Ascensão jazzística (ou não)

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Se você frequenta a Radiola Urbana, já conhece o Thiago França. Então, vamos poupá-lo da apresentação já repetitiva para esta breve entrevista — em que ele fala do projeto Space Charanga, que se apresenta no sábado (05 de julho), na noite Bujão de Jazz, na Serralheria. Confira o papo, ouça dois sons que ele gravou dos ensaios e vá ao show!

Por que “Space Charanga”?
O “Space” é referência ao Sun Ra. Das coisas que mais gosto na obra dele, estão a habilidade de propor dinâmicas diferentes e como ele transita por elas de um jeito muito natural: misturar melodias bonitas com barulhos, momentos mais líricos, outros mais psicodélicos, tudo de um jeito muito fluido. Esse foi um dos motes na minha cabeça quando resolvi criar esse projeto. “Charanga” é uma autorreferência à Espetacular Charanga do França — primeiro porque mantive a mesma formação do naipe de sopros; depois porque quis manter o ar festivo e bem humorado que tem a Charanga, além de todas as referências brasileiras do som.

Você diria que esse é o seu projeto mais jazzístico?
Sempre rola uma crise com esse termo, por remeter muito a períodos específicos da música instrumental norte-americana e esse trabalho tem tanto de música brasileira (entre outras misturas)… Às vezes me parece um pouco reducionista e pode acabar não contando grande parte da história. Essa ligação tem a ver com os improvisos, eu acho, mas ao redor do mundo todas as culturas se utilizam desse recurso e cada uma tem sua linguagem própria. Tenho pesquisado um pouco e venho inserindo no som. Mas, chatices à parte, sim, é mais jazzístico.

“Moacíria” é uma referência a Moacir Santos?
Sim! O Moacir é grande inspiração pra mim, sempre. Gosto do jeito dele compor, como as melodias são claras, marcantes, que mesmo com a complexidade rítmica, você é capaz de ouvir duas vezes e na terceira já estar cantarolando junto. Nesse estilo de melodia com a referência africana, usei o opanijé, que é um toque de candomblém pro orixá Obaluaê, e na hora me lembrou o Moacir. Gosto de assumir, não escondo referência.

“Ngoloxi / Ran” já é um som mais free, meio “Ascension”. O que mais te atrai nesse tipo de composição? E a associação a esse disco específico do Coltrane, faz sentido?
“Ngoloxi” ficou totalmente “Ascension”. Esse tema é recorrente em diversos trabalhos, gravei um disco com o Kiko Dinucci, “Funfun Session”, interpretando-o três vezes. Basicamente, é um fragmento de melodia que se desenvolve, podendo ir pra qualquer lado. Nessa formação, eu propus um arranjo semelhante ao “Ascension”: quis aproveitar a sonoridade dos quatro sopros pra criar uma teia melódia, meio tridimensional, onde tudo conversa de um jeito meio cubista. “R.A.N.” foi feita em cima da batera do Takara na música “Kampala” (disco Cozido, do Hurtmold) e a melodia é só um acorde que fica modulando — uma coisa que eu uso bastante tocando pocket piano, e que aqui transpus pro naipe. Entre as aparições do tema, rolam os improvisos bem soltos, bem barulhentos, contrapondo ao beat constante da bateria. São duas músicas diferentes, mas aqui fizeram muito sentido em serem tocadas juntas.

Bujão de Jazz
Show: Space Charanga (a partir das 0h)
Jazzcotecagem: DJ RamiroZ (a partir das 22h)
Sábado, 05 de julho, a partir das 22h
Serralheria – Rua Guaicurus, 857 – Lapa
R$ 15
Flyer:
Pedro Pinhel

(Por Ramiro Zwetsch)

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