Ritmos ancestrais

Sabar

A foto que estampa a capa do disco é mais que uma imagem: é uma referência que se projeta na mente do ouvinte durante a audição de “Pan Brass Afree’ke Vol. 2”, o terceiro disco da banda Höröyá, desde a primeira faixa. A paisagem que hipnotiza o olhar é do rio Níger, o mais importante da África Ocidental, que passa por cinco países (Guiné, Mali, Níger, Nigéria e Benin) e pelo deserto do Saara. Seu percurso faz o desenho de um arco e este recorte do pedaço do continente é uma alusão perfeita ao som do combo afro-brasileiro formado em São Paulo.

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O principal compositor, idealizador, arranjador e produtor é o músico André Piruka. A formação da banda, no entanto, reúne senegaleses refugiados em São Paulo (os percussionistas Moustapha Dieng e Aziz Mbaye e o dançarino Ibrahim Sarr) e as gravações contam com dois mestres africanos: o padrinho da banda Famadou Konaté (tocador de djembê, da Guiné, de 79 anos) e Cheik Tidiane Seck (tecladista do Mali, de 75 anos). Nas gravações e shows anteriores, muitos outros músicos da África tiveram participações importantes e a imersão de André no continente é crucial para o som que a banda encontrou desde sua fundação, em 2015.

“Um elemento importante na criação do grupo é o mestre de percussão Bangaly Konaté, filho de Famoudou Konaté, com quem aprendi e trabalhei por 10 anos, e que integrava o grupo até o ano passado. Essa linguagem musical da cultura Mandeng, com foco nos tambores dununs, passou a ser minha linguagem de base, juntamente com o samba e outras referências afro-brasileiras”, diz André. “Após 3 viagens para Guiné, Mali e Burkina Fasso e cinco anos de convivência em São Paulo com os senegaleses Moustapha Dieng, Aziz Mbaye e Ibrahima Sarr, a música foi se construindo. As culturas e a complexidade do oeste africano são infinitas, dinâmicas e profundas. Quanto mais se conhece, mais coisa aparece: ritmos, instrumentos, formas…”

Essa associação com a cultura Mandeng – linguagem tradicional da África ocidental, com a mesma base linguística e musical – confere à Höröyá um lugar realmente original e sua música tem o poder de nos transportar para sobrevoos imaginários sobre o Rio Níger. A contribuição de músicos formados nessa tradição é fundamental. “Chegamos em São Paulo em 2014, para participar de um festival. Já tinha amigos aqui que me falaram que poderia dar certo. No Senegal, não está fácil. Aqui encontramos o André, que nos ajudou muito a organizar a vida, a conseguir trabalhar com arte”, diz Aziz Mbaye. “Antes não podíamos tocar nossa música de verdade, porque ninguém conhecia. Foi ele que abriu nossa música para o Brasil, nos juntando à Höröyá. Aqui também não está fácil pra ninguém, mas seguimos trabalhando, tocando nossa música e ensinando sobre nossa cultura”, completa Moustapha Dieng.

A dedicação a muitos instrumentos trazidos deste universo abastecem o processo de composição da banda e resultam em um som que instiga a conexão com nossa ancestralidade. Abaixo, divulgamos imagens destes instrumentos (fotos de Mariana Ser) e uma breve explicação de André sobre suas características.

“Pan Brass Afree’ke Vol. 2” será lançado oficialmente nas plataformas digitais na sexta, 15 de março. O trabalho conta ainda com participações de outros três mestres brasileiros: o percussionista Gabi Guedes (da Orkestra Rumpilezz), o experiente violoncelista Jacques Morelembaum e o xamã amazônico Davi Kopenawa Yanonami. A Radiola Urbana teve o prazer de ouvir o trabalho e também de divulgar a capa do disco com exclusividade. Ainda neste mês, a banda faz dois shows: sábado, 16 de março (em Bragança Paulista, no Galpão Busca Vida) e sábado, 30 de março (em São Paulo, no Auditório do Ibirapuera). Quem já viu a Höröyá ao vivo, sabe: o transe dos discos vira ritual no palco!

Atabaque: instrumento afro-brasileiro, na foto tocado pelo mestre Gabi Guedes. Instrumento usado nos terreiros de candomblé da nação Ketu, religião de 3 dos integrantes do grupo.

Djembê: instrumento importante na cultura Mandeng, que compõe ritmos, fazendo levadas de base e solos que acompanham os dançarinos. Instrumento feito de madeira maciça, em formato de ampulheta, montado com pele de cabra e tocado com as mãos. Na foto, tocado por André e pelo mestre Famoudou Konaté.

Dununs: trio de tambores que são a base da musicalidade da cultura Mandeng que geraram a maioria das música do Höröyá. Tambores cilíndricos, de madeira, com pele de boi dos dois lados, tocados com baquetas. Tradicionalmente cada pessoa toca um dos três tambores; na Guiné, desde os anos 60, grupos modernos tocam nesse formato, com os 3 amarrados. São tambores com concepção rítmica e melódica.

Kora: instrumento emblemático por sua aparência, construção, som e dificuldade na execução. Muito importante na cultura Mandeng, é um instrumento tocado por griots (mestres responsáveis por perpetuar tradições culturais) há mais de 90 gerações e composto por metade de uma grande cabaça, pele de vaca, uma madeira no centro e cordas – hoje em dia de nylon, mas até pouco tempo eram de couro ou tripas de animais. É um tipo de harpa, com 21 cordas e afinação normalmente diatônica, com um som maravilhoso. O músico toca ao mesmo tempo: o baixo e um campo harmônico com a mão esquerda; outro campo harmônico e o solo com a mão direita. Na foto tocada por Adama Keita, que gravou no disco, à esquerda.

Ngoni: instrumento parecido com a kora, mas construído com outro tipo de cabaça, menor, montado com pele de cabra, e tradicionalmente usado com 6 até 8 cordas, mas hoje em dia chegando a até 12 ou 14 cordas. É usado outro tipo de afinação, no geral pentatônica, e é um instrumento tradicionalmente tocado por griots do grupo dos Caçadores, importante “instituição” e linhagem dentro da cultura Mandeng. Usado em várias músicas do Höröyá, como “Terra Berra”, “Höröyá”, “Hörö Backka” e, no disco novo, na música “Travessia”, tocado junto com o cello de Jaques Morelenbaum. Na foto, tocado por André, à direita.

Krin: instrumento de madeira maciça, com fendas que formam teclas com notas diferentes entre si. Instrumento original do sul da Guiné e do norte da Costa do Marfim, mas presente em diversas culturas do mundo, inclusive em culturas indígenas no Brasil. Instrumento muito usado nas composições do grupo.

Sabar: é o nome que se dá a música, dança e instrumentos da costa do Senegal, em torno da capital Dakar. É uma família de 7 tambores parecidos entre si. No Höröyá, usamos o M’bang M’bang, o N’der, o Tunguni e o Tiol. São instrumentos de madeira maciça montados com pele de cabra e tocados com uma baqueta fina e uma mão. O som é muito poderoso, alto e em alguns tipos tem o timbre agudo e grave muito fortes no mesmo instrumento. A musicalidade do Senegal é muito complexa, de difícil compreensão e com alto nível de execução técnica. No geral, é tocada por grupos de cerca de 6 a 10 pessoas, com “convenções” longas e quebras rítmicas complexas.

Vai lá:

Höröyá

Quando: 16 de março, às 0h30

Onde: Galpão Busca Vida – Estrada da Serrinha sem número – Bragança Paulista

Quanto: R$ 15,00 (meia), R$ 30,00 (inteira)

Quando: 30 de março, às 21h

Onde: Auditório Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral sem número – São Paulo

Quanto: R$ 15,00 (meia), R$ 30,00 (inteira)

 

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