Violação

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Rótulos não combinam com música, não explicam, apenas simplificam o trabalho da crítica – e cada vez mais. Quando um trabalho artístico rompe com eles, já é um primeiro passo para um resultado instigante. Instituto é isso desde sempre. É difícil de entendê-los, mais complicado ainda é explicá-los. É uma banda, um ex-trio, um núcleo de produção, um coletivo? Desencana.

O fato é que acaba de sair seu segundo disco, “Violar”. O primeiro, “Coleção Nacional” (2002) fez alvoroço: alçou o já consagrado Sabotage a um novo patamar com duas faixas em que ele se reinventa no samba; arrancou o melhor de alguns dos melhores cronistas da música então (e ainda?) contemporânea (como Fred 04 e B-Negão); e despejou nos nossos falantes uma enxurrada de temas instrumentais inspiradíssimos que flertavam com vários gêneros (jazz, funk, dub, hip hop, samba) e bagunçavam o raciocínio de quem precisava enquadrar o disco em único rótulo – tudo sob a batuta dos produtores Daniel Ganjaman, Rica Amabis e Tejo Damasceno.

Passados 13 anos desde seu lançamento, dá pra cravar: é um clássico. Mudou e inspirou a música brasileira da mesma forma que traça um panorama da boa produção do período.

“Violar” sai agora e a tentação geral é de exaltar o longo período entre um trabalho e outro. Desencana. O Instituto de fato demorou para lançar outro disco, mas seu trabalho nunca parou e se fez ouvir para quem se esforça minimamente em observar. Pense na quantidade de trilhas sonoras, de discos de outros artistas em que assinam a produção e de novos trabalhos que são consequência direta ou indireta da participação de seus integrantes. Juntos ou separados, os três produtores fizeram muita coisa relevante nesses 13 anos – tanto que nem vale a pena elencar um ou outro nem listar a ficha completa. Quem procura, acha.

O tempo, no entanto, não deve ser desprezado e “Violar” absorve a transformação da música brasileira nesse período e traz algumas de suas principais novidades para sua amálgama: Criolo, Curumin, Tulipa Ruiz, Metá Metá e Karol Concá estão entre os artistas que se agigantaram nesse intervalo e dialogam com outros que já estavam presentes em “Coleção Nacional” – como Sabotage, Nação Zumbi, B-Negão e Otto. O tempo também mexeu com a formação do Instituto: Ganjaman, atualmente focado na carreira de Criolo, não participou tão ativamente da produção de “Violar” e já não é mais um integrante oficial.

Trata-se de um discão. A primeira faixa divulgada, “Alto do Zé do Pinho”, traz rima inspiradíssima de Sabotage em homenagem a Chico Sciense (com participação de Sombra e da Nação Zumbi) e instiga a imaginação: o que Mauro Mateus e Francisco França estariam fazendo hoje? “Mais Carne” promove um dueto aparentemente improvável entre Tulipa e Karol Conká, mas a parceria flui tão naturalmente que ao fim da audição pensamos como ninguém tinha promovido o encontro antes. O molejo das baquetas do nigeriano Tony Allen impulsiona todo arranjo de “Vai Ser Assim” e deixa Criolo completamente à vontade para soltar o vozeirão. “Ossário” está entre as instrumentais mais certeiras e remete à obra-intervenção de mesmo nome do artista Alexandre Orion – responsável pela linguagem visual do lançamento que inclui, inclusive, uma surpreendente vídeo-capa do disco. Jorge Du Peixe mostra o potencial lisérgico-poético-cinematográfico de sua caneta em duas faixas: “Na Surdina” e “Isso é Sangue”.

Qual é o gênero? Se tornará clássico? Faz jus ao tempo que levou para ser feito? Desencana. “Violar” é para ser ouvido agora.

(Por Ramiro Zwetsch)

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