Violão em fúria

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O chicote estala na pele preta, helicópteros despejam granadas em favelas cariocas, a floresta amazônica arde em chamas, o racismo é relativizado, fala-se em trabalho infantil como algo que fortalece caráter, a violência contra mulher é banalizada, torturadores são saudados como heróis, terreiros são alvos de ataques terroristas constantes, educação e ciência sofrem sabotagem, discute-se o armamento da população como solução à violência, a diversidade sexual é demonizada… Como a música deve se relacionar com o Brasil de 2019? Muitos dos discos preferidos deste blog lançados neste ano reverberam revolta e se posicionam contra o retrocesso. “Escumalha”, de Douglas Germano, é mais um deles.

Seu samba tem fúria. O violão desfere golpes na cadência de um trote, os versos cantados em coro soam como palavras de ordem gritadas em manifestações e as letras cutucam várias feridas. É porrada. Este é o terceiro disco solo do compositor paulistano e sua assinatura aparece cada vez mais autoral. Autor de “Maria da Vila Matilde” (2015), eternizada por Elza Soares em “A Mulher do Fim do Mundo”, ele tem outras duas composições gravadas pela cantora. Em “Escumalha”, Douglas Germano alcança mais uma proeza: uma parceria com Aldir Blanc – conhecido principalmente pela tabelinha inspirada com João Bosco nos anos 70 – na faixa “Valhacouto”.

“Golpe de Vista” (2016), seu segundo disco solo, já havia batido em cheio em nossos ouvidos e caixas de som. Se aquele trabalho havia sido lançado sob os efeitos do impeachment de Dilma Roussef, “Escumalha” chega junto com o desespero de quem tem consciência do que representam quatro anos de governo de Jair Bolsonaro. Passaram-se, por enquanto, apenas oito meses e estamos diante de um cenário em que temos de argumentar contra escravidão, ditadura militar, intolerância religiosa, discurso de ódio e tantos outros assuntos insuportáveis. Essa angústia paralisa muita gente boa e a arte ainda é uma das formas de cura e resistência. Ouçam “Escumalha” e leiam nossa breve entrevista com Douglas Germano feita ontem, por email. Em tempo: a palavra “escumalha” identifica a “escória social” ou a “ralé”.

Por que “Escumalha”?
Porque é para onde devemos olhar. Porque a escumalha constitui a grande massa do povo brasileiro. Abandonados pelo estado, estigmatizados, vítimas de preconceito, renegados, carentes de estruturas básicas, alimento do moedor de carne do capitalismo, fora das bolhas da metrópole, afastados da cultura e da tecnologia, da justiça, da saúde, de atenção, à mercê da teologia da prosperidade que lhes atende alimentando, entre outras coisas, sua autoestima.

Seu samba tem fúria (nas letras, no ataque ao violão, nos coros cantados como gritos de guerra). De onde vem esse sentimento?
Da indignação. Hoje tomei conhecimento de um jovem sendo chicoteado por seguranças de supermercado. Não dá pra fazer música sobre sol e passarinhos.

Tem um mistério no seu violão. É muito autoral, soa como que vindo de um samba que nunca existiu antes de você. Como você desenvolveu seu estilo e quais influências você identifica nele?
Bateria de escola de samba. Eu sempre penso nos baixos como surdos de 1ª, 2ª e 3ª. Tenho na cabeça aquele molho de uma bateria com um naipe de cuícas proeminente. Sou um autodidata no violão. Comecei a utilizá-lo porque o cavaquinho não dava o suporte que eu precisava para compor e sustentar a melodia. Eu já tocava desse jeito quando, mais tarde, fui estudar harmonia. Sou um instrumentista limitado, mas meu violão me serve muito bem para a composição. O primeiro violão que me chamou a atenção por me apresentar opções distintas na utilização dos baixos foi o do Paulinho da Viola. Depois conheci os outros. Baden Powell, João Bosco, Nelson Cavaquinho… São escolas do violão brasileiro. Eu e meus contemporâneos temos uma história gigantesca e brilhante que nos antecede na música brasileira. É natural esbarrar nesse ou naquele.

Suas letras parecem dialogar essencialmente com os excluídos. De onde vem a inspiração para esse tipo de poesia?
Da minha própria vida. Dos meus amigos, família, várzea, ensaio de escola de samba… Sempre estive, como disse o Mano Brown, “da ponte pra cá”. Da ponte pra cá é tudo bem diferente mesmo.

Como compositor, você tem uma obra que não reverbera na grande mídia tanto quanto mereceria. Porém, você tem conquistas que muitos sambistas renomados nunca tiveram: músicas interpretadas por Elza Soares e uma parceria com Aldir Blanc. Qual é o significado dessas duas realizações na sua carreira?
Isso se deve à dedicação ao ofício. Eu quero ser um bom compositor, conseguir uma boa síntese na letra, conseguir uma melodia criativa que atenda a esta letra… Eu nunca quis nada além disso: fazer a coisa com verdade. Não há um verso que eu tenha escrito que não seja fruto de uma experiência vivida. Tive indicação para APCA e Prêmios Shell, fui finalista do Grammy Latino, tenho três músicas gravadas pela diva Elza e uma delas transformada em bandeira importante na luta pelo fim da violência contra a mulher, compus alguns sambas de enredo… Mas sempre foi assim: eu e o papel, nenhum outro horizonte que não fosse esse. “Maria de Vila Matilde” não fiz para a Elza, fiz para minha mãe, para contar uma situação vivida dentro de casa. É aí que o universo se amplia. Sou muito grato e me comovo muito. Muita gente conhece minha música e não sabe como é minha cara. Isso é um privilégio. É minha música que ofereço, não a minha cara. A parceria com o Aldir é uma entre as maiores alegrias que tive na vida. Gênio da raça! Brasileiro máximo.

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