Pimenta no ouvido dos outros

Thiago França_Malaguetas, Perus-e-Bacanaço-01

O saxofonista Thiago França é um dos artistas mais robustos na nuvem de tags da Radiola Urbana. Já virou motivo de piada interna. Mas uma das vantagens de se fazer um blog independente é, justamente, ignorar certas ilusões da grande mídia — tipo “jornalismo imparcial”. Arte se consome pelo filtro do gosto pessoal e, sendo assim, a imprensa vai ser sempre parcial na escolha de um assunto ou outro para seus cadernos culturais. Mesmo assim, é preciso ser cego pra não observar o quanto mr. França tem produzido nos últimos anos: integra o Metá Metá com a cantora Juçara Marçal e o guitarrista e o violonista Kiko Dinucci, a banda mais afiada da música brasileira atualmente que, além de fazer um trampo autoral impressionante, divide palco e / ou gravações com gente tão cabulosa quanto distinta como Tony Allen, Mulheres Negras e Jards Macalé; encabeça também os projetos Sambanzo e Espetacular Charanga do França, que fazem a alegria de muita gente na noite paulistana — e nem de longe se parecem entre entre si; integra ainda o trio de jazz MarginalS, com Marcelo Cabral (baixo) e Tony Gordin (bateria), uma pancada bem violenta para quem consome o gênero só pelo viés de Duke Ellingston e seus contemporâneos; fora tudo isso, França sacou em dezembro de 2013 o disco “Malagueta, Perus e Bacanaço”, em homenagem aos 50 anos do conto de João Antônio, e quebrou tudo — desde as listas pré-fabricadas de melhores do ano passado até as convenções que temos do samba e, principalmente, as fronteiras entre literatura e música brasileiras (ainda são raros os exemplos de troca de influência entre as duas linguagens, com honrosas exceções, “Matita Perê”, de Tom Jobim, por exemplo). Aproveitamos a já notória verborragia do músico e fizemos a seguinte entrevista por email (publicada originalmente, em versão editada, no Guia da Folha: Livro, Discos, Filmes”, de fevereiro).

Como você conheceu e qual foi o impacto que provocou a obra de João Antônio?
Num papo sobre literatura, em 2010, o Rodrigo Campos me falou sobre o livro, mais especificamente sobre o conto “Malagueta…” Fiquei bastante curioso e corri atrás. Sentei pra ler numa manhã e só levantei à tarde, com o livro lido, fiquei fascinado. Mesmo tendo 50 anos, a estética do João Antônio tem muito a ver com as coisas que a gente faz: é dura, crua, direta, sem photoshop, mostrando a cidade e seus personagens, contando histórias sem medo de sujar as mãos, sem concessão na linguagem, entenda o leitor ou não. Esse é o caminho que escolhi pra minha música, e sempre que se encontra alguém que acredita na mesma coisa, a convicção de que você está no caminho certo se reforça.

Não é muito comum um disco inspirado em literatura. De onde saiu essa ideia?
Nessa época, rolava a Gafieira Nacional toda segunda, no Ó do Borgodó. Li o livro num domingo e no dia seguinte já apareci com o primeiro tema, o “Malagueta…” O Rodrigo insistiu pra que eu continuasse compondo, fizesse um disco, e na sequência saíram “De Volta à Lapa”, “São Paulo de Noite” e “Tema do Carne Frita”. Mas daí veio o primeiro disco do Metá Metá, o “Labirinto em cada pé”, do Romulo Fróes, o “Nó na Orelha” do Criolo, MarginalS, Sambanzo. A Gafieira acabou, a ideia foi pra gaveta, mas ficou na cabeça o lance de prestar uma homenagem aos 50 anos da história. Esperei um pouquinho e entramos no estúdio no começo de 2013. A inspiração na literatura não é tão estranha pra mim. O Sambanzo foi inspirado pelo “Kitábu”, do Nei Lopes; o Forró do Feijão (que eu não cheguei a gravar mas fiz bastante show) tinha músicas inspiradas pelo “Grande Sertão”; o “Bahia Fantástica”, do Rodrigo, tem influência fortíssima do “Cem Anos de Solidão”. A gente falava muito sobre realismo fantástico e de como transportar isso pra música, com elementos inesperados nos arranjos; não coincidentemente, na época que começou o MarginalS eu estava lendo “Ranxerox”. Talvez tenha a ver com o silêncio da leitura, o fascínio vira inspiração, o vazio vai virando música.

Como mineiro morador de São Paulo, você enxerga hoje algum resquício da cidade retratada por João Antônio?
Sim. É só você andar um pouco atento pra ver, está nas pessoas, as que só querem ser elas mesmas, longe dos modelos corporativos de sucesso, gente sem “espaço gourmet” e que não “agrega valor”, que mantém um estabelecimento como ele sempre foi, há 50 anos, como o Bar do Gê, em Perdizes, por onde o João Antônio bebeu umas cervejas. A vontade duma cidade mais humana, pessoal, mais habitável e transitável – no conto, os personagens usam transporte público na madrugada. O rumo que a cidade está tomando não representa a vontade de grande parte da população. Nem toda padoca precisa virar shopping, a borracharia não precisa virar showroom, nem toda banda precisa estar num megafestival. Pra mim, o grande ponto da história é quando ele diz que o mais importante é jogar, estar presente, se arriscar, e que ganhar ou perder é só uma consequência, irrelevante. Acho que ainda tem muita gente que carrega esse sentimento, que resiste. Eu me vejo assim, cada disco que faço é um risco, uma aposta, e sigo fazendo, independente dos resultados. O suor e o trabalho me apetecem mais que hype e glamour.

Concorda com a analogia de que teu disco está para São Paulo dos anos 60 como “Passo Elétrico” está para São Paulo de hoje (ou, pelo menos, a do ano passado)?
Uau… considero um dos maiores elogios que você podia me fazer, mas acho que não. Acho que fiz uma leitura bem convincente do que foi aquela época, conseguimos captar bem o sentimento do conto, mas eu não estava lá, não senti na pele, isso faz diferença. Já o “Passo Elétrico” é um documento histórico preciso desse momento da cidade, devia cair no vestibular. Eu sou suspeito pra falar bem dos meus melhores amigos, que são meus compositores e músicos preferidos, mas os caras estão aí, retratando magistralmente, em tempo real, a inquietação toda de viver em SP, o tal do amor e ódio com a cidade.

Musicalmente, o disco está mais próximo do samba – bem diferente dos projetos MarginalS (freejazz), Sambanzo (afro-jazz) e Charanga (latino). Circular por vários gêneros e desafiar os rótulos é proposta ou uma consequência natural não planejada?
Eu ouço Paulinho da Viola, Sun Ra e Funkadelic no mesmo dia, gosto igualmente de todos, é natural querer mexer com essas sonoridades e estéticas, distintas mas que são familiares pra mim. Aliás, a “Charanga” e o “Malagueta…” foram gravados juntos, na mesma sessão, aproveitando que já estava todo mundo no estúdio. Os sons, por serem diferentes, são complementares, se equilibram. Tocar sempre a mesma coisa é como ir à academia e só malhar o bíceps. Cada som exercita a memória, a sensibilidade e a criatividade de um jeito diferente, te mantém sempre em forma, aguçado. Ao mesmo tempo, “Malagueta…” é uma volta ao meu primeiro disco, “Na Gafieira”, de 2009, revisitando o samba com um olhar renovado.

Um destaque do disco – ou uma surpresa por ter um colaborador que não é tão frequente quanto os outros em seus trabalhos – é “Caso do Bacalau”, com participação do rapper Ogi. Como ele entrou no projeto? E o resultado, te surpreendeu?
Quem me apresentou foi o Kiko (Dinucci), na época eles eram vizinhos no Cambuci, eu só o conhecia do “Crônicas da Cidade Cinza”, que acho um bom disco. A intimidade dele com o samba me chamou a atenção, a maioria dos rappers quando tenta essa combinação soam, pra mim, como se estivessem misturando água com óleo. Pro Ogi é natural, ele conhece muito bem as duas linguagens e conseguiu criar uma terceira coisa, que com a sonoridade de banda ao invés de beat, ficou muito original e surpreendeu todo mundo. Isso sem falar que ele conhece muito a obra do João Antônio, muito mais do que eu. Eu acho que se o João Antônio estivesse escrevendo hoje em dia, é provável que ele diria expressões como “zoião de Thundercat”. Fiquei muito feliz com a participação dele.

Você conhece algum outro disco lançado por um saxofonista que praticamente não tenha solos, apenas temas? Qual foi a intenção por trás desta escolha?
Disco de choro geralmente não tem improviso. Foi natural não ter porque a ideia do disco era ser uma espécie de trilha sonora pro livro e os temas contam essa história muito melhor do que os solos. E eu queria fazer um disco curto, os solos acabam alongando as músicas. Mesmo na música “Malagueta…”, o improviso foi construído dentro da música. Ah! realismo fantástico! O solo faz referência a uma passagem no começo do livro, que um personagem começa a contar um causo, vai se empolgado, empolgando, e quando termina de contar, olha pro lado, ninguém estava prestando tanta atenção assim, tudo está como antes da intervenção fantástica, o solo ilustra isso. Há muito tempo eu tenho uma birra com a música instrumental que adotou o difícil como mote e a técnica como estética e deixou de lado a composição, a interpretação e a sonoridade. Pode parecer controverso vindo de mim se pegar o MarginalS como parâmetro, mas eu gosto de mergulhar de cabeça em cada projeto, cada ideia, e acho que cada um tem a sua lógica, a sua verdade. As coisas que ficam em cima do muro ou no meio do caminho não me interessam.

O disco está disponível para download gratuito e vai sair em vinil. Por que a escolha por estes dois formatos?
Falo bastante sobre os downloads, como virou uma forma de divulgação fundamental pros nossos trabalhos porque furou o bloqueio da mídia que ignorava quem não pagasse o jabá. Sobre o vinil, tenho a sensação de ser muito mais perene do que o CD, dá muito mais gosto ver a capa grande, muito mais bonito. Tem o lance do som, que eu prefiro também. O digital deixa o som meio higienizado, brilhante, puxando um pouco pro agudo, enquanto o vinil tem um som mais macio e encorpado ao mesmo tempo. Gosto também do ritual de tirar o vinil da capa e colocar a agulha, é como se você tirasse esse tempo para ouvir música ao invés de simplesmente dar play e esquecer que tem algo rolando ali. É óbvio que o vinil não é prático, não dá pra carregar uma coleção de discos e uma vitrola debaixo do braço, mas depois de uns quinze anos comprando CD, tenho a sensação nítida de ser uma mídia propositalmente descartável, que quebra e se perde de um jeito muito fácil. Ainda assim, vai ter CD também, muita gente diz que ouve no carro, e no fundo eu quero que as pessoas ouçam música, não importa o formato.

2013 foi, digamos, bem agitado para a sua carreira. O que já está engatilhado para este ano?
Foi? Você achou? Bom, logo menos eu lanço outro compacto com duas músicas em parceria com Tony Allen e desse encontro ainda tem muito material inédito. Em março, o “Metal Metal” vai ser lançado na Europa. Tenho pensado muito em colaborações. Estou fazendo um projeto de sessões experimentais em duo na Sensorial Discos, quinzenal, cada dia um convidado. Gravei no disco novo do Lucas Santtana e outro dia uma música com o Bixiga 70 – fora os já parceiros Romulo e Juçara; armei um show meu no Rio com o pessoal da Abayomy (Pedro Dantas, Thomas Harres e Gustavo Benjão); eu e o Rodrigo estamos agitando uma roda de samba; o Metá vai participar de um show do Jards, e mais coisas com Os Mulheres Negras e a Ná Ozzetti devem rolar. Quero discotecar mais também. E tô com um projeto na cabeça, uma orquestra de freejazz, juntar uma galera, esse vai dar um trabalhinho, mas tô empolgado com a ideia.

(Por Ramiro Zwetsch)

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