Mensagem épica

kamasi

“The Epic”, o primeiro álbum de estúdio do saxofonista Kamasi Washington, faz jus ao nome. São 172 minutos distribuídos em 17 músicas e 3 discos, seja em CD ou no recém-lançado vinil. Sua banda base conta com 10 músicos, incluindo 2 vocalistas, e a gravação traz também uma orquestra com 32 integrantes e um coro com 20 vozes — uma delas da brasileira Thalma de Freitas. A missão que Kamasi se impôs e o desafio que ele lança para seus ouvintes, portanto, não poderia ser menos do que épico.

Pretensioso? Não há dúvida que há muita pretensão em um trabalho tão extenso, mas existem dois pontos básicos que tornam o resultado genial: em primeiro lugar, não se trata de música pop, mas sim de jazz com tudo que o gênero tem de melhor a oferecer; e segundo, cada pequeno detalhe (instrumento, voz, música) funciona tão bem que em pouco tempo estamos nos perguntando em que momento a pretensão se transformou em um dos mais perfeitos exemplos da capacidade de renovação do jazz contemporâneo.

Logo na capa a mensagem cósmica já aparece. Kamasi parte do spiritual jazz de Coltrane, Albert Ayler e Pharoah Sanders, mas nunca envereda para o free jazz. Sua sonoridade busca mais semelhança com combos que foram influenciados pela nova dimensão aberta por esses saxofonistas, mas segue uma linha evolutiva e uma sonoridade mais encontrada nas gravadoras de jazz underground que surgiram a partir dos anos 70. Dessa forma, são fortes os ecos de discos da Tribe — o grupo liderado por Phil Ranelin e Wendell Harrison em Detroit — e da gravadora Strata East, principalmente na mistura de coro e instrumentação potente que pode ser ouvida no primeiro disco de outro grande saxofonista: “Capra Black”, de Billy Harper.

Como um músico da cena de Los Angeles, no entanto, o gigantismo do som de Kamasi soa claramente influenciado pela figura de um monumento do jazz local — Horace Tapscott e sua fundamental Pan-Afrikan Peoples Arkestra, com seus tons crescentes, climas percussivos e solos virtuosos que se tornam quase orações livres cheias de veneração espiritual.

O saxofonista, porém, não foca o som de “The Epic” no passado nem se torna um subproduto de seus heróis. Ele traz essa influência para uma dinâmica mais moderna, sem necessariamente facilitar ou rifar a qualidade de sua música para quem já é fã do estilo, assim como cria uma linguagem capaz de trazer gente que nunca ouviu jazz para dentro de seu círculo. Ele faz isso sem precisar apelar para misturas modernas ou elementos eletrônicos que vão além do uso de instrumentos. De uma família de músicos, ao mesmo tempo em que crescia com o jazz, Kamasi também ouvia hip-hop, funk e soul — estes dois últimos, bem presentes ao longo do álbum. Já a parte do hip-hop, o músico deixa para suas parcerias com Kendrick Lamar e Flying Lotus.

O disco é dividido em 3 volumes e cada um leva um nome diferente: “The Plan”, “The Glorious Time” e “The Historic Repetition” — este, o único em que o saxofonista não incluiu apenas composições próprias. Vale ressaltar que a ordem das músicas, na versão em vinil, teve de ser alterada para que tudo fosse acomodado na mídia. Apesar da presença de orquestra e coro, há várias músicas em que Kamasi usa uma banda menor, em muitos casos dando um som mais funk às composições.

Logo na abertura, toda a potência é usada em “Change of the Guard”. Sopros, percussão, dois pianos e dois baixistas, além das cordas e das vozes, sugerem que a jornada será recompensadora. O tom muda um pouco, mas sem perder nenhuma qualidade, em “Askim”, que vem logo em seguida com uma banda menor — o começo climático lembra algumas gravações da Pan-Afrika Peoples Arketra de Horace Tapscott, mas entra em um ritmo mais funkeado e traz um solo de baixo elétrico que mostra porque Thundercat é um dos músicos mais admirados na cena de L.A..

Das 17 músicas que compõe o álbum, quatro tem vocal. “The Rhythm Changes” tem forte influencia soul e potência para cativar mesmo quem nunca ouviu jazz na vida. “Herietta Our Hero” é uma veneração gospel com bom destaque para o coro de vozes. Já o standard “Cherokee” (Ray Noble), famosa nos sopros de Chalie Parker, ganha uma embalagem mais pop e um balanço meio reggae — mas isso logo muda de figura com o vocal quase clássico de Patrice Quinn. O resultado é delicioso. Já em “Malcolm’s Theme”, o vocal feminino que marca as outras faixas ganha a contribuição de um timbre masculino nesta regravação de uma homenagem ao líder negro assinada por Terence Blanchard e Jamie Davis.

A variedade do disco se nota também nas faixas instrumentais. Um dos destaques é a contemplativa “Seven Prayers”, que traz um clima das gravações da Tribe, principalmente nos discos de Phil Ranelin; “Isabelle” é pontuada pelo órgão e traz um tom mais intimista; já as pedradas como “Re Run” e “Re Run Home” são versões bem diferentes de uma mesma música: enquanto a primeira traz todo o aparato do time completo reunido por Kamasi, a outra é executada por uma banda menor em uma gravação mais balançada e com quase o dobro de duração. Nem mesmo a música clássica escapa dos sopros de Kamasi, com uma linda releitura de “Clair de Lune”, de Debussy.

Ainda que ao longo dos últimos anos tenham surgido grandes discos de jazz contemporâneo (como os dos pianistas Brad Mehldau e Aaron Parks ou o da saxofonista Matana Roberts), o resultado final de “The Epic” tem tudo para renovar um interesse maior pelo jazz. Não é a toa que a última música se chama “The Message”. A mensagem foi passada e deve ser seguida com louvor.

(Por Alexandre Duarte)

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