (sabar) e Karbala Sene (voz) e o percussionista da Guiné Bangaly Konate (djembe).

No sábado e domingo desta semana (3 e 4 de março), a banda se apresenta no Sesc Consolação e conta as participações especiais de Famoudou Konaté (mestre do djembe na Guiné, hoje com 78 anos), Assetou Diabaté (dançarina e cantora do Mali), Gabi Guedes (percussionista da Orkestra Rumpilezz), Djanko Kalaban Camara (dançarino da Guiné) e Adama Keita (que toca o instrumento de cordas kora e é do Mali). A Radiola Urbana conversou com o músico e idealizador do projeto André Piruka sobre esse trabalho. Leia!

O que te levou à África?
O rumo ao continente africano foi natural, especialmente ao oeste, na região de cultura Mandeng. Toco percussão desde os 10 anos, formado musicalmente pela vida e nas relações, não em escolas. Uma pessoa muito importante nesse caminho, meu mestre e parceiro, é o Bangaly Konate (da Guiné), com quem toco e aprendo há 10 anos. Tive o primeiro contato com essa música por volta do ano 2000 e, desde o princípio, a complexidade da linguagem, os timbres, a variedade rítmica e humana sempre me fascinaram muito e me fizeram imergir nesse caminho. É um mundo infinito, sem exagero. Fiz parte de grupo de capoeira, escola de samba, cresci na umbanda e agora vivencio o candomblé. Tudo isso se interliga. África é origem, presente e futuro.

Qual foi sua inspiração para formar a Höröyá?
Höröyá nasce desse acúmulo de vivências e das relações com meus mestres. Festas de aldeia, coletividade, celebração, ritos, novas e antigas tradições. Resistência. Diversidade de mundos e pensamentos. Concepção musical de base Mandeng, ênfase na percussão e na diversidade rítmica, com guitarras próximas do afrobeat e do funk e sopros com função mais rítmica e solista do que melódica.

Uma das marcas do som da banda está no uso de muitos instrumentos percussivos africanos. Fale um pouco sobre aqueles mais presentes nas gravações: sua origem, suas características de timbres, como eles se relacionam com os outros elementos na instrumentação da banda…
A música do Höröyá nasce nos dununs: 3 tambores de madeira, cilíndricos, com peles grossas dos dois lados, tocados com baquetas. É o instrumento base da cultura musical Mandeng. Diferente da musicalidade afro-brasileira, essa música não é baseada em cadência ou “levada”, mas em um diálogo entre os tambores, compondo uma melodia. Só na Guiné são mais de 600 ritmos diferentes, separados por famílias, de acordo com uso e função. Começo compondo os ritmos nos dununs; depois crio células rítmicas no djembe (também de origem Mandeng) ou no sabar (família de instrumentos do Senegal), acrescentado bases e solos. Na marcação vem os caxixis e o krin (um tronco de madeira semiescavado, com 3 notas, presente em diversas culturas do mundo; mas o que usamos é no formato das culturas do sul da Guiné). Depois da percussão é que vem as guitarras e o baixo, e por último os sopros. Usamos também instrumentos melódicos de origem Mandeng, como o ngoni, um tipo de harpa feito com uma cabaça grande, pele animal e cordas.

Como aconteceram as participações dos músicos africanos na gravação?
Conhecer o Cheick Tidiane Seck sempre foi um sonho. Artista completo, grande instrumentista, arranjador, compositor, diretor, solista, cantor… Considero ele uma das figuras mais importantes da música mundial, tocou com todo mundo. Enfim, é um exemplo e uma referência pra mim. O conheci pessoalmente há dois anos, quando ele veio tocar no Jazz na Fábrica. Já tínhamos tido contato antes através de amigos em comum, ele pediu instrumentos emprestados e assim nos aproximamos. Passamos uns dias juntos, participei dos shows dele e foi realmente um divisor de águas pra mim. Sua música é profundamente africana, moderna e livre. Confesso que eu estava meio em crise… É difícil abrir novas frentes musicais com música instrumental, fora de padrão e tal…. E tocar com ele fez com que as coisas voltassem a ter sentido. No Mali ele é o grande maestro e professor de muitos nomes conhecidos por aí. Aos ouvidos do mundo, creio que os maiores nomes do Mali são Toumani Diabate (que toca kora), Salif Keita, Oumou Sangare e Bassekou Kouyate. De todos eles, Cheick é ou foi parceiro, arranjador, compositor, professor… Ele tocou em duas faixas e ajudou a montar o time que gravou no Mali e no Burkina. Os arranjos ficaram por minha conta, mas com grande influência do Cheick, do que ele gravou nas faixas e dos 2 meses que passei com ele no Mali durante as gravações. No Brasil, gravaram também Bangaly Konate (da Guiné), Maguette Mbaye, Moustapha Dieng e Karbala Sene (do Senegal). São grandes músicos que moram em São Paulo e fazem parte do grupo.

O que caracteriza a cultura Mandeng?
A cultura Mandeng é um grande complexo cultural, presente principalmente na Guiné, Mali, Senegal e Burkina Faso. Tem a mesma base linguística, ligações familiares, base musical. Cultura e sociedade com mesmo viés e estrutura. Na música existe também uma unidade na forma de pensamento e no uso dos instrumentos. Tocam tambores (dununs, djembe, tama, baradunun) e instrumentos melódicos (kora, djeli ngoni, kamele ngoni, balafon, flautas). E dentro da unidade Mandeng, existe também muita diversidade. No geral, a música na Guiné é mais forte em percussão; no Mali as cordas e cantos são mais fortes e no Burkina Fasso se destacam os balafons, tama e baradunun (tambor de cabaça). É uma cultura fortíssima e que influenciou muito na formação da música atual, sendo raiz fundamental para o blues e o jazz.

O show terá a participação de Famoudou Konaté. Qual é a importância dele para a música da Guiné?
Famoudou Konaté é o grande mestre de djembe e cultura Mandeng. Tem 78 anos de idade e ainda toca demais, carregando o Djembe nas costas, isso é para poucos… Ele foi o percussionista principal do mais importante grupo da Guiné, o Lês Ballets Africains, por 26 anos. A cultura Mandeng hoje é difundida por todo o mundo e segue os rumos criados por Famoudou. Tocar bem Djembe na Guiné é meio que equivalente a jogar bem futebol no Brasil, é a possibilidade de uma melhor condição de vida. A situação no país é bastante difícil.

Höröyá apresenta Pan África Brasil
2 e 3 de março
Sesc Consolação – R. Dr. Vila Nova, 245
Ingresso: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia) e R$ 12 (comerciário)

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