John Coltrane, 100 anos
John Coltrane faria 100 anos em 23 de setembro de 2026. O jazz mudou a partir de sua obra e os músicos que trabalharam com ele foram fortemente afetados por sua genialidade. Para celebrar seu centenário, Alê Duarte escreve sobre o trabalho paralelo dos três instrumentistas de seu quarteto clássico (o baterista Elvin Jones, o baixista Jimmy Garrison e o pianista McCoy Tyner) e o ilustrador e trompestista Edson Ikê nos presenteia com uma belíssima ilustração. Salve!

Texto: Alê Duarte
Ilustração: Edson Ikê
A intensa bateria de Elvin Jones cria uma cama polirritmica que preenche todos os espaços por onde os dedos ágeis de McCoy Tyner percorrem as teclas do piano, enquanto Jimmy Garrison, no baixo, é garantia de manter o caos controlado dentro de limites que, ainda experimentais, fazem voos estelares para retornarem à terra firme, geralmente ao estúdio de Rudy Van Gelder, em Nova Jersey, ou a qualquer palco onde o público está disposto a ter uma experiência espiritual cujo guia não é a palavra, mas os sons. Além dos três músicos, é no centro do palco que uma espécie de messias prega com sua voz metálica, ora saindo de um saxofone tenor, ora de um soprano. Na liderança, John Coltrane – o jazzista que anos depois seria santificado e ganharia altar em uma igreja em San Francisco, a Igreja Ortodoxa Africana de São João Coltrane (St. John Will-I-Am Coltrane African Orthodox Church) – batizava o que muitos consideram o melhor quarteto de jazz de todos os tempos.
O grande quarteto comandado por Coltrane, que durou de 1962 a 1965 e gravou alguns dos mais memoráveis e impressionantes discos da música do século 20 – e que continuam sendo grandiosos a cada descoberta e redescoberta – e que realizou algumas das mais impressionantes apresentações ao vivo da história do jazz, ficou conhecido como o “classic quartet”. Porém, seus integrantes têm uma história que vai além do trabalho ao lado do saxofonista que, se estivesse vivo, estaria completando 100 anos.
Diferente de outros gêneros musicais, e até pela sua natureza colaborativa, comunitária e de constante aprendizado, não são muitos os grupos de jazz que duram muitos anos tocando junto. Apresentações quase diárias, sessões de estúdio e gravações que ultrapassam a média de lançamentos de um mercado convencional (ainda mais no auge do jazz dos anos 1960) e a cultura das jans sessions, sempre foram um enorme desafio para se manter uma banda por mais de um punhado de meses, mas o quarteto de Coltrane durou quase três anos produzindo em alto nível, seja no palco ou no estúdio.

O último músico a compor o quarteto foi o baixista Jimmy Garrison. Foi o mais fiel dos músicos ao lado de Coltrane, gravando, entre discos ao vivo e de estúdio, quase 30 obras. Sua primeira gravação ao lado do saxofonista foi em 1961, no histórico “Live at Village Vanguard”, substituindo Reggie Workman, que vinha gravando com Coltrane com certa frequência. Nesse período, a banda já contava com Jones e Tyner na banda. Garrison permaneceu depois que os dois decolaram para novos voos solo e, ao contrário dos seus parceiros, não teve nenhum registro autoral além de “Illumination!”, sessão de 1963, lançada pela Impulse Records como Elvin Jones / Jimmy Garrison Sextet. É um grande disco que traz, além do parceiro de banda MCoy Tyner no piano, o sax alto de Sonny Simmons, o barítono de Chales Davis e a flauta de Prince Lasha, uma formação que já indica um hard bop se aproximando de um jazz mais experimental e espiritual. Depois, Garrison seguiu participando e gravando com grandes músicos tanto sob a influência de John Coltrane quanto fora dela. Ao lado da viúva do saxofonista, Alice Coltrane, ele assumiu o baixo em discos como “Monastic Trio” (1968) e “Universal Conciousness” (1971), entre outros, inclusive a histórica apresentação do Carnegie Hall também de 1971, lançada só em 2024 de forma completa. Ao lado dos ex-parceiros do quarteto clássico, Garrison tocou nos discos de Elvin Jones “Putin It Together” (1968) e “The Ultimate” (1969), ambos em trio com o saxofonista Joe Farrell lançados pela Blue Note. Já sob o comando de MCoy Tyner, foram “Today and Tomorrow” e “MCoy Tyner Plays Ellington”, os dois pela Impulse. Ele ainda gravou discos com Ornette Coleman, Sonny Rollins e Archie Sheep, mas há uma pequena pérola menos conhecida em sua discografia: o disco do baterista Beaver Harris, “From Ragtime to No Time”, de 1975, que reúne um time de craques do jazz de diferentes épocas para condensar a história do gênero em um único álbum. Pouco depois, em 1976, Garrison também faleceu prematuramente.
Se Garrison optou por seguir mais como um sideman do que como um artista solo, o mesmo não pode ser dito de McCoy Tyner. O pianista tem uma discografia extensa que se inicia ainda no começo dos anos 1960 e se estende até a primeira década do século 21. Seus álbuns iniciais, lançados pela Impulse, revelam um Tyner ainda comedido e mais apegado à tradição. Porém, a partir de 1967, já fora do quarteto de Coltrane e na Blue Note, a identidade de sua carreira solo começa a se revelar. A música é grandiosa, experimental, com claras influências africanas e orientais. Sua estreia na nova gravadora é o ótimo “The Real McCcoy” (1967), com o parceiro Elvin na bateria, e ainda Joe Henderson no saxofone e Ron Carter no baixo.
Em pouco tempo, o que já era bom só melhora. A trilogia final de álbuns pela Blue Note com “Expansions” (1970), “Extensions” (1973) e “Asante” (1974) ultrapassa as fronteiras do jazz estadunidense e vai encontrar no continente africano a sua inspiração. Discos que contam com músicos inspirados como os saxofonistas Wayne Shorter e Gary Bartz, o trompetista Woody Shaw, novamente Ron Carter e Elvin Jones, além de outros, abrem passagem para uma outra fase que já começa inspirada em uma nova gravadora, a Milestone – casa de Tyner por quase uma década. Em discos como “Sahara” (1972) e no ao vivo “The Enlightenment” (1973), o pianista despeja toda sua alma em obras-primas do spiritual jazz.
Com o passar dos anos, ele experimenta novas formações, inclusive com big bands como em “Song of the New World” (1973) e “Uptown/Downtown” (1988). Também em 1988, Tyner prestou reverência ao seu mestre nos 20 anos de sua morte. John Coltrane faleceu em 1967, prematuramente, vítima de um câncer. Seu antigo pianista reuniu no álbum “Blues For Coltrane” os saxofonistas Pharoah Sanders e David Murray, além de Cecil McBee no baixo e Roy Haynes na bateria, para uma homenagem passeando por temas compostos pelo saxofonista (como “Naima” e “Lazy Byrd”), além de composições próprias dedicadas ao gênio. Recentemente, em 2024, a gravadora Blue Note ainda resgatou uma apresentação que mostra a passagem e o desenvolvimento do Tyner da Impulse para o que ele se tornaria na Blue Note. É “Forces of Nature: Live at Slugs”, um show de 1966 onde o pianista aparece acompanhado do sax tenor de Joe Henderson, do baixo de Henry Grimes e da bateria de Jack DeJohnette – que prova a necessidade da arqueologia sonora para que grandes momentos como esse venham à tona.

Elvin Jones, ao contrário de Garrison e Tyner, estreou num disco próprio antes de entrar para o quarteto de Coltrane. Isso se deve ao fato de ser irmão de dois proeminentes músicos de jazz da virada dos anos 1950 para 1960: o pianista Hank Jones e o trompetista Thad Jones. “Keeppin’up With the Jonesses” é de 1958 e veio na esteira de uma série de gravações que o baterista já vinha fazendo ao lado de grandes músicos, entre eles Miles Davis e Sonny Rollins. Antes de sua carreira no quarteto, ele ainda chamou a atenção com o disco “Elvin!”, gravado em 1961. Ao lado de Coltrane, sua carreira e estilo passam a ser referência para qualquer baterista a partir dos anos 1960, tanto no jazz quanto em outros estilos – era, por exemplo, um dos ídolos de Ginger Baker, da banda roqueira Cream.
Seus primeiros grandes álbuns saíram de forma revezada pela Impulse (o já citado “Illumination!” e “Heavy Sounds”, de 1968, ao lado do baixista Richard Davis”) e pela Atlantic, com o balançado e ótimo “Midnight Walk” (1967). Depois, seu destino se assemelhou ao de Tyner. Ambos desenvolveram sua carreira de maneira mais sólida na Blue Note. Discos como “Genesis” (1971), “Mr. Jones” (1973) e o duplo “Live At the Lighthouse” (1974) – com bandas que misturam músicos de diferentes gerações, como os saxofonistas Frank Foster, George Coleman, Pepper Adams, Dave Liebman e Steve Grossman, entre outros, além do baixista Gene Perla e o pianista Jan Hammer – mostram o baterista explorando vertentes variadas do jazz, que vão do hard bop mais pesado até sonoridades mais experimentais.
Mais para o final dos anos 1970, passou a se apresentar como uma banda, a Elvin Jones Jazz Machine, cujo ápice é “Remembrance”, lançado pela MPS em 1978, com uma banda que trazia os saxofonistas Pat LaBarbera e Michael Stuart, o guitarrista Roland Prince e o baixista Andy McCloud III. Assim como Tyner, Jones não deixou de prestar seu tributo a seu mestre. É de 1994 o disco “Tribute to John Coltrane: A Love Supreme”, com Wynton Marsalis no trompete, Marcus Roberts no piano e Reginald Veal, uma homenagem ao maior saxofonista de todos os tempos com ninguém tocando saxofone.
Mesmo sem ser tão inspirado quanto o disco gravado por seu antigo parceiro de quarteto em homenagem ao gênio, conserva a dignidade que Elvin levou por toda a sua carreira que atravessou décadas. Ainda dos anos 1990, vale destacar o disco “Youngblood” (1992) e, também fruto da pesquisa de arquivos da Blue Note, o obrigatório disco triplo “Revival: Live at Pookie’s Pub”, lançado em 2022. O inspiradíssimo quarteto é complementado por Joe Farrell no saxofone, Wilbur Little no baixo e o pianista Billy Greene, com direito a participação especial do organista Larry Young )aqui em raro momento tocando piano) – e o álbum registra apresentações ao vivo gravadas durante três dias em 1967.
Se este ano celebramos os 100 anos em que John Coltrane desembarcou na Terra, os membros de sua banda são só um tímido legado da música-oração que esse grande gênio produziu em tão pouco tempo. Seu saxofone, em comunhão física e espiritual com o que os músicos de seu clássico e lendário quarteto produziu, continua a inspirar, curar e imbuir de beleza um mundo onde isso se faz cada vez mais necessário.
