Com a morte no bolso

Tensão e tesão impregnam as notas musicais e biográficas de Fela Kuti. O transe alcançado na colisão de metais em brasas com guitarras minimalistas e a batida perfeita tirada do pulso sempre firme de seu parceiro Tony Allen tornou-se a trilha sonora de uma crítica sólida à podridão que freava (e ainda freia) o desenvolvimento na Nigéria. Poucos artistas levaram tão a sério a proposta de música de protesto. Cada disco, cada verso, cada acorde cutucava uma ferida específica em um sem-número de fraturas expostas sem disfarce por um sistema de governo autoritário. Pedra no sapato alheio, Fela foi pisoteado pelo regime ao longo de toda carreira. Tanto apanhou e resistiu que, em 1975, acrescentou ao seu nome a expressão Anikulapo ­– “aquele que guarda a morte no próprio bolso”.

Fela Anikulapo Kuti incomodava. Presidente da Nigéria militar entre 1976 e 79, Olusegun Obasanjo não aceitava tanta crítica e o choque entre as duas partes se arrastou por anos e culminou na tragédia de 18 de fevereiro de 1977. Naquele dia, aproximadamente mil soldados invadiram a residência de Fela – denominada República Kalakuta, um território declarado pelo músico como independente da ordem do resto do país – e tocaram, literalmente, o terror. Mulheres foram estupradas, porradas foram distribuídas sem distinção de sexo ou idade e a casa foi incendiada. Pior: a mãe de Fela foi empurrada de uma janela do primeiro andar e morreu meses depois por consequências da agressão. Pior ainda: Obasanjo voltou ao poder da Nigéria em 1999, na primeira eleição para presidente do país em 16 anos.

Funmmilayo Ramsome-Kuti, morta aos 77 anos, foi mais do que a mãe do músico mais popular da Nigéria. Precipitou o feminismo em um país até hoje machista e foi a primeira mulher a dirigir um carro em ruas nigerianas. Seu engajamento político e ativismo contaminaram Fela ainda na adolescência e sua morte seria cantada, exorcizada. Sem-teto, Fela e banda preparavam o revide em um hotel improvisado como QG. “Coffin for Head of State” saiu em 79. Na tradução livre para o português, o título do disco diz “um caixão para a cabeça do estado” – na real, “um caixão para Obasanjo”. O negócio era cutucar a alma e a consciência do inimigo. Capa e letra falam por si. A colagem do designer Ghariokwo Lemi registra em fotos e legendas uma caminhada de Fela e integrantes de sua banda, carregando o caixão de sua mãe rumo à residência presidencial. Uma procissão. A contracapa sobrepõe recortes de jornais e manchetes que estampam frases como “Obasanjo é mentiroso” e “Obasanjo ficou multimilionário”. A letra explica o resto:

“Eles roubam todo dinheiro
Eles matam muitos estudantes
Queimam muitas casas
Queimam minha casa também
Eles matam minha mãe
Então eu levo o caixão”

Embora não se saiba ao certo se o corpo da senhora Funmmilayo estava ou não no túmulo, o fato é que a marcha fúnebre terminou com o despejamento de seu conteúdo nos portões da mansão presidencial. Obasanjo talvez nem se lembre disso e também pode não ter se importado quando o ato simbólico aconteceu, mas esse gesto foi eternizado em disco e aquilo tudo volta a ecoar toda vez que a bolacha roda nas vitrolas mundo afora.

O ataque à Kalakuta aconteceu depois de uma apresentação de Fela Kuti e sua banda Afrika 70 no FESTAC – Festival de Arte e Cultura Negra. O ódio dos militares veio à tona depois da apresentação da música “Zombie”, uma sátira escancarada à obediência cega e robótica dos soldados ao regime.

“Zumbis não vão se você não mandá-los ir
Zumbis não param se você não mandá-los parar
Zumbis não voltam se você não mandá-los voltar
Zumbis não pensam se você não mandá-los pensar
Mande-os irem em linha reta – marchem, marchem, marchem
Sem cérebros, sem senso – marchem, marchem, marchem
Mande-os matar – marchem, marchem, marchem
Sem cérebros, sem senso – marchem, marchem, marchem
Mande-os morrer – marchem, marchem, marchem”

A música estava entre os maiores sucessos de Fela no período e sua execução ao vivo era certeza de retaliação militar. Em 1978, no aniversário de um ano da invasão à Kalakuta, o músico casou-se em uma mesma cerimônia com 27 mulheres – muitas delas cantoras e dançarinas do Afrika 70. No mesmo dia, a banda fez show em Lagos, tocou novamente “Zombie” e levou o troco mais uma vez. A banda inteira ficou retida na prisão por dois dias e depois todos foram enviados para um exílio forçado em Gana.

Entre uma treta e outra, Fela acumulava espancamentos, ossos quebrados e cicatrizes. Toda vez que ia preso, sua coleção aumentava e sua resposta às agressões sempre aparecia em forma de música. Entusiasta da maconha, foi detido por posse da erva algumas vezes. Em outra, a coisa fedeu de vez. Embora estivesse limpo – sem nada “em cima” –, policiais tentaram incriminá-lo colocando uma certa quantidade da ganja em suas coisas. Ligeiro, Fela a engoliu e instigou os gambés a esperá-lo defecar para finalmente efetuar o flagrante. Na cela, o músico trocou as fezes com outro prisioneiro, obrigando a polícia a encarar um dilema: admitir a própria corrupção ou deixá-lo ir embora – o que acabou acontecendo. Surgiu ali a inspiração para “Expensive Shit” (1975), “merda cara” na tradução sem rodeios. No encarte do LP original, Fela escreveu: “homens uniformizados alegaram que eu tinha engolido maconha. Minha merda foi mandada para teste de laboratório. Resultado negativo.”

Apesar de tantos machucados, Fela tinha uma excepcional capacidade regenerativa que o fazia retornar ao combate sempre que fosse preciso. No final dos anos 70, o músico fundou seu próprio partido político (Movement of the People) e lançou uma campanha para se tornar presidente da Nigéria em 1979, mas sua candidatura foi recusada. Na década seguinte, formou a banda Egypt 80, com a qual gravou diversos discos e continuou enfurecendo os governantes com seus relatos de abuso. O auge da denúncia fica explícito ao final de “International Thief Thief”, quando Fela cita os nomes do presidente Olusegun Obasanjo e do vice, Moshood Abiola, com todas as letras. Em 1983, Fela concorreu à presidência novamente, mas desta vez foi detido e levado a prisão, onde permaneceu por 20 meses. Depois de solto, a frequência com que lançava discos diminuiu em medida inversamente proporcional à ascensão da ditadura no país.

Rumores davam conta de que ele estava sofrendo de uma doença da qual se recusava a receber tratamento. Até que, no dia 3 de agosto de 1997 seu irmão mais velho chocou a nação com a notícia de que Fela Kuti havia morrido, de Aids, no dia anterior. Mais de um milhão de pessoas compareceram ao funeral do artista em seu antigo clube Shrine – hoje administrado por seu filho e também músico, Femi Kuti – e, mais de 10 anos depois, os admiradores continuam visitando o local onde seu corpo está enterrado, sob um pedestal de mármore na República Kalakuta. Alguém duvida de que ele estava certo ao se auto-intitular “Anikulapo”?

(Por Lígia Nogueira e Ramiro Zwetsch)
(Ilustração: Maria Valentina)

 

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