Marsalis louva Moacir

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Quando este blog perguntou a Wynton Marsalis o que poderíamos fazer em termos de educação musical no Brasil para que a obra de Moacir Santos fosse mais conhecida do público, ele respondeu sem pestanejar. “As escolas deveriam criar um concurso de música com o nome dele. É um grande músico, um grande artista, de um nível muito alto. Sua música é tão linda, cheia de amor e vida. Ele merece muito ser reconhecido porque sua obra é inacreditável.” Este depoimento foi concedido pelo norte-americano na segunda-feira 17/06, em entrevista coletiva realizada no Sesc Paulista. O evento anunciava uma extensa programação com a Jazz at Lincoln Center Orchestra, de Nova Iorque, da qual ele é diretor musical e trompetista. Desde a semana passada até o final desta, um total de 21 atividades terão acontecido – entre concertos, ensaios abertos, workshops, palestras, uma jam session e um bate-papo.

Boa parte disso já aconteceu e os três concertos que acontecem de quinta a sábado no Sesc Pinheiros já estão com lotação esgotada, mas ainda há tempo para conferir a apresentação gratuita de encerramento do projeto, no domingo 30/06, no Parque Dom Pedro. A Radiola Urbana implora aos seus leitores: não percam. Assistimos a três concertos e todos eles começaram com a pulsante “Milestones” (clássico de Miles Davis, de um álbum homônimo, de 1958) e tiveram uma versão de chorar de “Africa” – composição lançada por John Coltrane em 1961 e executada pela JLCO com dois contrabaixos, além de um solo não menos do que sublime da saxofonista Camille Thurman. Duke Ellington, Count Basie, Thelonious Monk, Jelly Row Morton, Dave Brubeck, Dizzy Gillespie e Mary Lou Williams também são contemplados. Outra coisa comum ao repertório dos três concertos que vimos: sempre há uma música de Moacir (“Coisa Nº2” e / ou “Amphibious”), que Marsalis introduz como “um dos maiores compositores do mundo”.

É claro que há de se levar em conta as disparidades entre os projetos políticos históricos no Brasil e nos Estados Unidos (sobretudo sob as trevas do atual governo federal, em que nem educação tampouco cultura são prioridades), mas a orquestra norte-americana tem um exemplo a nos oferecer. Por lá, eles criaram um concurso focado em Duke Ellington e distribuíram partituras gratuitamente pelas escolas. “Nos anos 80, quando eu conheci o Mr. Marsalis, Ellington também não era tão conhecido. Nós começamos, então, um processo há 25 anos, essencialmente focado na música dele na Jazz at Lincoln Center”, diz Todo Stoll, vice-presidente de educação da Jazz at Lincoln Center e da Cincinnati Conservatory of Music Jazz Orchestra. “25 anos depois, temos 300 mil arranjos distribuídos pelos Estados Unidos. Alcançamos 7 mil escolas e esse repertório hoje é tocado por quase 1 milhão de pessoas. Então, temos pelo menos duas gerações de músicos que agora conhecem Duke Ellington.”

“Nos dois primeiros anos, as bandas eram tão ruins que eu quase desisti dessa ideia. As crianças não conseguiam tocar clarinete, não sabiam usar as surdinas (aparato usado na ‘boca’ de instrumentos de sopros para alterar o timbre e o volume do som), não conseguiam improvisar nem tocar o blues”, completa Marsalis. “Não sabiam tocar juntos nas funções definidas nos diferentes naipes de uma big band. No último ano, 14 das 15 bandas finalistas tocaram sem precisar de partitura de tanto que praticaram e absorveram essa música. É inacreditável, fico ansioso em saber como será cada ano.”

O pernambucano Moacir Santos gravou quatro álbuns entre 1965 e 1978 e o mais reverenciado ainda é o primeiro, “Coisas”, o único gravado no Brasil. O trabalho traz 10 composições instrumentais que reúnem orquestrações baseadas no jazz e na música erudita sustentadas pela diversidade rítmica afro-brasileira. Sua obra inspirou os grandes mestres consagrados da MPB (de Tom Jobim a Milton Nascimento) e ele foi professor de bambas como Roberto Menescal, João Donato, Nara Leão, Sérgio Mendes, Paulo Moura, Baden Powell e outros. Sua composição mais celebrada, “Coisa Nº5”, se tornou um standard do samba-jazz e foi regravada por Wilson Simonal, Os Ipanemas, Os Cobras, Edison Machado, Zimbo Trio, Nara Leão e Sérgio Mendes. Em 1967, se mudou para os Estados Unidos – onde gravou três LPs pelo prestigiado selo de jazz Blue Note – e lá ficou por quase 40 anos até sua morte, em 2006.

“Quando eu chego em São Paulo em 1980, ele já não morava no Brasil há muito anos. Ele foi embora muito cedo. Tinha uma ditadura violenta. Quando ele sai, ele rompe de uma certa forma com a gente. Tinha a questão racial? Sempre teve”, observa Nailor Proveta, clarinetista, saxofonista e líder da Banda Mantiqueira. Ele é um dos músicos brasileiros convidados nas apresentações da LCJO no Brasil. “A gente ouvia muito os discos antigos dele. ‘Quem é ele? Cadê ele? Como toca essa música? Cadê as partituras?’. Não tinha, não existia. Nunca no Brasil se guardou esses documentos. Uma hora ele falou: ‘ninguém tá cuidando disso aqui, vou pra um lugar onde vão me dar mais valor’. A primeira vez que eu vi uma partitura do Moacir Santos foi em 1994, quando fui dar aula em Campos de Jordão. O baixista Sizão Machado falou que o Moacir também viria e apareceu uma partitura. Se nós, que somos do meio, não tínhamos as partituras e documentos, imagina o resto do público, os estudantes.”

Antes de partir, o maestro experimentou pelo menos uma parte do merecido reconhecimento no Brasil. Os álbuns “Ouro Negro” (2001) e “Choros & Alegrias” (2005) foram festejados por público e crítica. O primeiro trazia novas interpretações de suas músicas, com participações vocais de gente do quilate de Gilberto Gil, Djavan, Joyce, João Bosco, Milton Nascimento e Ed Motta. No time instrumental, além de Proveta, mais craques: o violonista Mario Adnet, o saxofonista Zé Nogueira (os dois produtores do trabalho), o flautista e saxofonista Teco Cardoso, o baixista Jorge Helder, o pianista Cristovão Bastos, entre outros. Já o outro disco, gravado com o mesmo time de instrumentistas, trazia composições inéditas e a participação de um certo Wynton Marsalis na música “Rota Infinita”.

Em 2017, Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz fizeram um show em São Paulo com o repertório de “Coisas” e o maestro baiano avisa que este repertório deve ser lançado em vinil ainda em 2019. Ele, aliás, é um dos educadores brasileiros empenhados no ensino da obra de Moacir Santos e músicas do pernambucano já fazem parte do repertório da banda do projeto social Rumpilezzinho (formada por jovens e crianças). Falta muito e é difícil acreditar que seja possível se aproximar do resultado que a JLCO alcançou com o Duke Ellington nos Estados Unidos.

Vinicius de Moraes, em “Samba da Benção” (parceria com Baden Powell, de 1967), declama um agradecimento a mestres da música brasileira (como Cartola, Ary Barroso, Tom Jobim, Noel Rosa, Pixinguinha, João Gilberto e Dorival Caymmi, entre muitos outros) e encerra com os seguintes versos antes de voltar para o refrão: “A benção, maestro Moacir Santos / Não és um só, és tantos como/ O meu Brasil de todos os santos”. Pelo menos na letra do poetinha e na credibilidade junto aos músicos brasileiros, Moacir já está no topo. Chegaremos lá?

Vai lá:

Jazz At Lincoln Center Jazz Orchestra

Quando: Domingo 30/6, às 11h

Onde: Sesc Parque Dom Pedro – Praça São Vito sem número

Quanto: grátis

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