Viagem à lua

“The Dark Side of the Moon” (Pink Floyd) completa 40 anos em 2013 e será interpretado na íntegra pela banda cearense Cidadão Instigado no evento 73 Rotações — que acontece, de 26 a 29/09, no Sesc Santana. 50 milhões de cópias vendidas, a bizarra sincronia com “Mágico de OZ” e a química que levou uma das principais bandas da história do rock ao seu ápice: Daniel Setti escreve sobre esta obra-prima concebida por Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason. Leia!

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Atingir a marca de 50 milhões de cópias vendidas em todo o planeta – desempenho inferior, apenas, ao do imbatível “Thriller”, de Michael Jackson –, permanecendo incríveis 741 semanas (15 anos) na lista dos mais vendidos da revista americana Billboard, e ainda assim ser uma das obras-primas definitivas do rock. Tal harmonização perfeita entre quantidade e qualidade é o principal dos vários trunfos de “The Dark Side of The Moon”, o oitavo dos 14 álbuns de estúdio do Pink Floyd, cujo lançamento completou 40 anos no começo de março.

As razões do fenômeno

Os outros acertos do disco, produzido pela própria banda londrina entre junho de 1972 e janeiro de 1973 nos míticos estúdios Abbey Road, ajudam a explicar o fenômeno. Trata-se de um trabalho “conceitual”, ao gosto da época de excessos “progressivos”, mas que diverge de contemporâneos complicados como Yes e Emerson, Lake & Palmer ao enfocar nas letras inquietudes tipicamente humanas e atemporais, como a angústia em relação à passagem do tempo (“Time”), os perigos da relação com o dinheiro (“Money”) e a (in)sanidade (“Brain Damage”). Enfim, é complexo sem ser chato, e elaborado sem deixar de lado o acessível, o “assobiável”. Além disso, equilibra astutamente a presença de belas e inesquecíveis canções, excelência instrumental – os solos de guitarra de David Gilmour são tão memoráveis quanto as melodias – e pioneiros experimentos psicodélico/eletrônicos (ouça “On The Run”).

The “Dark Side of The Moon” x “O Mágico de Oz”

The “Dark Side of The Moon” ocupa um lugar especial na história da música pop também pela mitologia criada a seu redor. É impossível falar deste disco, por exemplo, sem mencionar seu misterioso “parentesco” com o filme “O Mágico de Oz” (1939), uma das melhores lendas urbanas do rock, passada de boca em boca – e sempre negada pela banda – desde 1995. O álbum serviria como uma trilha sonora sincronizada quase perfeita para a película. O que nos leva a pensar que ou Gilmour, Water, Wright e o baterista Nick Mason compuseram, arranjaram e gravaram “The Dark Side” assistindo às aventuras de Dorothy e seus amigos, em um trabalho milimétrico, ou alguma espécie de coincidência “cósmica” ocorreu.

Fato é que, ao darmos play no LP justamente quando o célebre leão da MGM acaba de rugir pela terceira vez na vinheta de abertura, encontramos uma série de momentos em que a junção som e imagem dão sentido ao enigmático “projeto”, batizado pelos fãs de “The Dark Side of The Rainbow” (em alusão ao arco-íris citado na canção “Over the Rainbow”, a mais famosa do longa).

As duas obras sobrepostas vocês podem assistir no vídeo logo abaixo. Quem estiver com preguiça pode ir direto aos pontos que justificam essa conspiração roqueira:

-04’23”: queda de Dorothy no chiqueiro coincide com o tenso começo de “On The Run”

-08’14”: o barato da sonhadora Dorothy, que canta “Over the Rainbow”, é cortado com os despertadores de “Time” e a chegada da bruxa

-16’06”: o auge da jam session vocal “The Great Gig in The Sky” embala o início do furacão

-19’44”: o filme fica colorido exatamente no começo de “Money”. Haja ironia!

-37’22” : o Espantalho doidão dança ao som de “Brain Damage” (“o lunático está no gramado”, diz a letra, sendo que também pode significar “o lunático está “chapado”)

Documentário esmiúça obra

Coincidências e / ou excentricidades à parte, nunca é tarde para vasculhar a intimidade deste grande disco. A edição nacional do DVD “The Dark Side Of The Moon” (ST2 Videos) foi lançada em 2003, quando o disco celebrava 30 anos. Sim, trata-se de um registro fundamental para quem quiser tentar captar o que estava acontecendo nas vidas e nas cabeças de Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason à época, e como estes elementos foram capazes de produzir um álbum tão próximo à perfeição roqueira.

Com uma duração pontual, exata para não cansar os espectadores com suas destrinchadas técnicas, o DVD mostra música a música, passo a passo, como “Dark Side Of The Moon” foi produzido, e como a criatividade em estúdio dos músicos se aliou à beleza e consistência das composições (a maioria escrita por Roger Waters).

(Veja a primeira parte do documentário no link abaixo)

A vez de Roger Waters

O baixista e vocalista, não por acaso, é a figura mais interessante neste documentário. A ele sobrou a responsabilidade de criar músicas e dar um novo rumo a um bando de caras que ainda tentava achar seu trilho após seu primeiro guru Syd Barrett ter pirado irreversivelmente. E foram as angústias pessoais de Waters – o tempo passando sem controle de “Time”, as dualidades da vida de “Breathe” e “Us and Them” – que moldaram uma obra-prima com hinos eternizados (como um todo ou isoladamente) e que, nas palavras de um dos jornalistas entrevistados, é sim um álbum conceitual, mas que não tira a imaginação de quem ouve.

Como extras, surgem incríveis reinterpretações das partes do disco pelos próprios criadores – destaque para uma preciosa versão de Roger Waters cantando ‘Money’, com vocal inseguro e semi-afinado. Um documento que vale pelo som (remasterizado, tinindo), as imagens (mesclas de takes da banda tocando na época, os músicos ouvindo os canais separados hoje em dia e clipes da era pré-videoclipe) e as comoventes declarações dos envolvidos e de alguns ouvidos chocados – até hoje – com a mais nobre estripulia já aprontada pelo Pink Floyd.

(Por Daniel Setti)

*Este texto reúne duas partes publicadas originalmente pelo autor no site da MTV (em 14-08-2003) e na coluna Música no Blog, no site da Veja (em 02.03-2013)

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