Marvin Gaye é o homem

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Não há o que discutir: Marvin Gaye é um dos artistas mais importantes da história da música e “What’s Going On” (1971) está entre os álbuns mais inspirados de todos os tempos. Trata-se, portanto, de um acontecimento épico o lançamento do inédito “You’re the Man”, gravado em 1972, na esteira da repercussão de sua obra-prima. Ainda que seja compreensível que seu autor não tenha ficado plenamente satisfeito com o resultado e tenha decidido engavetar o projeto, essa coleção de 17 faixas até então desconhecidas não só desvendam uma parte da produção de um gênio em seu auge criativo como também ajudam os fãs a entenderem o percurso que ele fez na transição do discurso político para o hino erótico (e igualmente clássico) de “Let’s Get It On” (lançado em 1973).

“You’re The Man” é um meio-termo entre o engajamento e a sedução. Gaye, que teria feito 80 anos no dia 2 de abril, trabalha nessas músicas sob impacto dos efeitos da Guerra do Vietnã, do autoritarismo do governo do presidente norte-americano Richard Nixon e das campanhas para eleição presidencial daquele ano. A faixa-título – a única lançada como single na época e uma das melhores do disco – traz alguns versos que reverberam sua indignação e poderiam perfeitamente ser projetadas para a realidade de 2019: “não queremos ouvir mais mentiras” e “políticos e hipócritas estão transformando todos nós em lunáticos”. Há no álbum uma versão alternativa da música, em que a letra diz: “talvez o que esse país precise seja de uma dama como presidente” e “os demagogos e inimigos das minorias jamais deveriam ser presidentes”. Mais atual, impossível. Faixas como “The World is Rated X”, “Piece of Clay” e “I Want to Come Home for Christmas” também refletem sobre questões sociais. A última é sobre o irmão do músico, Frankie, que foi convocado para as trincheiras no Vietnã.

Já faixas como “You Are That Special One”, “We Can Make it Baby”, “Symphony” e “I’d Give My Life For You” (agrupadas em sequência no álbum) representam a infalível veia romântica do artista, que atinge seu auge nos anos seguintes com os hinos “Let’s Get It On”, “I Want You” (1976) e “Sexual Healing” (1982) – hits que, se levantarem as estatísticas, certamente estarão entre os que mais impulsionaram a taxa de natalidade do planeta nos anos 70 e 80.

Musicalmente, o soul de Marvin Gaye está tinindo e trincando. Os arranjos combinam o balanço instrumental com a potência vocal e a inspiração transborda em faixas como “I’m Going Home”, “Checking Out (Double Clutch)” e “Where Are We Going”. Para seu biógrafo David Ritz, o artista chegou a dizer que “quando você está no topo, não há lugar para ir senão para baixo”. O alto nível de exigência depois de “What’s Going On” e o pouco sucesso da faixa-título talvez o tenham levado a desistir de “You’re the Man”. É justa a discussão que questiona a legitimidade de lançar uma obra rejeitada por seu criador, 35 anos depois de sua morte – a mesma dúvida surge, aliás, com a chegada recente dos discos da fase racional de Tim Maia nas plataformas digitais. Uma vez lançado, no entanto, é disco para ouvir sem parcimônia e se inspirar – para o amor e para a revolta.

One comment

  1. Excelente!
    Mas tem mais canções que já eram conhecidas, não? “I wanto to come home for christmas” saiu em compacto e em compilação, Symphony saiu em disco póstumo tbm e tals.
    Abraços.

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